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A economia compartilhada é exploradora?

por Per Bylund

Há muito burburinho sobre a economia compartilhada. Muitos parecem pensar que é algo novo, com alguns clamando por uma “nova economia” para explicá-la, enquanto outros ridicularizam a “economia de bicos”1 como um nível superior de exploração, desigualdade e pobreza. Nenhuma delas é uma boa análise.

Primeiramente: a economia compartilhada foi facilitada pelos avanços da tecnologia juntamente com as preferências dos consumidores que mudaram de bens para serviços e, portanto, de propriedade para locação. Estes não são processos separados, mas constituem mutuamente mudanças onde uma alimenta a outra.

Avaliações de clientes sobre um produto.
Avaliações de clientes sobre um produto, recurso possibilitado pela tecnologia e cada vez mais utilizado por vendedores que querem ganhar a confiança do público. O público consumidor também ganha ao ter melhores informações sobre o produto antes da compra.

Os avanços na tecnologia que levaram à economia compartilhada são aqueles que permitem uma comunicação mais barata, mais rápida e mais precisa, a verificação de alegações factuais, a confiança / reputação corroborada e descentralizada, etc. Eles reduzem os custos de transação, tornando as informações tanto disponíveis como confiáveis. A ideia aterrorizante de “entrar em um carro com um estranho” não é mais um problema se a reputação desse estranho puder ser monitorada, estiver publicamente disponível e for respaldada pelas experiências de muitos outros fazendo a mesma coisa (como com Uber ou Lyft2).

A disponibilidade dessas informações também significa que não precisamos confiar apenas em nossa própria experiência (ou de pessoas próximas através de familiares e amigos), mas podemos, por assim dizer, confiar na experiência de outros desconhecidos – confiança de terceiros. Isso muda nosso comportamento porque o custo de cometer um erro é muito menor: entrar no carro de um sombrio motorista do Uber é, em média, muito menos arriscado do que fazer o mesmo ao pegar carona ou até mesmo ao pegar um táxi normal. Essa mudança de comportamento em resposta à confiança “de fontes terceirizadas” significa que a tecnologia pode progredir ainda mais.

A economia compartilhada, como o termo implica, também significa que podemos “compartilhar“ (disponibilizar) recursos produtivos de formas muito mais eficientes. Em certo sentido, isso enfraquece a visão materialista da criação de valor ao dissolver a diferença entre a propriedade “pessoal” e a propriedade privada dos meios de produção: seu carro pessoal pode agora ser tanto sua propriedade pessoal quanto sua fonte de renda e você, como o proprietário, decide quando e como. Não altera as categorias econômicas, mas liberta a análise econômica dos bens materiais.

Tudo isso é bom e oportuno, já que a economia tem a ver com a criação e distribuição de valor, e não de coisas materiais. Assim como o valor é subjetivo, também o é a distinção entre bem de consumo e bem de produção. Tudo pode ser qualquer um deles, e o que é o quê depende de como você o usa.

Em outras palavras, o efeito da economia compartilhada no estudo da economia pode (e provavelmente vai) libertar a análise econômica de vieses materialistas. A economia se torna a ciência social subjetivista que sempre foi destinada a ser. Assim, em termos de teoria econômica, a economia compartilhada pode ajudar a tornar o estudo da economia o que ele deveria ser e sempre deveria ter sido: o estudo da criação e da distribuição do valor subjetivo e das ordens sociais não planejadas que emergem no processo de criação de prosperidade.

Mas e a exploração?

Considero o argumento de que a “economia dos bicos” faz as pessoas aceitarem salários mais baixos altamente fascinante. De repente, se torna um problema para esses críticos, principalmente os de esquerda, que os “trabalhadores” possuam seu próprio capital.

Quando a propriedade pessoal se torna capital, uma fonte de renda, a consequência óbvia é a descentralização da propriedade do capital.

Não estou dizendo que empresas como a Uber sejam perfeitas em qualquer sentido. Elas certamente poderiam ir além ao implementar, por exemplo, a livre negociação de preços entre motoristas e passageiros. Por que não permitir que os motoristas definam o mínimo necessário para fornecer uma corrida? Por que não permitir que os passageiros estabeleçam seu preço máximo para fazer uma corrida3? O argumento comum de que os motoristas (que é geralmente o exemplo utilizado) não ganham um “salário de subsistência” é também um preconceito que permanece da visão materialista e industrialista da economia. Ele presume que um emprego se resume ao salário, e que o que importa é o seu resultado monetário. Mas muitos daqueles que escolhem dirigir por uma empresa de caronas compartilhadas o fazem porque é um tipo de trabalho flexível, o que é um valor em si mesmo.

Claro, pode não ser tão lucrativo quanto o emprego “em tempo integral”, mas qualquer escolha inclui um trade-off4 de valor: para muitos, as horas de trabalho flexíveis compensam o salário mais baixo; para outros, isso não acontece – então eles buscam emprego tradicional.

A solução para os baixos salários na economia compartilhada não é a regulação, mas mais competição – e salários propriamente de mercado. De fato, a razão pela qual as empresas de carona compartilhada podem pagar salários baixos (que, a julgar pelas minhas discussões com muitos motoristas, excedem os dos motoristas de táxi!) são os regulamentos já em vigor: principalmente as barreiras à entrada na carona compartilhada e em outros lugares, que mantêm os salários em geral baixos ao fornecer influência artificial (poder) aos empregadores.

O resultado esperado da economia de baixos custos de transação deve ser a economia de bicos derradeira, onde todas ou a maioria das hierarquias (como as empresas) se dissolvem em relações de mercado – e onde aqueles que (por opção) trabalham dentro deste modelo ganham um salário de mercado. O que está impedindo que chegue esse dia não são os empregadores, nem mesmo os donos de capital, mas aquelas restrições artificiais que produzem seus privilégios.

É realmente uma triste ironia que essas restrições, regulamentações, destinadas a proteger os trabalhadores dos empregadores (na era industrial) sejam o empecilho para a libertação dos trabalhadores na nova era.


Artigo reformatado, originalmente publicado na forma de tweet.


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