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O déficit comercial com a China

por Matt Knight

Eu tenho um enorme déficit comercial com o Wal-Mart.

Enorme.

Eu gasto centenas de dólares em mantimentos e outros itens todo mês, mas nunca – nem uma única vez – o Wal-Mart comprou algo de mim. Talvez eu devesse parar de fazer compras no Wal-Mart como forma de protesto.

Ou não.

Na verdade eu me beneficio muito do meu déficit comercial com o Wal-Mart. De um modo geral, meus mantimentos são mais baratos do que em outras lojas onde eu poderia comprar, e a ampla seleção de itens importantes para a casa, o carro, os itens eletrônicos e outros faz com que consiga com facilidade comprar o que eu preciso, mesmo quando o conteúdo da minha lista de compras é variado.

Meu déficit comercial com o Wal-Mart me beneficia, não apesar do fato de eles ficarem com o meu dinheiro, mas justamente porque eles ficam com o meu dinheiro. Afinal de contas, eu não posso comer cédulas de dólar, nem posso usá-las para me aquecer ou manter o meu carro.

Acumular dinheiro (por exemplo, pondo debaixo do colchão) não me beneficia. Mas os bens que recebo quando entrego dinheiro para o Wal-Mart podem me alimentar, me aquecer e fazer com que meu carro funcione como deveria.

Você pode pensar que é bobagem pensar no meu relacionamento econômico com o Wal-Mart como um déficit comercial, e você teria razão. Supondo que você seja um dos cada três americanos que permanecem céticos em relação ao comércio internacional, você provavelmente também concordaria que seria bizarro pensar em comércio entre estados – Idaho e Califórnia, por exemplo – em termos de déficits e superávits. (Que nos poupa de ter que calcular a proporção de batatas por chips de computador1, certo?).

Mas aqui está um princípio interessante escondido em nossos exemplos: as fronteiras são economicamente irrelevantes para o comércio. Em outras palavras, as mesmas regras econômicas se aplicam igualmente ao comércio entre países, indivíduos e fronteiras estaduais.

O comércio funciona em um círculo completo

Voltemos ao meu déficit comercial com o Wal-Mart: quando compro do Wal-Mart, não estou perdendo ao abrir mão de meus dólares em troca de bens. Pelo contrário, eu estou ganhando. Afinal de contas, em uma compra e venda normal, cada lado tem que se sentir como se estivesse saindo da transação melhor do que quando entrou, do contrário a transação nem acontecerá.

O mesmo é verdade no comércio internacional. Como aponta o economista Mark J. Perry, são empresas e indivíduos que compram e vendem entre si, não países (abstratamente).

Além disso, argumenta Perry, ao trocar produtos com produtores estrangeiros (na China, por exemplo), é igualmente razoável pensar nos americanos como tendo um “superávit de mercadoria”2 exatamente igual à quantidade de dólares gastos em bens chineses, e que os consumidores chineses como tendo um “déficit de mercadoria” igual à quantidade (comparativamente menor) de dólares gastos em bens americanos. E por que não deveríamos pensar nesses termos? Afinal de contas, os pobres em todos os países (incluindo a China e os Estados Unidos) podem comprar, em média, 60% mais mercadorias por causa do comércio internacional do que seriam capazes sem ele.

Mas, e quanto aos dólares que agora foram para a China? Sugeri isso no parágrafo anterior: eles voltam para os Estados Unidos na forma de investimentos estrangeiros diretos (IED) por empresas chinesas e a compra de bens americanos por consumidores chineses. Os Estados Unidos podem ter um déficit comercial (em termos de dólares saindo do país), mas também tem um excedente em investimento e empréstimos. Esta é uma ótima notícia para os americanos: o US International Trade Administration estima que o IED de parceiros comerciais americanos mantém cerca de 12 milhões de empregos nos Estados Unidos.

Você pode, sem dúvida, questionar esse valor. Afinal, você pode argumentar que acordos comerciais resultaram na perda de empregos nos EUA. E isso é realmente verdade. Entre 2000 e 2010, por exemplo, o NAFTA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte, na sigla em inglês) resultou na perda de 728.000 empregos industriais, deslocando assim trabalhadores das fábricas americanas. Esta foi sem dúvida uma realidade extremamente estressante para aqueles trabalhadores, mas há algumas coisas que devemos ter em mente sobre este número:

  • por causa do comércio com o México, os salários das fábricas nos empregos americanos criados pelo NAFTA são 15-20% mais altos do que os salários nesses empregos perdidos;
  • a produção industrial nos Estados Unidos aumentou 40% desde que os EUA entraram no NAFTA;
  • durante o período de 2000 a 2010, foram perdidos 5,6 milhões de empregos industriais, dos quais apenas 13% (os 730.000 empregos que mencionei anteriormente) foram devidos ao comércio internacional – 85% desses 5,6 milhões de empregos foram destruídos devido a ganhos tecnológicos de produtividade;
  • a queda resultante nos preços ao consumidor, o aumento da produtividade e o aumento na oferta de bens equivalem a um ganho líquido de US$ 450.000 para a economia americana por emprego perdido – são US$ 327,6 bilhões, o que certamente não é uma bagatela; e
  • para que não pensemos nesses empregos destruídos pelo NAFTA como uma uma perda estática para os trabalhadores americanos, a economia dos Estados Unidos cria e destrói algo em torno de 7 milhões de empregos a cada trimestre, ou dez vezes o número de empregos destruídos pelo NAFTA ao longo de uma década.

