A fim de cumprir as exigências de meu curso de graduação, tive que cursar seis créditos em economia. Presente em minha aula de introdução à microeconomia, lentamente comecei a morrer por dentro após me deparar com slides após slides de curvas de oferta e demanda e uma série de questões de livros didáticos que sempre pareciam envolver o mercado de abacate por alguma razão. Mesmo assim, eu compreendi a importância da economia e não desisti.

Entretanto, minha matéria de economia seguinte foi uma experiência completamente diferente. A partir do primeiro dia, o professor deixou clara a relevância da economia para o nosso dia a dia. A vida é uma série permanente de escolhas; logo, os incentivos têm um impacto profundo nas decisões que fazemos.

Por essa ótica, eu comecei a aprender que os incentivos criados por meio de uma política particular podem distorcer o processo de tomada de decisões . Da mesma forma, eles também podem produzir resultados inesperados em uma área aparentemente fora do alcance da política original.

O poder da escolha individual

Discutir o poder dos incentivos em larga escala é perceber que o processo de tomada de decisão individual, quando agregado, tem implicações de longo alcance. Afinal, por mais que uma manchete em um grande jornal possa ser lida como “país X invade país Y”, esta não é uma decisão de um país propriamente dita.

Pessoas tomam decisões, países não.

Este é o resultado agregado do processo de tomada de decisão pelas instituições destes países, com todas as decisões individuais direcionadas por incentivos.

Este é apenas um exemplo da magnitude de um conceito econômico específico.

Portanto, quando me foi dada a oportunidade de ministrar uma aula de Escola Austríaca de Economia 1 para estudantes do ensino médio, eu comecei a pensar sobre o modo mais efetivo de levar os estudantes a se interessarem por economia, e assim pensei em minha própria educação.

Como isso me afeta?

Ludwig von Mises escreveu:

A economia trata dos problemas fundamentais da sociedade; ela diz respeito a todos e pertence a todos. É o estudo essencial e próprio a todos os cidadãos.

Na minha opinião, esta citação deixa clara a importância de minha missão em tratar a educação econômica como sendo necessária para transformar os estudantes de nível médio em cidadãos bem informados.

Conceitos tais como o imperativo dos incentivos, custos de oportunidade e a lei das vantagens comparativas fariam parte de minha aula. E eu teria que trabalhar para que os alunos entendessem que estes conceitos não são apenas abstrações presentes somente nas páginas de um livro de economia, mas que têm influência em como o mundo funciona.

Hoje, uma educação econômica é mais importante do que nunca, principalmente antes de um estudante entrar na universidade (caso seja sua escolha).

Entretanto, a economia hoje parece ser oferecida aos alunos de ensino médio através de um curso avançado de admissão2 . Enquanto que, sem dúvidas, os estudantes que aprenderão os conceitos básicos de economia provavelmente o farão por meio de curvas de intermináveis oferta e demanda relativas ao mercado de abacate, ou uma série de problemas usando as enfadonhas “Firma A” ou “Firma B”.

Onde está a relevância para suas próprias vidas?

A economia transcende as ideologias partidárias

Claro, cursos avançados de economia permitirão aos estudantes obter créditos universitários. Mas, e quanto a oferecer aos estudantes a capacidade de se envolver com o modo de pensar da economia quando se trata de compreender as instituições políticas e sociais que afetam o seu dia a dia?

Portanto, fica claro (dada a excessiva politização dos assuntos atualmente) que uma educação econômica é necessária para superar a degradação do debate público.

Um Estados Unidos polarizado está em constante debate sobre uma miríade de assuntos. Entretanto, o debate tende a regredir para acusações de ambos os lados do espectro político, geralmente envolvendo ataques à moralidade da oposição. “Se você não apoia esta política, você odeia os valores nacionais!” ou “Você apoia esta política, então você não gosta do povo!” podem ser chavões comuns.

Tome como exemplo o debate sobre a saúde pública. É muito fácil hoje achar alguma história de um indivíduo discutindo o fato de que sem o Obamacare3 , ele ou ela não teria sobrevivido a alguma condição médica. Ou, por outro lado, uma família pode discutir as dificuldades financeiras encontradas devido a um aumento nos preços dos planos de saúde.

No entanto, este debate tende a se deteriorar em ataques que sugerem a indiferença da esquerda perante à sobrecarga financeira sobre as famílias de classe média. Ou o desprezo da direita pelos mais pobres, que têm dificuldade de obter atendimento médico.

Entretanto, é perfeitamente aceitável concluir que todas estas preocupações são válidas. E se novas questões fossem introduzidas em relação à saúde pública, isso poderia modificar o debate? Questões tais como:

  • Os avanços tecnológicos tendem a aumentar a eficiência e reduzir os custos em muitos setores, mas não na área da saúde. Por quê?
  • Quais incentivos existem (caso existam) no setor de saúde para aumentar o acesso e reduzir os custos?
  • Os gastos com saúde são equivalentes a aproximadamente 20% do PIB dos Estados Unidos. Por que gastamos muito mais do que o resto do mundo industrializado?
  • O que é rent seeking , e como este conceito afeta os custos de saúde?

De forma alguma a economia é um assunto desprovido de polarização política.

Entretanto, redesenhando os debates em termos de questões econômicas, muitos jovens podem reparar que o que eles realmente querem é o mesmo que seus oponentes; todos verdadeiramente querem que os serviços de saúde sejam acessíveis, não importando qual o espectro político que defendem.

Olhando este problema pela ótica econômica, talvez o acesso seja encarado em termos de custos e, portanto, levam os jovens a questionar porque eles são proibitivamente altos. Talvez nesse ponto, um debate sólido pode surgir buscando focar no problema do custo, em vez de o debate tender a uma porção de ataques ad hominem4 .

Portanto, uma educação econômica ao longo de todo o ensino médio pode oferecer aos estudantes as ferramentas necessárias para se envolver no debate público de forma muito mais relevante.

Tudo, desde avaliar uma decisão pessoal importante (qual é o custo de oportunidade de cursar uma faculdade?) até debater grandes questões globais (os Estados Unidos deveriam mobilizar suas forças armadas?) são tópicos que podem ser abordados em um curso de economia e poderia oferecer aos jovens uma oportunidade de avaliar argumentos a partir de uma perspectiva diferente.

Isso não dizer que uma educação econômica é uma cura para todos os problemas sociais. Entretanto, a educação econômica no ensino médio é precária ou não existe. Chegou a hora de repensar como esta disciplina é apresentada aos jovens.


Esse artigo foi originalmente publicado como Why Economic Education Is Essential for Young Americans para o Foundation for Economic Education .


Notas:

  1. A Escola Austríaca de Economia é uma escola de pensamento econômico que enfatiza o poder de organização espontânea do mecanismo de preços. A Escola Austríaca afirma que a complexidade das escolhas humanas subjetivas faz com que seja extremamente difícil (ou indecidível) a modelação matemática do mercado em evolução e defende uma abordagem laissez-faire para a economia. (N. do E.)
  2. Advanced placement course, usual nos Estados Unidos. (N. do T.)
  3. Lei de Proteção e Cuidado ao Paciente, sancionada em 2010 pelo então presidente Barack Obama. (N. do E.)
  4. Crítica à pessoa e não ao conteúdo. (N. do E.)

Sobre o Autor

O professor Tyler Bonin leciona História e Economia na Thales Academy, na Carolina do Norte, Estados Unidos da América. Ele acredita que o estudo da história e da economia é uma ferramenta poderosa para não só encorajar os alunos a participar do discurso público, mas também obter uma sólida compreensão das questões mais urgentes de hoje.

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