Início Ensino e pensamento econômico Roberto Campos, o socialista que se tornou liberal

Roberto Campos, o socialista que se tornou liberal

por Rafael Ribeiro

Se ainda estivesse vivo, Roberto Campos estaria completando 103 anos hoje. Ele foi um herói brasileiro cujas ideias atemporais ainda estão iluminando a escuridão.

Uma queixa comum em meu país, o Brasil, é que nossos heróis não recebem o devido reconhecimento, ou que suas conquistas só são percebidas e apreciadas após a morte. Além desse reconhecimento tardio, outro fator também está em ação: uma seleção injusta e tendenciosa de figuras notórias que são apresentadas e glorificadas pelos mesmos historiadores marxistas que ditam amplamente como nossa história é ensinada.

No entanto, graças a um recente iluminismo de ideias em curso no Brasil nos últimos anos, alguns esquecidos nomes políticos e acadêmicos que dedicaram suas vidas para promover e defender a liberdade estão se tornando mais conhecidos. Esta é uma breve biografia de um deles.

Um brasileiro multitalentoso

Nascido em 17 de abril de 1917, em Cuiabá, capital do estado do Mato Grosso, Roberto de Oliveira Campos, comumente referido como Roberto Campos, foi um economista brasileiro, escritor, diplomata, político e também membro da Academia Brasileira de Letras. No final da década de 1930, iniciou sua carreira no Ministério das Relações Exteriores do Brasil. Essa posição o enviou para os Estados Unidos, onde estudou economia na George Washington University e na Columbia University. Alguns anos depois, ele representou o governo brasileiro na conferência de Bretton Woods no pós-guerra.

Getúlio Vargas
Getúlio Vargas

De 1951 a 1953, Campos trabalhou na administração do presidente Getúlio Vargas como assessor econômico. Ainda não muito entusiasmado com as ideias liberais clássicas, Roberto Campos ajudou a promover políticas nacionalistas para a industrialização do Brasil. Ele continuou trabalhando no governo dos sucessivos presidentes Juscelino Kubitschek, João Goulart e Castelo Branco. Embora ele ainda se autoproclamasse um “pragmático nacional democrata”, ele era um pensador crítico que aprendeu com a experiência e a realidade. Seus pontos de vista amadureceram na direção de uma apreciação cada vez maior pela liberdade e pelos mercados livres. De fato, ele finalmente renunciou por causa da crescente intervenção do Estado na economia e depois serviu como embaixador brasileiro nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Mais tarde, em meados da década de 1980, quando o Brasil estava passando de um regime militar para uma democracia multipartidária, Campos juntou-se a um partido recém-formado e concorreu com sucesso para o Senado por seu estado natal, o Mato Grosso. Ele cumpriu um mandato de oito anos e, em 1991, foi eleito deputado pelo estado do Rio de Janeiro, servindo por duas sessões legislativas.

No Congresso, Campos lutou contra a nacionalização das empresas e muitas vezes lembrou seus colegas congressistas qual deveria ser o papel do Estado. Ele declarou: “Só estaremos salvos quando deixarmos de ter um capitalismo de Estado e, finalmente, possuirmos capitalismo de livre mercado.”

De um jovem socialista a um ícone contemporâneo da liberdade

Como sugerido acima, Roberto Campos nem sempre foi um defensor das ideias de liberdade. Durante sua juventude, ele marchou como um apoiador socialista e acreditava que o governo deveria ter o poder de moldar a sociedade sob a orientação de um líder de elite. Foi enquanto ocupava o cargo de diplomata nos Estados Unidos que ele percebeu que o governo geralmente só é capaz de mudar as coisas para pior. “Eu vi, no entanto, que é uma ilusão pensar que o socialismo possa reformar o mundo. O socialismo só torna o mundo totalitário”, disse ele certa vez.

Ele também se tornou muito crítico de artistas e intelectuais que desfrutam de todas as vantagens que somente o livre mercado pode oferecer, mas cujo apoio é predominantemente socialista. Campos destacou uma vez que “poucas coisas são mais paradoxais que o esquerdismo encontrado entre os artistas brasileiros. Eles são socialistas através de seus dedos e suas vozes, mas invariavelmente capitalistas em seus bolsos.”

Campos costumava dizer que não via qualquer nobreza na pobreza. Ao contrário de seus compatriotas do mundo das artes e da literatura, ele argumentou que deveríamos apoiar a geração de riqueza através de uma sociedade de livre mercado em vez de apoiar a redistribuição da mendicância que, em última análise, acompanha as políticas socialistas. Durante anos antes de sua morte em 2001, aos 84 anos, ele foi considerado o mais franco e articulado adversário do socialismo no país.

Debate entre Luís Carlos Prestes e Roberto Campos em 1985.
Debate entre Luís Carlos Prestes e Roberto Campos em 1985.

Outro episódio marcante de sua vida foi quando Campos participou de um debate com o antigo líder e político comunista brasileiro, Luís Carlos Prestes. O debate foi transmitido pela televisão em todo o país em 1985. Campos expôs brilhantemente a tirania inerente ao comunismo. Para uma audiência nacional, ele ensinou uma magnífica lição sobre as contribuições sem precedentes feitas pelos mercados livres para superar a pobreza em todo o mundo. Ele citou os exemplos de Hong Kong e da Coreia do Sul para provar que mesmo países pequenos com recursos naturais escassos podem se tornar nações desenvolvidas e abordar eficientemente os problemas sociais por meio da liberdade econômica e do comércio internacional.

Campos sabia como destacar os resultados positivos da adoção de políticas de livre mercado. Ele gostava de derrubar mitos relacionados ao capitalismo. Ele propôs uma agenda de Estado pequeno não apenas para impulsionar a economia, mas também para evitar a corrupção política e a intervenção arbitrária na vida das pessoas. Se o Brasil tivesse abraçado totalmente suas visões duas ou três décadas atrás, poderíamos ter evitado as políticas escandalosas e criadoras de pobreza que finalmente começamos a rejeitar.

Roberto Campos pode ser considerado um herói porque ele era um homem de princípios que abraçou as boas ideias quando percebeu quais eram as más. Ele não se apegou a noções fracassadas. Ele tinha a coragem intelectual de se destacar da multidão e defender ideias que eram inconvenientes para o status quo do funcionalismo e do politicamente correto.

Atualmente, uma nova geração de jovens ativistas brasileiros está dando o devido e muito tardio crédito a Campos. Eles estão citando seu nome e sua sabedoria quando falam sobre a extrema necessidade de desregulamentação econômica e o incentivo de uma cultura de empreendedorismo no Brasil. Essas pessoas tiveram a sorte de ter nascido na era da informação, onde conteúdo pode se espalhar na internet e, assim, resgatar os jovens da doutrinação de ideias estatistas fracassadas e ultrapassadas.

É um sinal encorajador para o Brasil que o que Roberto Campos defendeu esteja ganhando terreno hoje entre os brasileiros que estão buscando soluções para nossos problemas econômicos!


Artigo originalmente publicado como This Brazilian Economist Once Marched for Socialism, But Became a Free-Market Hero para a Foundation for Economic Education.


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