Início Conjuntura econômica Mercados na Coreia do Norte oferecem um gostinho de liberdade

Mercados na Coreia do Norte oferecem um gostinho de liberdade

por Oliver Wiseman

A coisa mais importante que aconteceu na Coreia do Norte nas últimas décadas pode ter sido uma coisa que não tem nada a ver com mísseis nucleares, não foi notícia em primeira página de nenhum jornal e tem muito pouco a ver com a dinastia Kim.

De acordo com um novo relatório da Beyond Parallel, uma iniciativa do Center for Strategic and International Studies, “o mais significante desenvolvimento socioeconômico que ocorreu na Coreia do Norte ao longo dos últimos 20 anos” é algo ao mesmo tempo mundano e revolucionário: o surgimento de mercados num Estado totalitário e centralizador.

Usando imagens de satélite, pesquisas de campo e testemunhos de desertores norte-coreanos, a Beyond Parallel descobriu que:

Existem no mínimo 436 mercados oficialmente autorizados por todo o país. Os mercados são localizados em áreas rurais e urbanas, e parecem estar profundamente integrados na economia e na sociedade.

Imagens de satélite da evolução do mercado de Chaeha-dong entre 2002 e 2012.
Imagens de satélite do mercado de Chaeha-dong. Ao longo dos anos ele foi se expandindo, até finalmente aparecer destruído em 2012. Descobriu-se que na verdade ele foi transferido para um local próximo e está ainda maior.

Os autores estimam que esses mercados gerem US$ 56,8 milhões anualmente em impostos e taxas. Há também mercados clandestinos “geralmente instalados em áreas residenciais, sem limites claros e permanentes, e os vendedores não pagam ‘impostos’ ou ‘alugueis’ oficialmente.”

Mais importante, o relatório deixa claro que o fenômeno é uma “mercadização de baixo para cima pelas pessoas” que começou há mais de 20 anos atrás. Desde então, os norte-coreanos “resistem aos esforços estatais para controlar, manipular e institucionalizar” os mercados:

Quando o governo oprime periodicamente a atividade dos mercados, a sociedade reage com raiva. Mas o governo também permite tacitamente o seu crescimento para limitar os impacto negativo, político-social e econômico, dos mercados.

Em 2016, um estudo da Beyond Parallel descobriu que essa pequena quantidade de liberdade econômica, que vem com esses mercados, é muito importante para os norte-coreanos. 72% dos entrevistados recebiam quase toda a sua renda familiar dos mercados, e 83% “achavam que bens e informações externas têm melhor impacto em suas vidas do que as decisões tomadas pelo governo norte-coreano.”

Quando perguntados o que os levou a sentir tanta hostilidade contra o regime norte-coreano, respondentes frequentemente citaram as desvalorizações cambiais, a apreensão de ativos, e a destruição de poupança em dinheiro.

Os autores argumentam que, como uma das poucas áreas da vida em que há apenas limitado envolvimento do Estado, os mercados podem servir como o ponto de início para o crescimento de uma sociedade civil norte-coreana, sem a qual é impossível imaginar o fim do regime Kim.

Desfile militar norte coreano.

Críticos do capitalismo gostam de dizer que liberdades econômicas são uma ilusão, que são um mito criado pelos ricos. O surgimento de mercados na Coreia do Norte – contra a vontade de um governo que de resto é onipotente e brutal – sugere o contrário.

Mercados não são apenas um fato da vida; eles são um ingrediente essencial de uma sociedade feliz, livre e próspera.

O direito de trocar bens e os direitos de propriedade exigidos para essa troca são coisas que os norte-coreanos parecem valorizar muito. Nenhuma quantidade de propaganda estatal foi capaz de persuadi-los do contrário.

E essas pequenas liberdades econômicas oferecem um sabor de liberdade em uma ditadura de resto totalitária.


Artigo originalmente publicado como Markets offer North Koreans a taste of freedom para o CapX.


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