“Objeção!” você pode responder. “Negociar com nossos inimigos representa uma ameaça à segurança nacional.”

Bem… não. Tomando a produção de aço como exemplo, 70% do aço usado na fabricação norte-americana é fabricado nos Estados Unidos, e a grande maioria usada na indústria da defesa nacional é aço americano. Além disso, os quatro países dos quais os Estados Unidos mais importam aço são nossos aliados. Mas, mesmo que não fosse o caso, a interdependência econômica entre os países tende a agir como um dissuasor de conflitos – se seus inimigos políticos têm grandes investimentos em sua economia e vice-versa, por que vocês bombardeariam uns aos outros?

“Ah”, você diz, “mas o comércio internacional e a globalização levaram as empresas americanas gananciosas a enviar empregos americanos para o exterior em busca de mão-de-obra barata.”

A realidade é que 90% ou mais dos empregos exportados destinam-se a atender mercados estrangeiros. O comércio internacional, afinal, é o melhor meio de ampliar mercados para os bens americanos. De fato, as evidências mostram que um aumento de 10% no investimento empresarial americano em outros países está associado a um aumento de 2,2% no investimento de empresas norte-americanas nos Estados Unidos; e por cada 10% de aumento na remuneração de empregados estrangeiros de empresas americanas, empregados americanos em casa desfrutam de um aumento de 4,0%. E isso não é verdade apenas para os americanos. Aumentar o volume de comércio leva a salários mais altos em geral.

Comércio mais livre acarreta crescimento econômico rápido

“Que tal nos certificarmos de que as empresas americanas sejam competitivas em um mercado global?”, você pergunta.

Em nossa era de mercados globais, as cadeias de suprimentos são amplamente distribuídas entre as nações. De fato, 43% das importações são bens de produção – bens que as empresas americanas usam no processo de fabricação de bens de consumo – e os custos das tarifas sobre importações são compartilhados quase igualmente entre o produtor estrangeiro e o consumidor doméstico, portanto as tarifas não são apenas “impostos sobre outros países”. O resultado no mundo real das tarifas é aumentar os preços e diminuir a demanda, tornando os consumidores mais pobres – não desejável. E historicamente, as nações que foram mais competitivas no comércio foram aquelas nações com as políticas comerciais mais liberais.

Hong Kong é um bom exemplo de um país que cresceu com o livre comércio. Em 2017, o país importou 187% do seu PIB (o Brasil, apenas 11,5%). Sua renda per capita é 4x superior à brasileira.

Nos países em desenvolvimento com um comércio mais livre, o crescimento econômico alcançou a média de 4,49% ao ano de 1970 a 1989, enquanto os países em desenvolvimento com tarifas mais altas e comércio mais restritivo cresceram apenas 0,69% ao ano durante esse período. Entre os países desenvolvidos como os Estados Unidos, os números foram de 2,29% e 0,74%, com as economias mais abertas voltando a crescer a taxas mais altas.

Eu poderia continuar. Eu poderia mencionar que os países que adotaram políticas comerciais mais livres entre 1950 e 1998 tiveram maiores taxas de crescimento e investimento do que tiveram antes da liberalização. Eu poderia escrever sobre o fato de que firmas mais antigas e estabelecidas (você sabe, aquelas que mais se beneficiariam das tarifas) são destruidoras de empregos, enquanto empresas com menos de cinco anos são criadoras de empregos. Eu poderia desconstruir o mito de que altas tarifas foram a causa do crescimento acelerado no final do século XIX. Eu poderia citar estudo após estudo que mostram que o comércio mais livre leva a um crescimento mais rápido para todos os países envolvidos. Olha, eu poderia até argumentar que o comércio mais livre leva a populações mais felizes.

Mas acho que apresentei minha tese. O comércio é bom. Não, o comércio é incrível. Claro, ele causa alguma reconfiguração da economia americana, mas isso nos tornou incrivelmente ricos.

Você, o cético do livre comércio, pode permanecer não convencido e estou confortável com essa opinião. Afinal, podem ser necessárias dezenas de contatos com uma ideia antes de nos tornarmos confortáveis com ela. Mas a evidência é clara, convincente e esmagadora em apoio ao livre comércio.

Então, não vamos começar uma guerra comercial entre nós mesmos, combinado?


Esse artigo foi originalmente publicado como The U.S. Has a YUGE Merchandise Surplus with China (and That’s Okay) para o Foundation for Economic Education.


Gostou? Já estamos preparando mais.

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1 comentário

Junior 11/08/2019 - 13:55

Muito esclarecedor

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