Meu colega Gordon Tullock é conhecido, com justiça, por seu importante papel no estabelecimento de bolsas de estudos sob a perspectiva da teoria econômica da “Escolha Pública“. Mas se você pedir aos economistas que citem, especificamente, a contribuição teórica pela a qual Gordon é mais conhecido, a maioria provavelmente afirmaria que é o rent-seeking.

Embora jamais tenha cunhado esse termo — que foi introduzido neste artigo de 1974 por Anne Krueger, Gordon apresentou o seu conceito no artigo “The Welfare Costs of Tariffs, Monopolies and Theft1, publicado em 1967 no Western Economic Journal.

A ideia é tão brilhante e importante quanto simples. E, como tantos conceitos importantes, é óbvia quando apresentada, mas era ignorada até então.

A visão de Gordon é a seguinte: os recursos usados para obter privilégios improdutivos (ou destrutivos) são desperdícios na perspectiva de todos, exceto (1) dos que utilizam os recursos para tais fins e (2) dos que diretamente recebem estes recursos.

Desperdiçando recursos durante a busca de privilégios

Os economistas há muito compreenderam que as pessoas com privilégios especiais2 agem de maneira a produzir resultados menos favoráveis do que os resultados que seriam produzidos na ausência de tais privilégios. Mas, em 1967, Gordon com efeito, afirmou:

Os custos dessas ineficiências bem compreendidas, embora inegáveis e lamentáveis, são pequenos em comparação com os desperdício de recursos gastos enquanto as pessoas se esforçam para obter tais privilégios – ou seja, na busca por renda.

Digamos que os produtores de pneus dos EUA acreditam que seus lucros aumentarão em US$ 200 milhões se o Tio Sam impuser uma tarifa punitiva sobre os americanos que compram pneus não fabricados nos Estados Unidos. Esses fabricantes não ficarão de braços cruzados na esperança de que o Tio Sam venha a impor tal tarifa. Esses produtores de pneus buscarão ativamente esta tarifa. Eles farão lobby por isso.

No entanto, o lobby3 exige recursos: os edifícios e os materiais de escritório utilizados pelos lobistas, os veículos e o combustível utilizados para transportar os lobistas de um lado para o outro na sua busca por privilégios. Não apenas isso, mas principalmente o tempo e o esforço dos próprios lobistas. E quanto maior forem os benefícios advindos de tais privilégios, maior será a quantidade de recursos gastos por seus beneficiários, durante a empreitada.

Essas despesas geram benefícios para aqueles que buscam rendas, na medida em que elas aumentam a sua probabilidade de assegurar privilégios especiais que geram rendas, ou seja, lucros em excesso.

Mas, do ponto de vista da sociedade, esses gastos são um desperdício: os prédios utilizados por advogados que buscam rendas para seus clientes não estão disponíveis para atividades genuinamente produtivas, como servir de espaço para ajudar start-ups4, ou para advogados especializados em ajudar os clientes a escrever melhores contratos, por exemplo.

Os próprios lobistas são, na maioria das vezes, trabalhadores aplicados, altamente educados e criativos. Então, quando eles usam sua educação, tempo e criatividade trabalhando duro para os clientes que procuram privilégios especiais, eles não estão usando sua educação, tempo e criatividade para produzir resultados que aumentam o tamanho do “bolo econômico”.

Todo esse trabalho árduo e a criatividade são desperdiçados simplesmente tentando redefinir o tamanho das fatias de um bolo de tamanho pré-determinado. Ao longo do tempo, a sociedade perde porque (e na exata medida em que) os recursos produtivos são desperdiçados em atos visando obter privilégios especiais.

Quantificando esse desperdício

Nesta reportagem do Marketplace5 feita em 3 de agosto de 2017, sobre esse grande chafariz de privilégios denominado Dan Stohr, um lobista da Associação das Indústrias Aeroespaciais6 informa que ele gasta um terço de seu tempo trabalhando simplesmente para garantir que esta monstruosa agência governamental concessora de benesses permaneça aberta7.

Não faço a menor ideia de quanto ganha o Sr. Stohr. Vamos, então, chutar baixo, quero dizer, bem baixo; vamos supor que ele ganhe apenas US$ 100.000 por ano. Neste caso, pelo menos US$ 33.333 em recursos valiosos (o tempo, o esforço e a criatividade do Sr. Stohr) são gastos simplesmente tentando manter o que não deve ser mantido, ou seja, subsídios8 para os fabricantes norte-americanos de aeronaves9.

Isso corresponde a US$ 33.333 do tempo, esforço e criatividade de uma pessoa desviados de uma atividade que aumentaria a geração de bens e serviços disponíveis para a sociedade. Não apenas isso, mas utilizados na tentativa de persuadir o Estado a continuar desviando bens e serviços das pessoas.

O Sr. Stohr, obviamente, é apenas um entre milhares de lobistas profissionais; e lobistas, por sua vez, são apenas alguns dos profissionais que passam pelo menos parte do seu tempo em busca de privilégios. Ao longo do tempo, todo esse desperdício se acumula. Quão mais rico (e, a propósito, mais livres) nós seríamos se o governo não oferecesse oportunidades para que alguém lucrasse com a contratação dos senhores Dan Stohrs, a fim de gerar privilégios para si?


Esse artigo foi originalmente publicado como Rent-Seeking: One Small Example para o Café Hayek.


Notas:

  1. Em tradução livre: Os Custos de Bem Estar das Tarifas, dos Monopólios e do Roubo. (N. do T.)
  2. Por exemplo, produtores protegidos da concorrência estrangeira por tarifas. (N. do A.)
  3. Fazer lobby é buscar persuadir autoridades a usarem suas posições para a concessão de benefícios legais; a profissão ainda não é regulamentada no Brasil, mas é realizada informalmente. (N. do E.)
  4. Empresas emergentes de tecnologia, ainda em fase de desenvolvimento e pesquisa de mercados. (N. do E.)
  5. O portfólio de programas do Marketplace é produzido e distribuído pela American Public Media, um dos maiores produtores e distribuidores de programação de rádio pública do mundo. (N. do E.)
  6. Associação comercial que representa mais de 300 indústrias norte-americanas do setor aerospacial; no Brasil temos a AIAB. (N. do E.)
  7. Aliás, meu colega do Mercatus Center Matt Mitchell é citado nesta reportagem. (N. do A.)
  8. Um privilégio especial. (N. do A.)
  9. Eu digo “pelo menos US$ 33.333” porque não sei como o Sr. Stohr gasta os outros dois terços do seu horário de trabalho. (N. do A.)

Sobre o Autor

Donald Boudreaux é professor de economia na George Mason University, membro sênior do Fraser Institute e colaborador no blog Café Hayek.

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