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O apoio ao socialismo na Coreia do Norte

por Kristian Niemietz

O socialismo é popular na Grã-Bretanha, especialmente entre os jovens. Pesquisa após pesquisa confirma isso.

Mais precisamente, o socialismo é popular em abstrato. É popular como um ideal nebuloso. Mas nada deixa um socialista tão eriçado quanto a menção de um exemplo real (histórico ou contemporâneo) do socialismo na prática. Mencione a União Soviética, a China de Mao ou a Albânia de Enver Hoxha na presença de um socialista e você pode esperar ataques de raiva.

O espantalho1 que não é

Nós permitimos que os socialistas se safem muito facilmente quando descartam referências a exemplos do mundo real do socialismo, alegando serem “espantalhos”. A maioria desses “espantalhos” não são nada disso. Eles são as antigas utopias do passado, os modelos que os socialistas ocidentais costumavam endossar e agora não querem mais que sejam lembrados. Vemos isso acontecendo na Venezuela, mas a Venezuela é apenas o último elo de uma longa cadeia. O hábito de endossar entusiasticamente e, depois, rejeitar retroativamente modelos de socialismo tem uma longa tradição na esquerda.

Nem mesmo a Coreia do Norte, um dos regimes mais atrozes do mundo, é uma exceção completa a isso.

Obviamente, quase nenhum socialista quer estar associado à Coreia do Norte hoje. Enquanto a Coreia do Sul, sua antípoda, é uma democracia próspera e liberal, a Coreia do Norte é um fracasso stalinista. Em média, o sul coreano é, segundo uma estimativa, mais de 20 vezes mais rico e vive 12 anos a mais que o norte coreano (e tem significativamente menos chances de acabar em um Gulag2). Se pensarmos na divisão da Coreia como um experimento natural, é justo tratar seu resultado como conclusivo.

Isso nem sempre foi tão óbvio. No início, o norte da Coreia era mais industrializado do que o sul e, até meados da década de 1970, o norte era na verdade mais rico que o sul. Além disso, até o final dos anos 80, ambas as Coreias eram ditaduras.

Mas enquanto a realidade não ficou clara, o sistema norte-coreano tinha de fato alguns admiradores ocidentais relativamente proeminentes. Um deles foi a aclamada economista de Cambridge Joan Robinson, que em 1965 publicou um artigo intitulado “Korean Miracle“, no qual ela descreveu a Coreia do Norte como uma fantástica história de sucesso. Depois de recitar uma longa lista de números oficiais de produção, Robinson afirmou:

Todos os milagres econômicos do mundo pós-guerra são postos à sombra por essas conquistas.

As realizações sociais do país foram, na sua avaliação, ainda mais impressionantes:

Já existe educação universal. (…) Existem inúmeras creches, todas sem cobrança. Há um sistema completo de previdência. (…) O serviço médico é gratuito. (…) Trabalhadores recebem férias remuneradas.

A Coreia do Norte nem era uma ditatura – apenas parecia uma:

Os sinais exteriores de um “culto” são muito marcantes – fotografias, nomes de ruas, crianças no berçário cantando hinos ao amado líder. Mas o primeiro-ministro Kim Il Sung parece atuar como um messias ao invés de um ditador.

Nos anos 70, Eldridge Cleaver, um dos líderes do Black Panther Party3, viajou várias vezes à Coreia do Norte. Depois de uma visita em 1970, escreveu:

Aqui na Coreia, encontramos um povo que lançou as bases do comunismo e que agora se apressa (…) para transformar sua sociedade em um paraíso terrestre. (…)

Nenhum outro povo na história mundial foi capaz de alcançar resultados tão fantásticos em todas as áreas da economia ao mesmo tempo. (…)

Os trabalhadores (…) do mundo têm muito a invejar das vidas dos trabalhadores da República Democrática Popular da Coreia.

E no início dos anos 80, Luise Rinser, escritora da Alemanha Ocidental e candidata presidencial pelo Partido Verde em 1984, viajou várias vezes à Coreia do Norte. Ela descreveu o país como um idílio bucólico e igualitário, não contaminado pelas influências deturpadoras do consumismo ocidental. Kim Il Sung, segundo ela, não tinha nada de ditador, pois era uma figura paterna e benigna, que governava junto com seu povo:

Realmente é verdade, eu sinto que o presidente não governa de sua mesa, ele vai até as pessoas, dando e recebendo conselhos do povão4. O que depois é elaborado como um plano oficial em Pyongyang é o resultado das consultas de Kim Il Sung com especialistas e trabalhadores. E também posso ver que seu povo o ama, e não porque eles são instruídos a fazê-lo.

Eu poderia continuar. Agora, não seria sincero afirmar que houve amplo apoio ao regime norte-coreano por parte das esquerdas ocidentais: não houve. A Coreia do Norte nunca atraiu peregrinações em massa de intelectuais ocidentais do tipo que a União Soviética, a China e Cuba atraíram. Mas, ao mesmo tempo, não é particularmente difícil encontrar declarações como as acima.

É absolutamente justo tratar a Coreia do Norte como um exemplo de socialismo e confrontar seus resultados com aqueles que se descrevem como socialistas. Claro, este não é o tipo de socialismo que os socialistas ocidentais aspiram. Mas até aí, o socialismo tem o hábito de não se tornar aquilo que seus proponentes esperam.


Esse artigo foi originalmente publicado como How do the socialists explain away North Korea? para o CapX.

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