Na década de 1950, poucos economistas pensavam que fenômenos como a discriminação racial estavam sob sua competência. Isso mudou em 1957, quando Gary S. Becker, professor de economia e sociologia da Universidade de Chicago e da The University of Chicago Booth School of Business, antes de sua morte em 2014, publicou The Economics of Discrimination1, um livro baseado em sua tese de doutorado de 1955.

A análise de Becker estenderia o alcance da economia e remodelaria completamente as pesquisas na área e nas ciências sociais em geral, mas demorou décadas para fazê-lo. “Por vários anos, não teve impacto visível em nada”, lembrou ele. “A maioria dos economistas não pensavam que discriminação racial era economia, e sociólogos e psicólogos geralmente não acreditavam que eu estava contribuindo para seus campos.”

Agora, o impacto é claro. Não só a discriminação racial é vista como um assunto que a economia tem algo útil para dizer, como os economistas estão entre os melhores acadêmicos das áreas que pesquisam o tema.

O insight de Becker,  o qual transformou a disciplina, enquadrou a discriminação racial em um contexto de mercado, usando essa estrutura para analisar e identificar os motivos da diferença salarial entre brancos e negros. Desta forma, ele foi capaz de ilustrar ferramentas comuns da economia e aplicá-las às questões sobre a persistência da disparidade salarial entre as raças.

Três características da abordagem econômica definem sua análise. Primeiro, ele usou um modelo de indivíduo racional e de maximização de utilidade. As pessoas muitas vezes caricaturam o jogador racional como uma representação ruim do comportamento humano. Mas, no seu modelo mais simples, ele reconhece que nós, ao contrário de átomos ou rochas, realmente temos algum interesse no resultado das coisas e, geralmente, tentamos afetar esses resultados e assim perseguir nossos próprios interesses.

Em segundo lugar, o modelo de Becker baseou-se na ideia de um mercado, ou de forma mais geral, na interação entre pessoas. O mercado representa uma forma de interação social, e a economia usa todos os outros tipos de contexto nos quais as pessoas interagem, como relacionamentos e casamento.

Prof. Gary Becker, em 2008.

Em terceiro lugar, seu modelo usava a noção econômica de equilíbrio2 – um ponto em que os indivíduos tanto agem por seus interesses como interagem uns com os outros.

Ao empregar essa abordagem, Becker fez uma observação central: a discriminação tem consequências para as pessoas que estão sendo discriminadas, bem como para as pessoas que discriminam. Se a discriminação reduz os salários dos trabalhadores negros em relação aos de brancos igualmente qualificados, um discriminador que, por exemplo, não queira contratar funcionários negros terá que pagar mais para contratar funcionários brancos. Isso cria dois custos: o trabalhador negro é pago menos e o empregador discriminador incorre em maiores gastos para obter a mesma produtividade.

Becker previu que ao longo do tempo os trabalhadores negros seriam afastados dos lugares onde a discriminação era predominante e trabalhariam desproporcionalmente mais onde a discriminação fosse menos evidente. Isso, por sua vez, reduziria o impacto sobre os trabalhadores negros em relação a um mundo onde fossem alocados aleatoriamente aos empregadores. O modelo econômico de Becker reduziu uma forte questão social para uma questão econômica fundamental: oferta e demanda.

Duas coisas eram importantes: a proporção de empregadores que discriminam e o número de trabalhadores negros – quanto mais trabalhadores negros havia, maior precisaria ser a base de empregadores para contratá-los no equilíbrio. Becker usou isso para explicar por que alguns lugares podem ter maiores diferenças salariais entre raças do que outros.

A abordagem econômica de Becker também destacou uma maneira com a qual os negros podiam contornar a discriminação dos empregadores, que era simplesmente evitar os discriminadores. Ele aplicou essa ideia aos negros com graduação, que ele achou que estavam indo bem em comparação com os trabalhadores negros com educação mais básica. Sua explicação: os graduados da faculdade haviam evitado a discriminação ao se tornarem autônomos – como eclesiásticos, médicos e advogados – que serviam a comunidade negra.

O trabalho de Becker sugeriu que existia um incentivo para os empregadores não discriminadores contratarem trabalhadores negros: eles poderiam aumentar seus lucros contratando trabalhadores negros em vez de brancos. Uma vez que no equilíbrio os trabalhadores negros recebiam salários menores que os trabalhadores brancos, se empregadores não discriminadores entrassem suficientemente no mercado – para contratar uma fonte de mão-de-obra relativamente barata – eles poderiam até eliminar a diferença salarial entre as raças.

Becker, portanto, pensava que uma maior concorrência agiria como uma forte força na redução da discriminação no mercado de trabalho. Era claro para ele, no entanto, que a concorrência não a eliminaria completamente. Mesmo que um empregador não fosse racista, ele ou ela poderia ter clientes que preferiam não fazer negócios com pessoas negras. Esses clientes, para evitar lidar com um funcionário negro, acabariam por pagar um preço mais alto no equilíbrio, subsidiando assim a discriminação.

Além disso, os trabalhadores negros ainda estariam sujeitos à discriminação “pré-mercado” (coisas que acontecem às pessoas antes de entrarem no mercado de trabalho) e modos de discriminação baseados em políticas (regras prejudiciais que regulam o zoneamento, habitação e educação). Becker argumentou que, em termos de escolaridade, os Estados Unidos tinham discriminado rotineiramente, porque as forças competitivas que governam o mercado não estão presentes na educação primária e secundária proporcionada pelo Estado. Ele esperava que a discriminação racial pré-mercado e a discriminação de clientes persistissem mais do que a discriminação entre os proprietários do capital, uma vez que, como explicou, existiam fortes incentivos para reduzir a última.

