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Como as fábricas da China estão libertando as mulheres

por Chelsea Follett

A China vivenciou o maior avanço contra a pobreza de todos os tempos, em parte graças à expansão industrial que se seguiu à liberalização econômica dos anos 80. Entretanto, há um equívoco comum relacionado com as consequentes condições de trabalho: muitos imaginam que todas as fábricas chinesas possuam péssimas condições de trabalho em que os trabalhadores são explorados para servir à “ganância” dos capitalistas.

Isto, entretanto, é ignorar as próprias experiências dos trabalhadores.

A perspectiva do trabalhador

“A narrativa simplista igualando a demanda ocidental e o sofrimento chinês é tentadora”, diz a escritora Leslie T. Chang. “Mas também é equivocada e desrespeitosa.”

“Os trabalhadores chineses não são empurrados para as fábricas por causa do nosso desejo insaciável por iPods”, explica Chang em uma palestra do TED. “Eles decidem deixar suas casas (na China rural) a fim de ganhar dinheiro, aprender novas habilidades e conhecer o mundo.”

Alguns anos atrás, Chang, uma ex-jornalista do Wall Street Journal, passou dois anos na China buscando conhecer os trabalhadores fabris para tornar suas histórias conhecidas. “No debate em curso sobre a globalização, o que está faltando é a voz dos próprios trabalhadores”, diz Chang.

“Certamente que as condições nas fábricas são realmente duras, e não é nada que você ou eu queira fazer, mas da perspectiva deles, de onde eles vieram é muito pior. (…) Apenas quis contextualizar sobre o que está se passando na cabeça deles, não o que se passa na de vocês.”

O livro que Chang escreveu como resultado de sua pesquisa, “As garotas da fábrica: Da aldeia à cidade numa China em transformação”1, apresenta uma visão pessoal de como o capitalismo global mudou as vidas de mulheres em seu país natal. Os retratos que surgem de jovens mulheres independentes e ambiciosas contrastam acentuadamente com a popular narrativa de vitimização.

As mulheres correspondem a um terço dos imigrantes econômicos internos, mas representam 70% das migrações rurais para a cidade industrial que Chang visitou. As mulheres viajam para mais longe e permanecem por mais tempo nas áreas urbanas do que os homens.

As mulheres “são mais propensas a valorizar a migração por sua possibilidade de mudança de vida” do que os homens, uma vez que as exigências de gênero são menos restritivas nas cidades do que no campo. Apesar de ter sido incialmente considerado arriscado ou vergonhoso para uma mulher solteira sair de casa sozinha, hoje a imigração para as cidades é praticamente um rito de passagem para as camponesas chinesas.

Na cidade, Chang se surpreendeu ao verificar que a mobilidade social era forte, com muitas mulheres da linha de montagem migrando para tarefas administrativas ou outras áreas. A rotatividade nas fábricas é alta, com as mulheres frequentemente se movendo para outros empregos em busca de melhores perspectivas.

Chang observou que alguns cursos noturnos de etiqueta para negócios, inglês, ou conhecimentos em informática poderiam catapultar uma mulher ambiciosa para trabalhos administrativos2.

Vida urbana e vida rural

O livro claramente ilustra como a urbanização não apenas oferece uma fuga da pobreza, mas é fundamental na melhoria das cidades natais dos imigrantes. E isso destrói a ideia de que ser pobre na cidade é tão ruim, se não pior, do que ser pobre no campo.

“Quando você vive na cidade por um tempo, sua cabeça muda”, notou uma imigrante, “você está constantemente pensando sobre como melhorar o campo. A aldeia é a minha casa, mas eu não me sinto mais confortável lá.”

Quando Min, uma empregada da indústria de bolsas acostumada à moderna vida urbana, visitou sua casa no campo, ela se deparou com esta cena:

A eletricidade era pouco utilizada para se economizar, e muitos jantares eram servidos praticamente às escuras. Não havia saneamento, nem aquecimento. No inverno úmido de Hubei, a família inteira usava seus casacos e luvas dentro de casa, e as paredes e os pisos de alvenaria absorviam o frio como uma esponja. Se você permanecesse sentado por muito tempo, seus dedos dos pés ficariam dormentes, e os dedos das mãos também.

Min fez de sua missão melhorar sua casa no campo onde ela cresceu.

Min andou pela casa apontando as melhorias que ela queria: um aquecedor de água, uma máquina de lavar e um piso cimentado atravessando o jardim enlameado.” Ela planeja um dia pagar a construção de um banheiro dentro da casa e um aquecedor de água elétrico para que sua família possa tomar banho no inverno sem passar frio.

Imigrantes como Min se tornam a principal fonte de renda das aldeias ao enviar dinheiro para suas casas. Este ano, Min e sua irmã mais velha Guimin enviaram para casa mais do que o dobro do que sua família conseguiu vendendo porcos e algodão.

O dinheiro das irmãs pagou o estudo de seus irmãos mais novos.

O dinheiro também deu às duas irmãs voz sobre os assuntos da família, permitindo que elas insistissem que suas irmãs mais novas estudassem por mais tempo do que o usual para meninas. Enquanto a irmã mais velha completou apenas o ensino médio, a família espera que as duas mais novas poderão até se dar ao luxo de cursar uma faculdade se assim desejarem.

Como Chang afirma, muitos imigrantes nunca retornam definitivamente para o campo. “Aqueles que obtém sucesso provavelmente comprarão apartamentos e se estabelecerão nas cidades; os demais podem ao final se mudar para cidades próximas de suas aldeias e construir lojas, restaurantes e pequenos negócios como salões de beleza e lojas de costura.” Pouquíssimos retornam ao campo.

Mas a vida urbana faz mais do que simplesmente aumentar as expectativas de uma mulher em relação ao status social e influência. De acordo com Chang, a imigração torna as mulheres do campo mais propensas a buscar igualdade no casamento. E este é um exemplo de como, nas cidades fabris do sul, as mulheres jovens “passaram a acreditar que elas têm valor, a despeito de suas origens humildes.”

Então, conforme a oportunidade econômica se espalhou pela China, ela trouxe consigo um sentimento de autoestima. Como Chang afirma, as mulheres mais velhas e do campo que ela entrevistou não acreditavam que suas histórias valessem a pena ser contadas, mas as mulheres jovens na cidade se consideravam dignas de serem entrevistadas.

É graças à liberalização econômica e à tal da ganância do capitalismo que uma geração de mulheres, como o livro de Chang mostra, teve a oportunidade de mudar seus futuros, ter o controle sobre seus destinos e tomar suas próprias decisões. A globalização não as aprisionou em locais com péssimas condições de trabalho. Ela as libertou.


Esse artigo foi originalmente publicado como Chinese factories are producing feminists para o CapX.

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