Início História econômica 30 anos depois da queda do muro de Berlim

30 anos depois da queda do muro de Berlim

por Economista Visual

Duzentos anos. Esse é o tempo aproximado em que as primeiras ideias do principal antagonista do capitalismo começaram a se formar.

Quase dois séculos depois, o socialismo ainda possui muita influência no meio político mundial.

A polarização do socialismo x capitalismo é uma discussão que parece nunca perder sua intensidade. Apesar de estarmos vivendo o melhor momento da história da humanidade em uma sociedade majoritariamente capitalista, os críticos do capitalismo nunca se cansam de condená-lo.

A comparação entre sociedades que adotaram os diferentes sistemas políticos é algo inevitável nessa discussão, e quase sempre se chega a indagação: “e se dividíssemos um país no meio e adotássemos o socialismo em uma parte e o capitalismo em outra, como seria?“

Bom, na verdade a história moderna já nos deu dois exemplos claros disso.

Trata-se da divisão da Coreia entre Coreia do Sul e Coreia do Norte em 1945, e que perdura até hoje. E a divisão da Alemanha entre Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental, iniciada também em 1945 e que perdurou até 1989.

A diferença entre as Coreias é nítida hoje em dia. Enquanto uma se tornou uma potência tecnológica, com altos índices de qualidade de vida e renda média de sua população, a outra condena seu povo a viver em um regime alheio ao mundo, com sérios problemas econômicos e sociais.

Diferentemente da até hoje dividida Coreia, a Alemanha teve sua reunificação em 1989.

Alemanha Oriental e Alemanha Ocidental

Derrotada na segunda guerra mundial, a Alemanha foi repartida entre as principais potências vencedoras logo após o término da guerra.

Foi através da Conferência de Potsdam que definiu-se a divisão da Alemanha entre quatro zonas de ocupação militar.

A metade leste para ficar sob domínio da União Soviética, e o lado oeste, sob domínio dos aliados. Mais precisamente, Estados Unidos, Reino Unido e França.

A divisão entre Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental ocorreu formalmente em 1949, com a criação da República Federal da Alemanha (ocidental) e a República Democrática da Alemanha (oriental).

Como Berlim, a capital da Alemanha unificada antes do fim da guerra, ficava no lado oriental, decidiu-se que essa também seria dividida em duas partes iguais.

Desse modo, foram também criadas a Berlim Ocidental e a Berlim Oriental.

Não demorou muito para que muitos do lado oriental (socialista) começassem a migrar para o lado ocidental (capitalista).

A solução encontrada pela União Soviética foi a de fortificar ao máximo a fronteira interna entre as Alemanhas, para impedir a fuga em massa dos habitantes orientais.

O famoso Muro de Berlim, foi construído em 1961 com o mesmo intuito.

Estima-se que cerca de 75 mil pessoas foram acusadas de desertarem da Alemanha Oriental, e o número de mortes de pessoas tentando cruzar as fronteiras é extremamente controverso. Antes do Muro, cerca de 3,5 milhões de pessoas imigraram para o lado ocidental.

É importante saber que, por Berlim estar encravada no meio da Alemanha Oriental, os suprimentos para a parte ocidental de Berlim só chegavam até a população por via aérea.

Trinta anos depois da derrubada do muro, o contraste dos dois lados de Berlim ainda pode ser visualizado.

Além de revelar um lado muito mais luminoso, Berlim Ocidental (à esquerda) possui até hoje um padrão de cor diferente do lado Oriental.

Nos pouco mais de 40 anos de uma Alemanha capitalista e uma socialista, a história tratou de nos mostrar a discrepância na qualidade de vida dos dois sistemas.

Enquanto o lado capitalista desenvolveu-se rapidamente, colocando a Alemanha Ocidental – completamente destruída na segunda guerra – de volta ao patamar de potência econômica Europeia, o lado oriental amargou estagnação e retrocesso.

A construção do muro e o reforço da fronteira interna alemã, por parte da Alemanha Oriental, já era indício suficiente para provar que as políticas socialistas eram um fracasso.

O gráfico abaixo evidencia a diferença no padrão de vida dos dois lados. Com dados da OCDE, a linha azul mostra a evolução do PIB per capita na Alemanha Oriental (socialista), e a linha laranja na Alemanha Ocidental (capitalista).

O relato feito pelo economista indiano Dr. Bellikoth Ragunath Shenoy em 1960 – um ano antes da construção do muro de Berlim – retrata bem a diferença visível entre as duas partes da cidade:

O contraste entre as duas Berlims não passa despercebido por uma criança de colégio. Berlim Ocidental (capitalista), apesar de uma ilha dentro da Alemanha Oriental (socialista), é uma parte integral da economia da Alemanha Ocidental e compartilha de sua prosperidade. A destruição por bombardeiros for imparcial para as duas partes da cidade. A reconstrução em Berlim Ocidental está virtualmente completa. Terrenos baldios são geralmente usados para cultivo de lavouras. Prédios ainda danificados são raros. As áreas residenciais incluem flats para trabalhadores, dos mais variados espaços, não são chalés, e os shopping centers irradiam crescimento. Na Berlim Oriental (socialista) uma boa parte da destruição ainda permanece; ferros retorcidos, paredes quebradas e entulhos empilhados são comumente avistados. As novas estruturas, especialmente os cortiços pré-fabricados para os trabalhadores, parecem monótonos.

