Pronuncia-se “lá-sê-fér”. As origens francesas do termo datam do final da Renascença. Diz a lenda que foi usado pela primeira vez no ano de 1680, época em que o Estado-nação1 estava em ascensão em toda a Europa. O Ministro das Finanças francês, Jean-Baptiste Colbert , perguntou a um comerciante chamado M. Le Gendre o que o Estado poderia fazer para promover a indústria.

De acordo com a lenda, a resposta foi: “Laissez-nous faire“, ou “deixe ser”2 . Este incidente foi relatado em 1751 no Journal Oeconomique pelo renomado defensor do livre comércio Rene de Voyer , o Marquês d’Argenson. O slogan foi codificado, finalmente, nas palavras de Vincent de Gournay : “Laissez-faire et laissez-passer, le monde va de lui même!” A tradução: “Deixe viver e deixe as mercadorias passarem, o mundo caminha sozinho.”

Para generalizar o princípio: deixe o mundo em paz, ele se administra.

Um ideal simples e bonito

Todas essas frases expressam não apenas a ideia do livre comércio , um importante tema de disputa na política europeia do século XVIII, mas também uma visão maior e mais bela do modo como a sociedade pode ser autorizada a trabalhar.

Esta ideia pode ser resumida na frase “laissez-faire“, ou na doutrina do que antes se chamava simplesmente de liberalismo, que hoje é especificamente chamada de liberalismo clássico . Essa ideia é assim: a sociedade contém em si a capacidade de ordenar e gerenciar seu próprio caminho de desenvolvimento. Segue-se que as pessoas devem gozar da liberdade de administrar suas próprias vidas, associar-se como quiserem, trocar com qualquer um e com todos, possuir e acumular propriedade e estar, em geral, livres da expansão do Estado em suas vidas.

Nos séculos que se seguiram, milhões de grandes pensadores e escritores elaboraram essa ideia central em todas as disciplinas da ciência social. Naquela época, como hoje, existiam duas grandes escolas de pensamento: aqueles que acreditam no controle estatal de um ou vários aspectos da ordem social e aqueles que acreditam que tais tentativas de controle são contraproducentes para a causa da prosperidade, da justiça, da paz e da construção da vida civilizada.

Essas duas maneiras de pensar são diferentes do que se chama de direita e esquerda hoje. A esquerda está inclinada a pensar que se deixarmos a esfera econômica ser livre, o mundo entrará em colapso, desenvolvendo alguma teoria de um desastre que sucederia a todos se não houvesse o controle do governo. A direita está igualmente convencida de que o controle do Estado é necessário para que o mundo não colapse em bandos violentos, guerreiros e destruidores de cultura.

A visão laissez-faire rejeita ambos os pontos de vista em favor do que Claude Frédéric Bastiat chamou de “harmonia de interesses” que compõem a ordem social. É a opinião de que os artistas, os comerciantes, os filantropos, os empresários e os donos de imóveis – e não os bandidos cartelizando com poder estatal – devem ser autorizados a definir o curso da história.

Esta visão é agora compartilhada por milhões de pensadores em todo o mundo. É o movimento intelectual mais emocionante de hoje, e presente em lugares onde talvez menos esperássemos encontrá-lo.

O crescimento da ideia de laissez-faire em nossos tempos é infundido com uma energia digital. As redes distribuídas3 levam a ideia a um nível totalmente novo: ninguém em controle, mas todos no controle, sem ponto central de falha.

Mas a ideia em si não é nova na história mundial.

Raízes profundas

Embora esteja principalmente associado ao pensamento britânico do século 18, é uma visão da sociedade que tem raízes muito mais profundas na Idade Média cristã e no pensamento judeu primitivo. O laissez-faire tampouco é apenas uma ideia ocidental. As raízes mais profundas do laissez-faire podem, de fato, ser rastreadas até a China antiga e, até hoje, os pensamentos dos mestres oferecem um bom resumo.

Aqui estão alguns exemplos do pensamento não ocidental:

Lao Tzu

Lao Tzu (século VI a.C.): “Quanto mais tabus e restrições artificiais existirem no mundo, mais empobrecidas estarão as pessoas… Quanto mais importantes as leis e regulamentos se tornem, mais bandidos e ladrões existirão…”

“O sábio diz: ‘Não faço nada e, mesmo assim, as pessoas se transformam, eu favoreço a quietude e as pessoas corrigem a si mesmas, não faço nada e as pessoas se enriquecem…'”

Chuang Tzu (369-286 a.C): “Eu prefiro vagar e ficar ocioso em uma vala enlameada, por minha própria diversão, a ser posto sob as restrições que o governante imporia. Eu nunca tomaria nenhum serviço oficial, e assim eu serei livre para satisfazer meus próprios propósitos…” O mundo “simplesmente não precisa de governo. Na verdade, não deve ser governado.”

