Início Regulação Quando se trata de inovar, peça perdão, não permissão

Quando se trata de inovar, peça perdão, não permissão

por Michael Munger

As pessoas às vezes me perguntam: “Qual é o conceito mais importante na economia política?”

A resposta é fácil, mas sutil: inovação sem permissão, uma crença dominante em permitir experimentos com novas tecnologias e com novas plataformas de negócios que utilizem essas tecnologias. Muito tem sido escrito sobre por que esse vago conceito é tão poderoso (meu guru sobre o tema é Adam Herer, autor de Permissionless Innovation).

A ideia está no cerne do que Friedrich Schiller, filósofo e poeta alemão, escreveu em uma carta a um amigo em 1793, onde descreve a beleza do “Englische Tanze” (dança inglesa):

Eu não conheço uma imagem melhor para o ideal de uma bela sociedade do que uma dança inglesa bem executada, composta de muitas figuras complicadas e voltas. Um espectador localizado na varanda observa uma infinita variedade de movimentos intercruzados que decididamente, mesmo que arbitrariamente, mudam de direção, sem nunca colidirem.

Tudo já foi organizado de tal forma que cada dançarino já desocupou sua posição quando o outro a ocupa. Tudo se encaixa com tanta habilidade, ainda que tão espontaneamente, que cada um parece estar agindo por conta própria, sem nunca entrar no caminho de alguém.

Essa dança é o símbolo perfeito da própria liberdade individualmente reivindicada, bem como do respeito pela liberdade do outro.

Esta passagem contém uma ideia fundamental porque a primeira frase mostra que Schiller pretende mais do que admiração pela adorável ordem que emerge da livre expressão da dança de indivíduos dentro de um conjunto de regras que coordenam o todo. Ele pretende que essa “imagem” seja uma metáfora para a sociedade humana.

Barreiras para a inovação sem permissão

A inovação sem permissão pode parecer algo óbvio, mas não é. Durante décadas, a rede telefônica Bell recusou-se a conectar qualquer aparelho de telefone, exceto aqueles que licenciara.

A lógica era que os telefones poderiam não ser seguros; a consequência era parar o progresso no estágio dos telefones de disco ligados por fios a paredes.

Mas o problema foi muito além dos aparelhos de telefone: o artigo recente do economista Tom Hazlett publicado na revista Reason descreve como a exigência de permissão atrasou as comunicações nos Estados Unidos por décadas.

Existem dois tipos de obstáculos à inovação sem permissão: a exigência de autorização dos reguladores e a exigência de autorização dos concorrentes.

O primeiro tipo de obstáculo, requerer permissão dos reguladores, parece mais inofensivo. Mas não é. Os atrasos no processamento de “solicitações” de permissão para experimentar reduzem drasticamente os tipos e a frequência dos experimentos possíveis. Pior ainda, as tentativas dos reguladores de escolher vencedores e perdedores podem representar obstáculos próprios. Suponha que as autoridades não exijam licenças para experiências tecnológicas, mas ofereçam efetivamente subsídios para trabalhos que pareçam “promissores”.

Considere os maciços “incentivos” governamentais que subsidiam a energia solar nos EUA. Isso não quer dizer que as políticas públicas sejam irrelevantes – como mostra este podcast da BBC, a desregulamentação é o caminho para promover a energia solar -, mas sim que os processos de descoberta do mercado são melhores do que as do Estado na descoberta da forma precisa que a inovação tomará.

O segundo tipo de obstáculo parece absurdo, pois, por definição, a maioria das inovações prejudica os concorrentes; isso é o que as torna inovações. Mas existem muitos requisitos como esses, como John Stossel apontou recentemente, também para a Reason.

Claro, a natureza da inovação resulta que muitas vezes são as tecnologias menos “promissoras” – na visão de especialistas – que se tornam as mais significativas. Um professor de administração de Yale conhecidamente disse ao estudante Fred Smith, fundador da FedEx: “O conceito é interessante e bem formado, mas para ganhar uma nota melhor que um C, a ideia deve ser viável.”

A ideia da Federal Express pode ter obtido um C de Yale, mas obteve um A+ do mercado quando foi desenvolvida.

Nesse caso, a “permissão dos concorrentes” e “permissão dos reguladores” coincidiram na mesma pessoa: o serviço postal dos EUA. Foi permitido à FedEx entrar apenas porque havia uma lacuna para cartas e encomendas “extremamente urgentes”; é por isso que “extremamente urgente” ainda aparece em cada envelope que a FedEx entrega.

O Twitter exemplifica a era de ouro da inovação sem permissão

Vivemos na era de ouro da inovação sem permissão. A internet oferece uma infraestrutura onde uma miríade impressionante de inovações pode ser experimentada e (quase) todas essas tentativas podem ser conduzidas sem depender da permissão de ninguém.

Pense por um segundo, que ideia estúpida foi o Twitter. Certamente, ninguém iria passar tempo escrevendo haikais desajeitados, e ainda menos pessoas iriam lê-los. Aqui está o que o cofundador Ev Williams disse à Inc. em 2013, pouco antes da abertura de capital do Twitter em que se esperava que ele se tornasse um bilionário:

Não era claro o que o Twitter era. Havia quem o chamasse de rede social, outros de microblog, mas era difícil de definir, porque ele não substituiu nada.

Houve esse processo de descoberta com algo desse tipo, onde ao longo do tempo você descobre o que ele é. O Twitter realmente mudou em relação ao que achávamos que era no início, que descrevíamos como atualizador de status e uma ferrmenta social.

De fato é isso, em parte, mas o insight que acabamos tendo foi que o Twitter era na verdade mais uma rede de informação do que uma rede social.

Não quero ficar “meta-analítico” demais aqui, mas a questão é a seguinte: o acesso à internet desencadeou uma inovação chamada Twitter, mas ninguém sabia para que servia. No entanto, ocorreu uma bela versão “mídia social” da dança inglesa.

Simplesmente aconteceu. As pessoas descobriram um uso para o Twitter, porque uma vez que estava lá, elas poderiam experimentar sem pedir a permissão de ninguém.

Ninguém, nem mesmo os próprios fundadores do Twitter, entendeu o que o tornaria útil.

Como Schiller poderia dizer se ele estivesse no Twitter hoje em dia:

Um espectador seguindo uma hashtag observa uma infinita variedade de tweets intercruzados que decididamente, mesmo que arbitrariamente, mudam de direção, sem nunca censurar um ao outro. Tudo se encaixa com tanta habilidade, ainda que espontaneamente, que todos parecem estar agindo por conta própria, mas o thread forma um todo informativo sem qualquer orientação ou direção centralizada.

Esse aplicativo é o símbolo perfeito da própria liberdade individualmente reivindicada para transmitir verdades úteis, bem como do respeito pela liberdade do outro para publicar vídeos aleatórios de gatos.

A inovação sem permissão nos permite criar coisas verdadeiramente novas para se divertir – coisas que os especialistas podem não entender ou aprovar, mas que, no entanto, carregam o potencial de transformar o mundo.


Esse artigo foi originalmente publicado como When It Comes to Innovating, Ask for Forgiveness, Not Permission para o Foundation for Economic Education.

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