Em 2013, fui ver o show dos Rolling Stones no Hyde Park. Quase na metade do show, um convidado surpresa apareceu no palco: Mick Taylor, que foi o guitarrista da banda entre 1969 e 1974.

Taylor foi recebido calorosamente, mas também foi alvo de comentários irônicos e insultos nas redes sociais posteriormente. Os críticos não deixaram de perceber que o artista não estava em sua melhor forma. Veja o antes e o depois:

Mick Taylor, em 1972 ou 1973 e em 2012
Atribuições: Dina Regine e Joshua Knowlton Berry (Commons Wikipedia)

Os astros mais velhos do rock precisam frequentemente aguentar este tipo de gozação. Aqueles que morrem jovens – como Jim Morrison ou Kurt Cobain – se tornam ícones, eternamente lembrados do jeito que estavam no auge.

Eles nunca engordam, nunca ficam carecas e nunca chegam naquele estágio onde começam a divagar sobre bobagens esotéricas.

O Jim Morrison do socialismo

O que é verdade sobre os astros do rock, é verdade – talvez ainda mais verdadeiro – para os experimentos e revoluções socialistas. A idade não faz bem ao socialismo.

Em seus estágios iniciais, os experimentos socialistas são geralmente exaltados pelos intelectuais do ocidente . A União Soviética e a China maoísta certamente foram; numa escala menor, a Coreia do Norte , e mais recentemente, a Venezuela .

Entretanto, mais cedo ou mais tarde, estes experimentos sempre se tornam um constrangimento para seus apoiadores no ocidente, que então os rejeitam retroativamente (“Não foi socialismo de verdade!”). Você poderia escrever todo um livro sobre isso (o que por acaso é o que estou fazendo).

As únicas exceções são os experimentos de duração muito curta, como a Comuna de Paris, os territórios controlados por socialistas/anarquistas durante a guerra civil espanhola e, é claro, o governo da Unidade Popular de Salvador Allende no Chile entre 1970 e 1973. Estes são os Jim Morrisons do socialismo.

Eles acabaram antes que pudessem se transformar em constrangimentos.

O experimento chileno ocupa um lugar especial na mitologia esquerdista. A sabedoria convencional segue mais ou menos essa linha: após décadas de exploração pós-colonial e injustiças, o povo chileno elegeu um governo marxista, que embarcou no projeto de construir uma sociedade mais justa.

Os EUA estavam com tanto medo desse experimento funcionar e provar a superioridade do socialismo, que apoiaram um golpe militar, depondo Allende, e estabeleceram uma ditadura brutal casada com uma economia neoliberal. Viu?!

Não é que o socialismo nunca funcione, é que não é permitido que funcione porque ele se tornaria um facho de esperança para aqueles que sofrem sob o capitalismo.

A realidade é um pouco diferente. O Chile de Allende não era este paraíso do povo em construção que geralmente é apresentado.

Salvador Allende

Era mais como a Venezuela de Chavez sem o petróleo. Se lhe fosse permitido ir um pouco mais longe, brevemente se tornaria um caso de colapso econômico, e teria descambado para o autoritarismo.

Esta não é uma especulação vazia. Basta ver para onde o Chile estava caminhando e extrapolar um pouco mais.

Allende adotou políticas extremas de expansão fiscal e monetária. Isso criou um “fogo de palha”. Isto é, um surto de crescimento em 1971, seguido por dois anos de contração econômica .

A taxa de inflação saiu de menos de 30% para mais de 500% (e provavelmente a taxa efetiva foi ainda maior, dado que os controles de preços mascaravam a taxa real). O déficit orçamentário foi de quase zero para 23% do PIB; para comparar, o déficit da Grécia atingiu no máximo 15% durante a crise europeia.

Uma conquista e tanto para um período tão curto.

Cedo ou tarde, todos eles descambam para o autoritarismo

Mas isto não é nem a pior parte. Sim, Allende foi eleito democraticamente – mas liderava um governo minoritário, que os partidos de oposição concordaram em tolerar sob a condição de que Allende respeitasse a constituição do país.

Ele não respeitou . Logo começou a violar a constituição aleatoriamente confiscando propriedade privada.

Neste respeito, já se estava bem adiante na ladeira para o autoritarismo.

E ele não teria parado aí. As medidas de Allende, sem surpresas, provocaram resistências dos empresários e mesmo dos sindicatos em alguns dos setores mais prejudicados.

E como na Venezuela mais recentemente, os controles de preços levaram a (surpresa, surpresa) escassez. O resultado combinado foi “violência nas ruas (em uma escala próxima à de Belfast)”, como a revista The Economist descreveu à época , também destacando que “o governo tolerava o crescimento de grupos armados de extrema esquerda que estavam abertamente se preparando para uma guerra civil.”

Imagine se a crise econômica continuasse por mais tempo. Como os socialistas geralmente reagem em tal situação?

Ora, eles dobram a aposta, é claro. Culpam sabotadores, vândalos e especuladores imaginários, e reprimem seus opositores.

Allende talvez nunca teria alcançado a brutalidade de Pinochet, mas a imagem virtuosa que ele goza no ocidente não se sustentaria.

Existe um universo paralelo não muito distante do nosso, que é idêntico ao nosso, exceto que Allende permaneceu no poder por mais de uma década. E neste universo, é considerado ofensivo mencionar Allende na presença de um socialista.

Lá, os socialistas reagem a isso com a mesma indignação de quando alguém menciona a União Soviética, a China maoísta ou a Coreia do Norte: “Ah, dá um tempo! Sério? O Chile de Allende? Esse é um espantalho ridículo! O Chile nunca foi socialista e você sabe disso. Não teve nada a ver com socialismo. Foi, no máximo, uma péssima gestão de capitalismo de Estado. Você realmente não conhece nada de socialismo, não é? Isso mostra claramente que este é melhor argumento que você tem!”

Para deixar claro: enquanto eu aprovo de maneira geral as políticas econômicas dos Chicago Boys 1 , eu nunca tentei diminuir ou relativizar, muito menos justificar os abusos dos direitos humanos do governo de Pinochet. Eles são obviamente imperdoáveis, e nenhum resultado de crescimento econômico pode compensá-los.

Mas se eu fosse um esquerdista ocidental, eu seria secretamente grato que o golpe aconteceu, e sem um minuto de atraso. Ele salvou a esquerda ocidental de um grande constrangimento e lhe proporcionou um mito imortal em seu lugar.

Os astros de rock de vez em quando sabem envelhecer. Os experimentos socialistas, nunca.


Esse artigo foi originalmente publicado como Socialism, rock stars and the perks of being cut off in your prime para o CapX .


Notas:

  1. Os Garotos de Chicago, em português, foi o nome dado a um grupo de aproximadamente 25 jovens economistas chilenos que formularam a política econômica da ditadura do general Augusto Pinochet. Foram os pioneiros do pensamento liberal econômico, antecipando no Chile em quase uma década medidas que só mais tarde seriam adotadas por Margaret Thatcher no Reino Unido. (N. do E.)

Sobre o Autor

O Dr. Kristian Niemietz ingressou no Instituto de Assuntos Econômicos em 2008 como bolsista em pesquisa sobre a pobreza, tornando-se seu pesquisador sênior em 2013 e chefe de saúde e bem-estar em 2015. Kristian é formado em Economia pela Humboldt Universität zu Berlin e na Universidade de Salamanca, graduando-se em 2007 como Mestre em Economia. Ele é colaborador regular de várias revistas no Reino Unido, Alemanha e Suíça.

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