Início Ensino e pensamento econômico As indispensáveis ideias de David Ricardo

As indispensáveis ideias de David Ricardo

por Madeline Grant

É aniversário de Ricardo1. Ou pelo menos seria, se ele ainda vivesse.

Esse economista clássico está morto há quase 200 anos, mas suas percepções e teorias permanecem com valor imensurável até hoje. Ricardo foi, em vários aspectos, um economista distinto.

Nascido numa grande família judia da Sefardita, recebeu pouca educação formal, e ao invés disso se juntou a seu pai na Bolsa de Valores de Londres quando tinha 14 anos. Ricardo é uma exceção entre economistas ao acumular uma vasta fortuna pessoal, em grande parte devido a especulações certeiras na bolsa de valores.

Seu interesse pela economia foi provocado pelo acaso de sua leitura de A Riqueza das Nações ao final de seus vinte anos. Comparado a Smith, seu quase contemporâneo, a vida e o trabalho de Ricardo permanecem relativamente obscuros, mas sua contribuição para a economia foi imensa.

O que talvez seja mais notável sobre o trabalho de Ricardo é sua habilidade para articular conceitos sutis e elegantes de forma inteiramente teórica, antecipando complexas equações e modelos que agora dominam a economia. Como o professor David Friedman coloca, um economista moderno lendo os Princípios de Economia Política e Tributação de Ricardo “se sente como o membro de alguma das expedições ao Monte Everest poderia sentir se, chegando ao topo da montanha, encontrasse um alpinista de camiseta e tênis.”

Ricardo foi um dos primeiros a propor um imposto sobre a terra, uma das raras ideias que encontram a simpatia de economistas por todo o espectro político. Ele mesmo um proprietário de terra, sua “Lei do Aluguel” explicou como os donos de terras conseguem monopolizar os ganhos do crescimento econômico.

Ricardo entendeu que muito do valor das terras existe devido a condições que nada têm a ver com o esforço ou as despesas do proprietário – frequentemente, têm muito mais a ver com o trabalho de outras pessoas e a boa fortuna de onde ela se encontra. Ele via o rendimento indevido e derivado da terra como uma anomalia nociva: “aquela porção do produto da terra que é paga ao proprietário pelo uso do original e indestrutível poder do solo.”

Surpreendentemente, de certa forma pouco mudou, e podemos ver exemplos contemporâneos dessa desigualdade por toda a nossa volta. Por exemplo, foi estimado que o ampliamento nos anos 90 da Jubilee Line2 aumentou o valor dos imóveis residenciais a até 900 metros das estações em £13 bilhões, ao custo de £3,3 bilhões. Em outras palavras, pagadores de impostos de todo o Reino Unido contribuíram com esses custos, mas apenas um seleto grupo de proprietários se beneficiaram com os ganhos.

A existência de serviços públicos de alta qualidade também têm um significante impacto nos preços das casas. No Reino Unido, uma casa próxima à uma escola de bom desempenho tem seu valor elevado para não menos que 5% a 20% do valor de uma casa perto de uma escola ruim.

Ricardo entendeu que os princípios econômicos por trás do imposto sobre a terra oferecem uma solução única para alguns destes problemas; que seria um tributo que, se devidamente implementado, poderia recolher parte da riqueza não merecida da terra ou da localização, e canalizá-la de volta para dentro da comunidade que ajudou a criá-la.

Ricardo talvez tenha antecipado algumas das questões de políticas de hoje, mas claro que ele é mais conhecido pelo seus ataques às doutrinas econômicas prevalecentes à época – o mercantilismo, consolidado no início do século XIV pelas notórias “leis dos cereais”.

Os mercantilistas sustentavam que o montante de riqueza no mundo era limitado e fixo – e argumentavam que a única forma de prosperar era acumular ouro, impor tarifas sobre produtos de fora e suprimir o desequilíbrio do comércio entre nações. Sem surpresa, os países caíram em ataques de tarifas retaliatórias que prejudicaram o livre comércio.

A teoria contraintuitiva de Ricardo sobre vantagem comparativa ofereceu uma poderosa refutação para esse entendimento do comércio. Ele argumentou que ambos os países se beneficiam com o comércio entre um e outro, até mesmo quando um deles possui uma vantagem absoluta em produzir todos os bens da troca – conquanto que haja diferenças de eficiência entre seus próprios setores que lhes deem um incentivo para se concentrar nas áreas onde possui maior vantagem comparativa.

Por exemplo, poucas pessoas sabem que Winston Churchill foi um talentoso pedreiro, que sozinho construiu um muro em torno de Chartwell, sua propriedade rural. Mas, no auge da Segunda Guerra Mundial, certamente faria mais sentido para Churchill contratar alguém para aquela tarefa e, ao invés disso, focar nos seus discursos ou na elaboração de estratégias nas salas de guerra – mesmo que ele próprio pudesse construir um muro melhor.

Do mesmo modo, se cada país se especializar nos produtos onde ele é comparativamente mais eficiente, nós desfrutamos de melhores resultados – a produção total é maior e os consumidores podem acessar uma melhor diversidade de produtos.

Ao argumentar contra o protecionismo e pela vantagem comparativa e pela especialização, Ricardo seguiu o exemplo estabelecido por Adam Smith em argumentar contra o mercantilismo que recompensava seletos grupos de produtores e os ricos – tudo à custa dos consumidores comuns e dos pobres. Importações aumentam o padrão coletivo de vida dando às pessoas o que elas querem, a preços mais baixos, argumentaram.

Com dinheiro à disposição, os consumidores são então capazes de comprar mais dos produtores, deste modo criando empregos e impulsionando a prosperidade.

O tempo certamente comprovou Ricardo. Embora ele não tenha vivido para testemunhar, após a abolição das leis dos cereais em 1846, o Reino Unido prosperou.

No entanto, apesar do mercantilismo ter sido despistado nos séculos XVIII e XIX por Smith, Ricardo e seus discípulos, John Bright e Richard Cobden, ele está retornando em ambos os lados do Atlântico – e certamente encontrou um forte defensor na Casa Branca. Ruídos neo-mercantilistas também estão crescendo à medida que nos preparamos para nossa saída da UE3; com muitos argumentando contra a abolição unilateral de tarifas e outras barreiras, precisamente pelas mesmas razões dos mercantilistas – pela proteção de produtores e grupos de interesses especiais.

Do mesmo modo, a velha falácia mercantilista sobre a riqueza ser um jogo de soma zero fervilha na política contemporânea e está nos trabalhos de economistas como Ha-Joon Chang e Danny Dorling. A Oxfam parece empenhar seu tempo em campanha contra a riqueza, como se houvesse uma quantia limitada para ser dividida dentro da civilização humana.

David Ricardo pode ter morrido há quase 200 anos, mas à medida que seguimos para uma nova conjuntura no debate sobre o comércio, e como as forças do protecionismo vastamente assombram a política doméstica, suas ideias parecem ser mais relevantes do que nunca.


Esse artigo foi originalmente publicado como Ricardo’s ideas are as indispensable today as they were 200 years ago para o CapX.


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