Início Conjuntura econômica O que acontece com a Europa quando a economia alemã se desacelera?

O que acontece com a Europa quando a economia alemã se desacelera?

por Claudio Grass

Leitura de 6 minutos.

Até recentemente, a Alemanha tem sido o carro chefe aparentemente inquebrável que tirou a economia europeia da beira do abismo e manteve-a em meio a uma miríade de pressões internas e externas, bem como crises políticas, ao longo da última década. Como líder incontestável do bloco, o país liderou e apoiou planos de resgate para os elos mais fracos da zona do euro, bem como uma série de políticas controversas que trabalham para uma maior centralização dentro da União Europeia. Contudo, com nuvens se acumulando sobre os céus da Alemanha, preocupações sobre potenciais efeitos negativos sobre toda a união monetária têm sido levantadas.

Ficando abaixo das expectativas

As tensões comerciais, a ameaça de um Brexit brusco, e o crescimento mais fraco dos mercados emergentes tiveram um papel importante no enfraquecimento da ascensão econômica de nove anos da Alemanha. 2018 foi um ano desafiador para o terceiro maior exportador do mundo, com a Alemanha vendo seu tão celebrado superávit comercial encolher. Com as importações crescendo mais rapidamente do que as exportações, o impacto das disputas comerciais dos EUA com a China e com a União Europeia tem sido amplamente sentido pelos líderes dos setores.

Perdendo momemtum – PIB alemão, mudança percentual em relação ao ano anterior. Fonte: Escritório Federal Alemão de Estatísticas, através de The Economist.

Números recentemente divulgados também lançaram grandes sombras sobre o formidável setor manufatureiro alemão, com produção industrial muito abaixo do esperado. Em novembro, a produção industrial recuou 1,9%, enquanto a queda no ano foi de 4,7%. Esses números, os piores desde o final da crise de 2008, estão compreensivelmente dando origem a temores entre investidores e analistas sobre uma recessão próxima.

Além disso, é improvável que o novo ano traga uma reversão de fortunas para a economia alemã, já que agora está prevista uma expansão abaixo de 1,5%, uma estimativa revisada para baixo desde março. Ao mesmo tempo, o sentimento local por líderes dos setores econômicos e por investidores está mudando de cautela e hesitação para completo pessimismo sobre o que está por vir. De acordo com uma pesquisa recente da associação do setor BVMW1, 53% das pequenas e médias empresas na Alemanha acreditam que o país entrará em recessão no próximo ano.

Fatores agravantes

A desaceleração econômica prevista pode ter consequências graves por si só. No entanto, a situação está fadada a se tornar ainda mais terrível graças a uma série de desenvolvimentos internos e externos que agravam as pressões. Primeiro, como o Banco Central Europeu (BCE) se esforça para normalizar e apertar sua direção monetária, o ambiente extremamente acomodatício que os mercados e as empresas vêm operando nos últimos anos se tornará uma memória distante.

Forças internas também jogam contra a economia alemã, com o mercado de trabalho do país sendo um dos principais problemas. A escassez cada vez mais grave de trabalhadores qualificados que os empregadores têm enfrentado está trazendo grandes obstáculos ao seu crescimento e tem sido prejudicial às suas operações. Em média, leva cem dias para uma empresa preencher uma vaga, com os setores mais atingidos sendo os de tecnologia, construção e saúde. Como mostra um novo relatório do instituto de pesquisa econômica Prognos, o problema só está apontando para pioras. O relatório prevê uma escassez de cerca de 3 milhões de trabalhadores qualificados até 2030, com projeção de aumentar para 3,3 milhões em 2040. A demografia alemã, especificamente suas baixas taxas de natalidade, leva uma culpa especial por esse descompasso já que a próxima geração de trabalhadores não é suficiente para substituir a população ativa que agora está entrando para a aposentadoria. A onda de migração que começou em 2015, apesar das previsões em contrário, também não conseguiu preencher essa lacuna, uma vez que a sua integração na força de trabalho fracassou sobremaneira e a maioria dos candidatos não possui as habilidades técnicas e de língua necessárias para preencher as vagas.

