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A desigualdade no livre-comércio

por John Tamny

Importações são a manhã de natal. Exportações são a fatura do cartão de crédito em janeiro. – P.J. O´Rourke

Finalizada em 1883, a Ponte do Brooklyn levou catorze anos para ser construída. Esta maravilha da engenharia trouxe um mundo ainda distante para ainda mais perto.

O que é importante sobre a Ponte do Brooklyn em um sentido maior, histórico, é o que ela sinaliza em relação à humanidade: como seres humanos, estamos em uma busca incessante por reduzir distâncias em relação aos nossos semelhantes ao redor do mundo, com o comércio no topo dessa motivação. Aparentemente, todo avanço tecnológico de maiores consequências (o telefone, o carro, o avião, o computador etc.) tem sido para encolher o mundo em sentido figurativo, bem como alcançar mais pessoas com bens e serviços em sentido literal.

É um mundo pequeno, afinal1

Jeff Bezos

Em tempos modernos, e graças à internet e ao Wi-Fi, nós indivíduos podemos nos comunicar e fazer transações com o mundo instantaneamente. Pensando neste último em termos de uma das empresas mais valiosas do mundo, o valor da Amazon se deve ao fato de Jeff Bezos ser capaz de atender às necessidades do mundo estando em Seattle, apesar de a Amazon não ter presença física em grande parte do mundo. A importância da história da Amazon não pode ser minimizada.

O progresso mais uma vez foi historicamente definido como um encolhimento do mundo através da tecnologia. À medida que ele encolhe, temos mais e mais pessoas capazes de servir nossa gama de necessidades. É animador lembrar que os melhores e mais brilhantes da humanidade trabalharam freneticamente por séculos para permitir mais e mais trocas entre indivíduos que não moram na mesma cidade, nem no mesmo país. Aqui reside a fonte de nossa imensa riqueza.

Quanto mais podemos receber dos outros como retorno do nosso trabalho, maiores as chances de podermos fazer o trabalho mais compatível com nossas habilidades. Neste caso, a internet permitiu o livre comércio em uma escala jamais vista, assim permitindo nossa própria especialização fomentadora de produtividade em sintonia com aqueles cada vez mais especializados serem servidos pelos maiores empreendedores do mundo, não importando a sua localização.

Qualquer um que duvide do cenário descrito no parágrafo acima precisa apenas olhar para os preços das ações da Amazon americana e da chinesa Alibaba. As ações de ambas são uma lembrança de que o livre comércio é uma máquina de prosperidade simplesmente porque uma crescente capacidade de receber em retorno por nosso trabalho aumenta as chances de fazermos o trabalho que mais amplifica nossas habilidades.

Se a afirmação anterior não fosse verdadeira, nem a Amazon e nem o Alibaba poderiam valer muito. Elas prosperam, dada a verdade básica de que trabalhamos para podermos importar. Nossa importação pode ser do outro lado da rua ou do outro lado do mundo, mas isso não tem nenhuma consequência. A intenção de produzir é receber.

A globalização do comércio

Tudo isso preocupa, considerando-se os anseios políticos que definem a esquerda moderna nos EUA, juntamente com a direita de Donald Trump. O colunista de esquerda do New York Times David Leonhardt vê a desigualdade crescente como evidência de uma economia americana “quebrada”, enquanto o presidente Trump de forma similar vê as crescentes importações como evidência de uma economia americana correndo rumo a uma “carnificina”. Leonhardt despreza Trump, Trump provavelmente despreza Leonhardt se o conhece, mas o que ambos não percebem é que seus anseios em relação a políticas são extremamente parecidos.

Aliás, é alguma surpresa que a desigualdade tenha disparado nos últimos tempos? Não deveria ser. O que é importante é que o aumento da desigualdade tem, lógica e felizmente, sido um efeito do aumento no comércio global. Graças aos avanços no transporte e nas comunicações, o empreendedor de hoje pode atender grande parte do mundo. Enquanto a genialidade de Bezos teria sido limitada ao noroeste pacífico2 cem anos atrás, hoje grande parte do mundo pode ser tocada por sua grandeza.

Leonhardt lamenta que “a desigualdade tenha subido apenas nas últimas décadas”, e a resposta correta é que é claro que subiu. Com a proliferação das tecnologias que figurativamente encolheram o mundo, as chances das mentes geniais dos negócios atenderem às necessidades do mundo cresceram.

O que é importante é que este aumento no comércio é a fonte de riqueza individual. Como indivíduos, levaria uma vida inteira para ineficientemente produzir apenas a caixa plástica que embala os supercomputadores que chamamos de smartphones, mas graças à globalização do comércio maravilhosamente intensificada pela internet, nós cada vez mais não temos que nos preocupar com aquilo que não podemos fazer.

Quanto mais importamos, mais nos especializamos. E quanto mais os indivíduos prosperam através da especialização, mais os melhores entre os melhores se tornarão extraordinariamente ricos atendendo às necessidades de uma população global cada vez mais próspera. No entanto, Trump quer cruelmente desconectar um mundo cada vez mais interligado, com tarifas destinadas a tornar mais difícil o comércio que gera riqueza. O homem que promete melhorar a infraestrutura de apoio ao comércio estranhamente quer pôr barreiras na frente dos carros e dos aviões que permitiriam as melhorias.

Barreiras ao aumento de riqueza

O interessante aqui é que Leonhardt lamenta que “o padrão de vida para a maioria dos americanos está estagnando”, enquanto Trump promete impor tarifas para acabar com o alegado declínio do padrão de vida dos americanos, mas a realidade é que mesmo os americanos mais pobres têm acesso a confortos hoje (computadores em seus bolsos, transporte barato à nossa porta ao alcance de um botão, filmes e televisão em seus telefones – para citar apenas três) que teriam desconcertado os super ricos de não muitos anos atrás.

A riqueza, por Matt Ridley, é uma função da “vida ser facilitada por mercados e máquinas e outras pessoas.” Isso é o que está acontecendo hoje. Enquanto sempre existirão ricos e pobres, a definição moderna de pobre teria sido de certa forma registrada como rico em 2005, e inquestionavelmente rico em 1905.

À medida que a desigualdade cresce, a diferença em estilos de vida entre o rico e o pobre diminui. É claro que sim. Inovadores enriquecem ao tornar populares os luxos de ontem, e os inovadores de hoje mais uma vez podem atender às necessidades de um número muito maior de pessoas.

Mas ironicamente o emocional Leonhardt suplica por políticas que “produziriam um resultado diferente” de uma enorme riqueza, ao mesmo tempo que ataca o presidente Trump. O que o histérico Leonhardt claramente não entende é que o desejo de Trump de colocar obstáculos ao ato criador de riqueza, que é o comércio, é o caminho mais rápido para reduzir a desigualdade.

Ao denunciar a desigualdade, um Leonhardt transtornado busca por políticas que revertam o progresso alcançado através da liberdade de servir para ser servido. Mais precisamente, denunciando a desigualdade Leonhardt está revelando uma tendência autoritária ao estilo Trump que ele provavelmente preferiria esconder, mas que Trump exibe orgulhosamente. Leonhardt inconscientemente encontrou a fonte de seu nirvana político, mas seu temperamento chorão aparentemente o cegou para essa verdade.


Esse artigo foi originalmente publicado como When It Naively Trashes Inequality, the New York Times Channels Donald Trump para o RealClearMarkets.

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