O Dr. Bellikoth também chega a uma conclusão do por quê do contraste entre as duas partes da cidade:

Para um explicação do contraste das duas Berlims, nós devemos olhar mais a fundo: a principal explicação se dá pelos sistemas políticos divergentes. As pessoas são as mesmas, não há diferença em talento, em habilidade tecnológica ou aspirações dos residentes das duas partes da cidade. Na Berlim Ocidental (capitalista) os esforços são espontâneos e direcionados por homens livres, sob o impulso de ir adiante. Na Berlim Oriental (socialista), os esforços são diretamente centralizados pelos planejadores comunistas, aos quais também não faltam em determinação para um progresso rápido; o impulso para o progresso é particularmente forte, talvez apenas para demonstrar o potencial do comunismo para visitantes estrangeiros das duas Berlim. O contraste na prosperidade é prova convincente da superioridade das forças da liberdade sobre as forças do planejamento centralizado.

Em seu relato completo – o qual pode ser lido aqui (em inglês) – também traz outros pontos interessantes, como o de os soviéticos sempre terem um discurso pronto para explicar o contraste: “Berlim Ocidental é parte do império do dólar! Para efeitos de propaganda, os capitalistas americanos estão injetando dinheiro em Berlim Ocidental; uma vez que essa transfusão de sangue acabar, a economia da Alemanha Ocidental vai colapsar.”

A desculpa de a discrepância entre as duas Alemanhas se dar exclusivamente pela injeção de dinheiro americano no país há anos serve de muleta argumentativa e é usada até hoje.

Ao argumentar que o Plano Marshall foi o único responsável pela impressionante recuperação da Alemanha Ocidental, as esquerdas mundiais novamente terceirizam a culpa de seus fracassos.

O que realmente recuperou a economia alemã no pós-guerra?

É inegável que o Plano Marshall injetou enormes quantias de dinheiro na Europa pós-guerra. O valor, se atualizado para hoje, daria um total de cerca de 100 bilhões de dólares. Mas há alguns poréns.

De 1948 a 1951 o montante total do dinheiro enviado para os países europeus representava menos de 3% da receita nacional desses países. Em termos de PIB, o montante significaria um aumento de apenas 0,3% no PIB do grupo de países.

A correlação entre o montante recebido e a velocidade de recuperação dos países também não é visível.

Enquanto a França e o Reino Unido receberam mais ajuda que a Alemanha Ocidental, os dois primeiros cresceram significativamente menos que o último.

O historiador Thomas Woods também oberva que Áustria e Grécia receberam mais ajuda per capita, mas sua recuperação econômica só iniciou mesmo com o desligamento do plano Marshall.

Contraste de Berlim ao final da guerra em 1945 e nos dias de hoje.

O Dr. Bellikoth também observou: “Apesar da ajuda estrangeira ter desempenhado um importante papel na aceleração da reconstrução inicial, na fase final, ainda assim, a ajuda entre abril de 1948 até o fim de 1954 foi da ordem de 6,7% de todo o investimento bruto da Alemanha Ocidental no período.”

Bem menos midiática que o Plano Marshall, a Alemanha Ocidental teve uma dose de políticas de livre mercado implementadas por Ludwig Erhard, que realmente mudaram o curso da economia do país.

Assim que chegou ao cargo de Diretor da Administração Econômica, Erhard aboliu as políticas de fixação de preços e de controle da produção que foram instauradas pela administração militar até então.

Paralelamente, iniciou uma reforma monetária radical, a qual reduziu a oferta monetária em 90% com a emissão de um novo marco alemão.

Como bem oberva Alan Greenspan no livro The Age of Turbulence, as políticas econômicas de Ernhard foram muito melhores para a recuperação europeia no pós-guerra do que o Plano Marshall.

Ao abolir todos os controles e planejamentos centralizados da economia alemã, implementando medidas pró-mercado e estabelecendo um limite de emissão de moedas, Ernhard desatolou toda a economia alemã como um passe de mágica.

Entre junho e dezembro de 1948, o aumento de produção nas áreas contempladas pelas reformas foi de 53%. Ao final de 1949, a produção já era 143% maior que de 1948. O livre mercado fez seu papel.