Em grande parte, a escassez de mão-de-obra na Alemanha é um golpe auto-infligido, muito como os problemas no setor de serviços que há muito já sofre. A regulamentação excessiva, as intervenções extensivas e as ineficiências inevitáveis de uma economia centralmente planejada estão criando significativos obstáculos que detêm o crescimento e a competitividade geral. Exigências impostas pelo Estado e excessivamente restritivas para acesso a várias profissões reduzem drasticamente o número de candidatos elegíveis, tornando ainda mais difícil para os empregadores preencherem suas vagas. Além disso, os custos exorbitantes do empregador para a previdência social e outros impostos, bem como as duras restrições a demissões por parte dos empregados, sobrecarregam as empresas, especialmente aquelas que tentam competir internacionalmente. Em outras palavras, a demografia pode contribuir para os desafios atuais, mas seu papel degenerativo é muito amplificado por ineficiências sistêmicas existentes e restrições de mercado.

Por último, mas não menos importante, está o perfil da própria economia alemã que é problemático e torna provável que o país tenha dificuldade em continuar competindo no futuro como tem feito até agora. Apesar da retórica céu-de-brigadeiro e das propostas inovadoras que ouvimos regularmente do governo alemão e de seus representantes, a maioria das ideias não atravessou da teoria para a prática. O país não aproveitou seus anos de prosperidade para melhorar a competitividade de seu setor de serviços, para modernizar e digitalizar os principais aspectos de seu setor industrial, para avançar na reforma tributária ou para empregar quaisquer medidas significativas para reanimar suas aposentadorias que estão perto do ponto de insolvência. Em outras palavras, tendo perdido a oportunidade de se preparar e planejar com antecedência enquanto ainda era possível, pode ser muito difícil para a Alemanha responder à próxima recessão econômica que se encontra virando a esquina.

Efeito dominó

O papel da Alemanha como locomotiva de todo o bloco foi crucial na última década, e o momento não poderia ter sido pior para as rachaduras começarem a aparecer na maior economia da Europa. A zona do euro como um todo já enfrenta fortes ventos contrários, com as estimativas de crescimento caindo para novas mínimas. De acordo com uma pesquisa recente de economistas da Consensus Economics, o crescimento do PIB para 2019 está projetado abaixo de 1,6%, ou 0,4% menor do que a previsão anterior, mais otimista, em março. Esse seria o segundo declínio anual consecutivo, com o crescimento esperado para 2018 em 1,9%, muito abaixo dos robustos 2,4% registrados em 2017.

Pressões periféricas, econômicas e políticas, também abundam. A França, outrora uma aliada política confiável para a Alemanha e uma forte presença econômica na União, está severamente enfraquecida por protestos internos e pela perda de confiança no governo, enquanto o setor privado deslizou em uma contração pela primeira vez desde 2016. A Áustria, também ex-apoiadora de iniciativas alemãs na UE, há muito tempo mudou para uma postura mais crítica, se opondo ferozmente a propostas de migração lideradas pela Alemanha e, em vez disso, ficando ao lado de Hungria, Polônia e de outros estados-membros que pensam da mesma forma. Enquanto isso, a perspectiva de um Brexit “sem acordo”2, antes impensável em Bruxelas, está lentamente entrando em foco, assim como suas implicações econômicas para o bloco.

Projeções de crescimento do PIB na zona do euro – Por data da projeção, em variação percentual anual. Fonte: Consensus Economics através do Financial Times.

No contexto das tensões sociais e políticas que vêm fermentando em todo o continente há mais de dois anos, as eleições para o Parlamento Europeu marcadas para maio deste ano também estão dando origem a receios de um “retorno” eurocético. Profundas divisões e a crônica escassez de diálogo aberto enfraqueceram significativamente a coesão social na Europa, abafando a voz do indivíduo e transferindo o poder para estruturas de grupo e cultivando identidades coletivas. Os debates sobre questões políticas e econômicas essenciais foram reduzidos em grande parte a um espetáculo simplista, populista e para o agrado de multidões, à medida que o interesse do público pela política e sua confiança nos políticos despencaram. Os “coletes amarelos”, recente erupção que inspirou protestos que começaram na França e depois se espalharam por todo o continente, fornecem fortes sinais desse descontentamento público com o status quo.

No geral, parece que a Alemanha é o cabo que mantém o bloco unido e, se ele arrebentar, múltiplos desafios poderão surgir, ameaçando o futuro da zona do euro e a coesão da UE. Como resultado do crescente atrito político e da desaceleração econômica prevista, as perspectivas para os mercados europeus e para o euro estão longe de serem encorajadoras.


Esse artigo foi originalmente publicado como As Germany goes, so goes the Eurozone para o ClaudioGrass.ch.

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