facebook_pixel

Uma das reclamações comuns em relação a permitir que as pessoas vivam suas vidas livres de interferências políticas é que muitas delas não são capazes o suficiente para administrar suas próprias vidas. Tais críticas são geralmente respostas ao argumento feito por muitos do outro lado, o de que a razão pela qual às pessoas deve ser permitida a liberdade é precisamente que nós somos capazes o suficiente para administrar nossas próprias vidas perfeitamente bem.

Vamos começar com um ponto que talvez seja óbvio: se humanos não são capazes o suficiente para administrar suas próprias vidas, por que devemos acreditar que existem humanos capazes o suficiente para administrar a vida dos outros? O que garantiria, por exemplo, que nós elegeremos ou nomearemos o pequeno número de pessoas que são de fato aquelas capazes o suficiente para administrarem suas próprias vidas para ocupar os escritórios políticos que dirigem a vida dos outros?

E o que garantiria que eles seriam capazes o suficiente para saber o que é melhor não apenas para eles mesmos, mas também para os outros? O argumento de que “as pessoas não são capazes o suficiente” pode ser voltado contra seus defensores com algo desse tipo.

Mas existem também problemas com o argumento “as pessoas são capazes o suficiente”. É uma questão empírica de quão capazes as pessoas normalmente são, e se elas são realmente boas em tomar decisões. Evidências experimentais da psicologia e da economia comportamental sugerem que a maioria das pessoas estão muito longe da racionalidade perfeita do homo economicus .

Mesmo que seja verdade que somos capazes o suficiente para administrar nossas próprias vidas, isso não sugere que talvez sejamos capazes o suficiente para administrar a vida dos outros? Historicamente, o argumento para o socialismo e para outras intervenções governamentais menos extensas foram frequentemente fundamentadas em fortes alegações sobre a racionalidade humana. Se fomos capazes de tomar controle da natureza 1 , certamente poderíamos fazer o mesmo com a sociedade.

A arrogância fatal

Tais argumentos foram muitas vezes emoldurados em termos de querer o melhor para a sociedade, e de sinceramente acreditar que podemos melhorar as condições das pessoas mais carentes ao colocar mais poder de decisão nas mãos do Estado ou da população como um todo.

Entretanto, essa falsa confiança no poder da razão, o que Hayek chamou de “a arrogância fatal”, poderia se degenerar (e, de fato, facilmente se degenerou) em poder pelo poder quando tentativas de planejamento social racional fracassassem, ou se transformar em tentativas desumanas de controle social associadas com a eugenia da era progressista .

Superestimar a racionalidade humana é a receita para alguns humanos exercitarem controle sobre outros humanos, controle que nenhum humano está apto a deter.

Logo, se os humanos não são tão bons em tomar decisões, incluindo aqueles com poderes políticos, qual é exatamente a defesa da liberdade, já que não se pode dizer que as pessoas são capazes de administrar suas próprias vidas?

Talvez devêssemos distinguir duas alegações diferentes:

  1. “Eu sou muito capaz, e por isso consigo administrar minha vida perfeitamente bem.”
  2. “Eu não sei muito, mas ninguém melhor do que eu sabe como administrar minha própria vida.”

O primeiro é uma declaração absoluta sobre a racionalidade humana. A segunda é uma alegação muito mais modesta de que, em relação aos outros, eu sou mais capaz de tomar as melhores decisões para mim.

Mas a segunda frase ainda ignora os fatores chaves que justificam permitir que até mesmo pessoas irracionais e cognitivamente inclinadas conduzam suas próprias vidas livremente. Se os humanos possuem as corretas instituições econômicas, políticas e sociais, eles são capazes de observar o comportamento uns dos outros e determinar quais tipos de comportamento “funcionam” e quais não, e podem imitar as escolhas dos outros que são bem-sucedidos.

