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Os ciclos econômicos nos Estados Unidos

por Ryan McMaken

Donald Trump condenou nesta manhã1 as “ações desnecessárias e destrutivas” do Federal Reserve2, provavelmente se referindo às tentativas recentes do Fed de apertar a política monetária.

Desde 2016 – depois de quase uma década de política monetária extremamente acomodatícia, o Fed começou a muito sutilmente reduzir suas políticas de dinheiro fácil, começando com aumentos graduais na taxa básica de juros3. Não foi até abril/maio de 2018, no entanto, que o Fed começou a lentamente reduzir sua carteira, que ele havia engrossado para inflar os preços dos ativos e socorrer grandes bancos.

Apesar das ações desnecessárias e destrutivas do Fed, a economia aparenta muito vigor, os acordos com a China e com o USMCA4 estão indo bem, há pouca ou nenhuma inflação, e o otimismo nos EUA está muito alto! – Donald Trump em tweet

Mas mesmo essa redução no saldo total nunca foi mais do que uma pequena reversão. Os ativos totais foram reduzidos de US$ 4,4 trilhões para US$ 3,9 trilhões. Antes de 2008, no entanto, os ativos totalizavam bem menos de US$ 1 trilhão.

Assim, mesmo esse pequeno movimento do Fed se afastando da política de dinheiro fácil é demais para Trump, que nos últimos meses repetidamente condenou o Fed por não ter criado dinheiro do nada o suficiente.

Os ciclos econômicos nos Estados Unidos

Como o público em geral, Donald Trump continua a trabalhar sob a equivocada impressão de que as ameaças à economia ocorrem durante o estágio de aperto da política do Fed, embora o verdadeiro problema venha muito antes disso.

Afinal de contas, os colapsos econômicos não se materializam como decorrência das forças de mercado ou fenômenos mágicos que permanecerão para sempre um mistério. Em vez disso, o colapso é resultado de uma criação de mais dinheiro pelos bancos comerciais e bancos centrais – mas sempre possibilitada pelos bancos centrais e por política governamentais.

Assim, o colapso é criado na fase de boom, uma vez que a política do banco central leva à criação de novo dinheiro “a partir do nada”. Este excesso de dinheiro, em seguida, encontra o seu caminho para uma variedade de áreas não produtivas da economia – áreas e setores que nunca teriam recebido tanto gasto e investimento na ausência de dinheiro novo e sem lastro.

O resultado são investimentos ruins e bolhas.

Mas por que isso deveria levar a um colapso?

O problema se torna mais claro quando consideramos que os novos gastos com “dinheiro fácil” não foram compensados por aumentos na poupança, no investimento ou na produtividade do trabalhador.

Numa economia de mercado sem um banco central, aumentos nos gastos só podem ocorrer como resultado de poupança e investimento de verdade feitos anteriormente. A poupança e o investimento anteriores levam a aumentos de capital e produtividade do trabalhador, o que cria mais riqueza e capacidade de gasto em uma economia.

Quando mais dinheiro acaba de ser criado por um banco central, no entanto, o dinheiro adicional só cria a impressão de que há mais capacidade de gasto real e mais riqueza. Consumidores e investidores começam então a despejar esse dinheiro recém-criado em vários setores, dependendo dos últimos modismos e das narrativas especulativas.

Fatalmente, porém, a falta de uma base econômica sólida sob esses novos gastos leva a calotes, falências, recuperações judiciais e outros problemas esperados quando bolhas especulativas aumentam os preços dos ativos muito além do que uma economia pode sustentar.

Colapso, a fase de recuperação econômica

Então, as bolhas estouram e a recessão chega. Mas a recessão em si não é o problema. A recessão é a fase em que a economia está sendo reparada. A recessão é quando as bolhas e investimentos ruins são expostos, e a riqueza real é redirecionada para setores verdadeiramente lucrativos da economia que não dependem de um fluxo permanente de estímulo ou do dinheiro fácil do banco central.

Assim, o verdadeiro problema não é que o Fed esteja hoje (minimamente) tentando moderar sua postura em relação ao dinheiro fácil, assim estourando as bolhas por onde quer que elas estejam. O problema real é que o Fed criou as bolhas para começar.

Trump, no entanto, só vê alguns bons números de emprego e leva crédito pelo boom. Portanto, na sua cabeça (aparentemente), as únicas moscas na sopa são as “ações desnecessárias e destrutivas” do Fed que Trump talvez veja como um esforço para sabotar o crescimento econômico criado por ele mesmo.

A situação da economia norte-americana

Jerome Powell, atual presidente do Fed.

A realidade, no entanto, é algo muito mais complexo.

O Fed agora está preocupado que não consiga normalizar suas políticas tempo o suficiente antes da próxima recessão chegar. É importante se afastar das taxas de juros extremamente baixas antes da crise chegar para que o Fed tenha espaço suficiente para estimular o próximo boom diminuindo significativamente a taxa básica de juros.

Tudo isso, no entanto, é um processo muito irregular e o Fed já deixou claro que está perdido.

Além disso, não é de todo certo supor que o enfraquecimento dos indicadores econômicos seja resultado apenas do ligeiro aperto do Fed. Com o aumento da inadimplência de empréstimos para automóveis, a redução no número de permissões de construção e a variação no preço dos imóveis caindo para o menor patamar em seis anos, pode muito bem ser que as realidades em geral não estejam à altura das expectativas alimentadas pela bolha.

Além disso, o próprio argumento de Trump mostra como a economia está realmente fraca. Ele alegou que o pequeno aperto do Fed de 2016 a 2018 foi prejudicial à economia. No entanto, se a economia estivesse minimamente próxima de tão forte quanto Trump afirma, as pequenas altas do Fed na taxa de juros dificilmente justificariam sua descrição como “destrutivas”.

O Fed também já mostrou quão pouca confiança tem na saúde da economia. Depois de apenas dois anos de aumentos moderados no juros e mudanças mínimas em sua carteira, o Fed já sinalizou que pretende reconsiderar, e pode estar assumindo uma postura mais frouxa em 2019.

O presidente do Fed de Nova York, John Williams, tentou injetar um pouco de confiança no mercado de ações alegando que “a perspectiva é positiva” e está tudo bem. No entanto, se fosse esse o caso, estaríamos ouvindo sobre mais aumentos no juros e mais vendas de ativos do Fed em andamento. Contudo, não estamos ouvindo nada disso.


Esse artigo foi originalmente publicado como Why Trump Wants the Fed To Pump Even More Easy Money para o Mises Institute.


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