A pesquisa de Becker nesta área foi publicada exatamente quando a desobediência civil dos ativistas dos direitos civis dos Estados Unidos estava se tornando tendência: o boicote de ônibus de Montgomery começou em 1955, anunciando um movimento focado na obtenção de igualdade legal e remediação para injustiças históricas contra as pessoas de cor.

Apesar de o aumento do movimento dos direitos civis ter ajudado o trabalho de Becker a conquistar maior aclamação na década de 1960, as remediações legais buscadas pelos ativistas não desempenharam papel significativo em sua análise. Do ponto de vista econômico, as remediações legais corrigiram alguns problemas, mas exacerbaram outros. As regras rigorosas de contratação e pagamento tornaram mais difícil discriminar em termos de salários ou entre os candidatos a emprego, mas as empresas que quisessem continuar discriminando em suas práticas de contratação podiam se deslocar para locais sem populações minoritárias significativas. Mais fundamentalmente, se as pessoas tendem a discriminar com base na raça, a legislação não consegue eliminar essa tendência.

Os políticos não podem simplesmente legislar um novo resultado, nem legislar as preferências. Eles só podem mudar a forma como a discriminação se manifesta.

Isso não quer dizer que Becker pensou que a discriminação fosse uma preferência fixa. Embora não seja um economista comportamental, ele argumentou que as preferências poderiam ser influenciadas. Becker acreditava que a sociedade e os fatores externos ao indivíduo tivessem um efeito significativo nas preferências – que eram formadas, e não determinadas por Deus – e que os processos que formam preferências mereciam mais estudos.

Uma pergunta óbvia clamada pelo trabalho de Becker foi: quem se beneficia da discriminação? Embora ele não a tenha abordado diretamente, ele sugeriu que um dos beneficiários poderia ser os sindicatos, que tradicionalmente representavam trabalhadores brancos. Os sindicatos apoiaram historicamente muitos aspectos da discriminação, já que seus membros competiam por empregos com trabalhadores negros.

A economia da discriminação permanece relevante, primeiro como uma inspiração para pesquisa acadêmica. Um exemplo recente é o trabalho de Kerwin Kofi Charles, da Escola de Politicas Públicas da Universidade de Chicago e Jonathan Guryan, da Universidade de Northwestern, que utilizam a abordagem de Becker em um esforço para entender como argumentos teóricos sobre diferenciais de salários entre trabalhadores negros e brancos se encaixam em dados empíricos.

Segundo, o uso do conceito de equilíbrio de Becker, aplicado à discriminação, continua a ser crítico ao avaliar o impacto da legislação antidiscriminação – os economistas continuam a usá-lo para medir como elas afetam o pagamento e a educação, e onde os empregadores se localizam.

Em terceiro lugar, a atenção que Becker atraiu para fatores pré-mercado como uma área-chave de discriminação continua a moldar os debates sobre políticas públicas. Vendo uma oportunidade para resolver o problema, Becker pensou que as forças do mercado – na educação, através de charter schools3 e vouchers4 – poderiam ajudar as minorias a avançar economicamente.

Para Becker, a discriminação racial representou a primeira das muitas incursões fora das áreas centrais da pesquisa econômica. Posteriormente trouxe a perspectiva de um economista para as questões do crime, família, doações de órgãos, drogas, capital humano, entre outros assuntos. Foi essa abordagem inovadora que o fez conquistar o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 1992.

Um artigo de Edward P. Lazear da Universidade de Stanford publicado em 2000, argumentando que o uso econômico de um modelo baseado em indivíduos racionais e maximizadores, equilíbrio e a eficiência, permitiu que a disciplina disseminasse seu alcance intelectual em muitas áreas anteriormente pensadas para além do seu domínio. Essa marcha imperialista começou com seriedade em The Economics of Discrimination e ainda está acontecendo.


Esse artigo foi originalmente publicado como How Gary Becker saw the scourge of discrimination para o Chicago Booth Review.


Notas:

  1. A economia da discriminação, em tradução livre. (N. do T.)
  2. Nesse artigo, o autor deu muita atenção ao conceito de equilíbrio econômico. Trata-se de uma situação hipotética em modelos econômicos em que as forças da economia não conseguem mais alterar os dados do modelo (como preço, quantidade produzida, demandada, ou o que o modelo estiver tentando ilustrar). (N. do E.)
  3. Escola autônoma, em uma tradução livre, é um sistema de ensino alternativo no qual uma escola recebe fundos públicos mas opera independentemente. (N. do E.)
  4. Um voucher escolar é uma espécie de certificado de financiamento emitido pelo governo e entregue para os pais de uma criança em idade escolar, onde os pais o utilizam para pagar total ou parcialmente a mensalidade em uma escola particular. (N. do E.)

Sobre o Autor

Kevin M. Murphy é o primeiro professor em uma escola de negócios a ser escolhido como um MacArthur Fellow, segundo mais importante reconhecimento acadêmico depois do Prêmio Nobel. Ele foi selecionado para "revelar forças econômicas que moldam fenômenos sociais vitais, como desigualdade salarial, desemprego, dependência, pesquisa médica e crescimento econômico". Além de sua posição na Universidade de Chicago, Murphy trabalha como associado de pesquisa de faculdade para o National Bureau of Economic Research.

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