Início Conceitos econômicos Uma economia é para produzir bem-estar, não PIB ou arrecadação tributária

Uma economia é para produzir bem-estar, não PIB ou arrecadação tributária

por William Watson

Eu normalmente sou um grande fã do TD Economics e seus vários informativos e publicações, que você pode receber de graça. Um economista bastante conhecido uma vez me disse que o propósito dos departamentos econômicos dos bancos não é auxiliar em seu processo decisório propriamente dito, mas sim polir a marca do banco, impressionando os clientes com análises inteligentes. Se é assim, o TD Economics quase sempre obtém sucesso.

Mas seu relatório mais recente1, “Uma introdução ao orçamento baseado em gênero”, me parece uma exceção à regra. O orçamento baseado em gênero não é uma ideia do TD, é claro. É a pedra angular, tema, meme, história, vanguarda, texto, subtexto e virtualmente qualquer outra linha do orçamento recente do governo federal2.

Para explicar por que o orçamento baseado em gênero é importante, o TD apresenta o exemplo a seguir, ecoando o orçamento (o qual, de fato, se baseou em um estudo do Royal Bank):

Um exemplo ilustrativo dos potenciais benefícios: se o Canadá conseguisse reduzir pela metade a diferença atual na taxa de participação da força de trabalho entre homens e mulheres, o impacto resultante no crescimento econômico poderia ser suficiente para neutralizar o problema econômico de uma população em envelhecimento.

Em minha opinião, aqui se comete um erro crasso de economia. Nós não temos uma economia para produzir PIB ou crescimento do PIB. Temos uma economia para produzir bem-estar. Queremos que as pessoas façam as escolhas que maximizem seu bem-estar. Não queremos que elas façam escolhas que as prejudiquem com o propósito de aumentar o PIB, ou mesmo o crescimento do PIB.

Como as pessoas – neste caso, as mulheres – decidem se vão participar do mercado formal de trabalho ou se preferem trabalhar em casa? Elas comparam, por um lado, o quanto ganhariam (descontados os custos) ao entrar no mercado de trabalho e trabalhar em troca de um salário, com o valor – geralmente implícito – do seu tempo gasto trabalhando em casa.

Uma despesa relacionada ao mercado de trabalho é o custo que elas podem ter de arcar com creches em vez de elas próprias cuidarem dos filhos, que é o que elas podem estar fazendo. Este custo é uma despesa efetiva oriunda da decisão de entrar no mercado formal de trabalho. Se elas não cuidam de seus filhos, alguém tem que cuidar. Como todos os custos, isso deve ser levado em conta quando a decisão é tomada.

Em muitos casos, sem dúvidas, as mulheres decidem que, dado o custo das creches, não compensa entrar no mercado formal de trabalho. Então elas não entram. O PIB sofre com o resultado. O crescimento do PIB também é afetado, mesmo que apenas temporariamente, já que o PIB não recebe o estímulo pontual das mulheres deixando seus trabalhos domésticos – os quais não são considerados no cálculo do PIB – e iniciando o trabalho assalariado – que é. Também não tem o impacto do pagamento da creche, porque isso também teria crescido se uma mãe começasse a pagar alguém para cuidar de seus filhos em vez de ela própria cuidar.

Então, nós temos um PIB menor quando as mães ficam em casa. Mas temos menos bem-estar? Não, exatamente o oposto.

Nós quase certamente recebemos mais bem-estar. A mãe comparou todos os custos e benefícios de ficar em casa com todos os custos e benefícios de entrar para o mercado de trabalho e escolheu o que é melhor para ela. Isso é o que queremos em economia: tomadores de decisões avaliando todos os custos e benefícios de suas decisões3. Isto é o que as mães que decidem se entram ou não no mercado de trabalho quase que certamente fazem4.

Um argumento que você ouve bastante atualmente é que se o Estado assumisse os custos das creches, mais mães entrariam para a força de trabalho (e o PIB cresceria, e talvez também a taxa de crescimento do PIB, assim como a arrecadação do Estado, e assim por diante). Isso é quase que certamente verdade. Mas o que está acontecendo neste caso? As mães estão sendo convidadas a ignorar um custo muito real resultante de suas decisões de entrarem no mercado formal de trabalho. Não é surpresa que, quando elas são liberadas de um importante ônus de suas decisões, elas tomem uma decisão diferente. Mas essa não será mais a decisão que maximiza o bem-estar, dados todos os custos e benefícios decorrentes dela.

Existem muitos estudos econômicos atualmente centrados em se as pessoas são racionais em suas escolhas, assim como um crescente ceticismo de que o sejam. Não estou certo de que as mães saibam decidir se devem trabalhar no mercado formal ou fazer trabalhos domésticos. Mas tenho uma certeza razoável de que elas sabem decidir melhor do que qualquer pessoa que pense que pode tomar a decisão por elas.


Esse artigo foi originalmente publicado como An economy is for producing well-being, not GDP or tax revenue para o Instituto Fraser.

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1 comentário

Anderson 09/08/2019 - 15:06

Excelente abordagem.

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