Além de Greenspan, o professor D.W. Mackenzie faz a mesma observação confrontando o Plano Marshall ao programa de Ernhard, e afirma:

O Plano Marshall consistiu em apenas uma pequena porcentagem do PIB alemão. Além disso, o dinheiro que a Alemanha Ocidental pagou em reparações, ultrapassa a ajuda do Plano Marshall. A Alemanha Ocidental recebeu defesa militar dos EUA e Inglaterra, mas teve que pagar taxa substanciais por esse serviço. O milagre econômico alemão começou com um radical programa de privatização e desregulação, que teve início em 1948.

Para saber mais sobre a recuperação alemã no pós-guerra, leia aqui.

30 anos após a reunificação

Trinta anos após a reunificação, hoje a Alemanha goza de ser a principal economia da Europa e quarta economia mundial. Com índices de qualidade de vida altíssimos, é inegável que o país é um dos casos mais bem sucedidos de recuperação de toda a história moderna.

Trinta anos depois, porém, os rastros da implementação do socialismo em uma parte do país, ainda não foram apagados.

Para evidenciar isso, elaboramos 9 mapas usando o sistema de mapa regional interativo, do Escritório Federal de Estatísticas da Alemanha. Todos os dados podem ser conferidos aqui (apenas em alemão).

Com a reunificação da Alemanha, as empresas e fábricas do lado oriental passaram a concorrer com as do lado ocidental. A eficiência e produtividade não eram compatíveis. Muitas fecharam e a região sente os reflexos até hoje.

O acúmulo de capital ao longo dos anos também permitiu que as empresas do lado ocidental investissem em tecnologia, elevando sua produtividade e demandando maior especialização de seus funcionários, o que, consequentemente, leva a maiores salários.

A taxa de desemprego na Alemanha fechou 2018 em 3,3%. No entanto, é possível perceber que na região da antiga Alemanha Oriental o desemprego é muito maior. Muitos condados no leste possuem taxas de desemprego acima de 10% hoje em dia.

Em análise feita pelo Washington Post, a alta taxa de desemprego na região se explica muito pela migração dos jovens do leste para o oeste. Esses que saem das áreas rurais para buscar oportunidades de crescimento em empregos urbanos.

A falta de atratividade para manter os jovens na região leste, se traduz também em dados demográficos. É notório o envelhecimento mais acentuado na região, onde se encontra a maior média de idade da Alemanha.

Outro problema social do lado oriental é o abandono escolar sem diploma de ensino médio. Muitos dos jovens iniciam cedo a vida no trabalho rural, muitas vezes para ajudar suas famílias, e acabam não concluindo o estudo do grau secundário.

A demanda por empregos de pouco grau técnico também influencia no sentido de exigir pouca ou nenhuma escolarização dos jovens, o que acaba se tornando mais uma motivação para o abandono escolar.

O “ruralismo” bem como as políticas da antiga união soviética no que tangia a lavouras, também pode ser facilmente percebida até hoje.

Como as lavouras do lado oriental não eram possuídas por indivíduos, mas sim por grupos de fazendeiros, os tamanhos eram muito maiores do que do lado ocidental. Trinta anos depois, muito pouco mudou em relação à isso.

O espaço médio em que vive cada habitante também fica em contraste nos dois lados.

Com menor poder aquisitivo, e também por serem herdeiros dos tradicionais blocos de prédios soviéticos, os habitantes do lado oriental até hoje convivem com lares de menor espaço.

Em resumo, evidências do fracasso da Alemanha Oriental perante o lado ocidental não faltam. Em quatro décadas de experimento de um país dividido entre capitalismo e socialismo, a história nos mostrou mais uma vez os rumos a que cada sistema político leva.

Mesmo trinta anos depois da reunificação, os resquícios do socialismo ainda se mostram presentes na quarta economia mundial. E mesmo com todas as evidências, esse sistema se recusa a sair da cabeça dos alemães.

É o que relata o escritor político Jochen Bittner em uma coluna escrita para o jornal The New York Times, onde o mesmo escreve sobre o crescimento de simpatizantes do socialismo em 2019:

Socialismo, a ideia de que as necessidades dos trabalhadores são melhor satisfeitas por meio da coletivização dos meios de produção. […] Um sistema no qual fábricas, bancos e até casas necessitam de um planejamento econômico nacional, como substituto da competição capitalista. O planejamento central, entretanto, se provou incapaz de satisfazer as demandas individuais das pessoas. […] Em algum momento, o sistema inteiro colapsa; como em todo outro lugar, o socialismo na Alemanha falhou. O que causa estranheza é, em 2019, ver o socialismo voltando na política convencional alemã.

E Jochen Bittner não descreve sua preocupação à toa. Esse é o mapa de votos nacionais no partido Die Linke, literalmente traduzido como “A Esquerda”:

É realmente de causar estranheza que justo na região em que o socialismo foi implementado, e se provou um fracasso, a esquerda esteja ganhando força novamente.

Infelizmente para eles, trinta anos de unificação ainda contrastando a diferença na qualidade de vida entre as duas regiões, parecem não ser evidências suficientes.


Esse artigo foi originalmente publicado como 30 anos depois: Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental no blog do Economista Visual.

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