Pao Ching-yen (século IV d.C.): “Onde cavaleiros e anfitriões não podiam ser reunidos, não havia guerra… As ideias de se usar o poder para vantagem ainda não haviam crescido. O desastre e a desordem não ocorriam… As pessoas comiam seus alimentos e se divertiam, elas estavam despreocupadas e satisfeitas.”

Ssu-ma Ch’ien (145-90 a.C): “Cada homem só deve ser deixado para utilizar suas próprias habilidades e exercer suas forças para obter o que ele deseja… Quando cada pessoa trabalha em sua própria ocupação e se beneficia com seu próprio negócio, então, como a água que flui para baixo, os bens naturalmente fluirão incessantemente, dia e noite, sem serem convocados, e as pessoas produzirão os bens sem que lhes sejam pedidos.”

Estes primórdios da ideia começaram aqui, mas podem ser rastreados a pensadores da Grécia antiga e de Roma, e através da Idade Média, até a noção varrer o mundo nos séculos XVIII e XIX, dando origem a uma prosperidade, liberdade e paz inéditas para todos. No século XVII e em grande parte do mundo (exceto o mundo de língua inglesa), o laissez-faire tem sido chamado de liberalismo ou liberalismo clássico, uma doutrina de organização social que pode ser resumida nas palavras de Lord Acton : “A liberdade é o maior fim político da humanidade.”

Corrupção do século 20

Certamente, a noção de liberalismo já estava corrompida no início do século XX. Como Ludwig von Mises escreveu em seu livro Liberalismo (1929), “O mundo de hoje não quer mais saber de liberalismo. Fora da Inglaterra, o termo ‘liberalismo’ é francamente proscrito. Na Inglaterra, ainda há, certamente, ‘liberais’, mas a maioria deles é apenas em nome. Na verdade, eles são socialistas bastante moderados. Em todo lugar hoje, o poder político está nas mãos dos partidos antiliberais.”

Isso continua verdadeiro hoje. E a revolta contra isso é muitas vezes denominada libertária, uma palavra há muito associada a uma preocupação primária pela liberdade humana. Era um neologismo para a geração do pós-guerra que era sinônimo de liberalismo. No entendimento atual, refere-se a um aprofundamento e radicalização da visão liberal antiga. Afirma a inviolabilidade dos direitos de propriedade, o primado da paz nos assuntos mundiais e a centralidade da livre associação e comércio na condução dos assuntos humanos.

Pode existir

Tal sociedade não é historicamente sem precedentes. Murray Rothbard escreveu sobre os Estados Unidos durante o período colonial como um exemplo de uma experiência de sociedade de sucesso, sem gerenciamento de Estado centralizado. A Europa medieval fez a primeira grande revolução econômica sem recorrer ao poder do Estado-nação. David Friedman documentou ordens legais competitivas na Islândia medieval. Outros escritores chegam a dizer que, dada a forma como conduzimos nossas vidas no dia a dia, confiando na produtividade de instituições e associações privadas, nunca saímos de fato de uma anarquia prática.

Como diz Mises, o liberalismo / libertarianismo / laissez-faire não é uma doutrina completa. Há tantas áreas a serem exploradas e tantas aplicações para fazer tanto na história quanto em nosso tempo. Os livros mais emocionantes do nosso tempo estão sendo escritos a partir do ponto de vista da liberdade humana. O Estado está em marcha, mas a resistência está crescendo.

É uma coisa deprimente ver o Estado pressionar e pressionar para ganhar mais poder, sob as bandeiras de igualdade ou grandeza ou segurança ou justiça, mas é uma fonte de alegria saber que as ideias são mais poderosas do que todos os exércitos do mundo. Razão, clareza, inovação e trabalho implacável pelo que é certo e verdadeiro acabarão levando a ideia de laissez-faire à vitória.


Esse artigo foi originalmente publicado como What Is Laissez-Faire? para o Foundation for Economic Education .

Notas:

  1. O conceito de estado-nação, em breve resumo, remete à origem dos países ocidentais modernos. Trata-se de momento anterior ao nascimento desses países, quando ainda não se consistiam em nações, mas em um conjunto de regiões autônomas submetidas a soberanos distintos que posteriormente foram reunidas e submetidas a um governo central. (N. do E.)
  2. Existe certa discussão sobre a tradução exata dessa frase no contexto. A tradução literal de Laissez-nous faire seria “Deixai-nos fazer”. No contexto da história, no entanto, a melhor tradução seria algo como deixe ser, deixe acontecer, não interfira. O autor do artigo optou por Let it be em inglês, que possui esse segundo sentido mais contextualizado. Decidimos manter a mesma linha. (N. do T.)
  3. O autor se refere a tecnologias como a internet e o blockchain . (N. do E.)

Sobre o Autor

Jeffrey Tucker é o diretor de conteúdo da Foundation for Economic Education e diretor jurídico da startup Liberty.me. Autor de cinco livros e vários milhares de artigos, ele palestra nos seminários de verão da FEE e outros eventos. O seu último livro é Bit a Bit: Como o P2P Está Libertando o Mundo. Siga no twitter e curta no Facebook. Email.

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