Processos sociais são processos de aprendizado, e todos nos tornamos melhores em viver nossas vidas imitando as inovações de sucesso dos outros. Processos evolutivos biológicos e sociais ambos requerem algum processo em que ocorra a inovação, alguma maneira de determinar se essas inovações são benéficas, e então algum processo para imitar ou duplicar essa inovação em outros. Esses processos de inovação e imitação são a fonte do progresso tanto no mundo natural como no social.

A evolução biológica, claro, possui todas as três. A inovação acontece através da mutação genética. Mutações que capacitam um gene, um animal ou um grupo de animais a sobreviverem são passados adiante para a próxima geração. A sobrevivência é a mensuração de sucesso, e passar a mutação adiante através da reprodução é o ato de imitação.

O mercado como um processo de aprendizado

Vemos os mesmos processos em funcionamento no mercado. Empreendedores surgem com uma nova ideia, e essa é a peça da inovação. Os sinais de lucro ou prejuízo do mercado são indicadores de sucesso ou fracasso na criação de valor para os outros. Outros produtores respondem ao sinal de lucro entrando naquele setor e produzindo um bem similar, e esse é o processo da imitação e aprendizado econômicos.

Em ambos os processos, o progresso é definido em termos do aprendizado, e tal aprendizado ocorre da capacidade de identificar as inovações de sucesso dos outros e de haver uma maneira de imitá-las. O que constitui o progresso é ser mais capaz de sobreviver (na evolução biológica) ou criar valor (no mercado). Por isso a beleza da afirmação de Matt Ridley de que o progresso social vem de “as ideias fazendo sexo” . Um processo similar ocorre na cultura, onde as inovações podem ser reconhecidas e imitadas, que é o conceito original de um “meme”.

Individualmente, podemos não saber tanto. Mas juntos, com as instituições corretas, podemos aprender uns com os outros e, coletivamente, saber muito.

A justificativa para a liberdade humana não é que somos tão espertos que podemos administrar muito bem nossas próprias vidas, mas que não somos tão espertos individualmente e a única maneira de ficarmos mais espertos é aprendendo um com o outro.

Tal aprendizado requer a liberdade para inovar e a liberdade para imitar, e precisa envolver algum tipo de processo confiável para indicar o sucesso. Nenhum de nós sabe o suficiente para administrar sua vida sem falhas, nem o suficiente para fazer isso para os outros. É por isso que precisamos de liberdade, e especialmente a liberdade econômica: para experimentar, ter sucesso ou falhar, e imitar para melhorar. Similarmente, o que John Stuart Mill chamou de “experimentos da vida” são tão importantes para o progresso social e cultural como o empreendedorismo é para o progresso econômico.

A defesa da liberdade feita por liberais clássicos como Hayek não é fundamentada em indivíduos altamente racionais capazes de fazer decisões ótimas. Pelo contrário, é uma humilde crença que pressupõe que haja limites reais à nossa racionalidade.

E é essa humildade que é o fundamento para a defesa da liberdade: a única maneira de progredirmos é deixar as pessoas livres para inovar e imitar, desenvolvendo instituições que forneçam a informação e os incentivos necessários para alcançar o sucesso e motivar a imitação.

Isso é exatamente o que o livre-mercado e a liberdade social de uma sociedade aberta e liberal fornecem. Não somos capazes o suficiente para arquitetar essa sociedade, mas podemos facilmente sofrer de suficiente arrogância para destruir a ordem emergente de instituições que fazem a liberdade funcionar apesar dos erros cognitivos e da racionalidade limitada que caracterizam os mais avançados ocupantes do planeta Terra. A defesa da liberdade é o que aprendemos uns com os outros, não o que sabe cada um de nós.


Esse artigo foi originalmente publicado como The Humble Case for Freedom para o Foundation for Economic Education .


Notas:

  1. O autor se refere ao domínio da agricultura e da pecuária. (N. do E.)

Sobre o Autor

Professor de Economia na St. Lawrence University e autor de Microfoundations and Macroeconomics: An Austrian Perspective.

Responder

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Close