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eleições americanas

Tenho cometido um erro a maior parte da minha vida. Veja bem, é que sou economista, e uma das coisas que me atraiu para a Economia foi a noção de “economia ideal”.

Lógico, há objeções válidas para o uso do mercado. Há pessoas que enganam ou cometem fraudes, e há problemas com informação e poder de mercado e externalidades. Consumidores às vezes cometem erros. De fato, alguns desses erros, como meu amigo e colega na Duke University Dan Ariely tem satisfação em me apontar, levantam questões sobre a própria natureza do nosso “modelo” de consumo.

comércio

Em seu livro Predictably Irrational1, Dan tem dois argumentos centrais. Primeiro, consumidores não são racionais, pelo menos não no sentido presumido por economistas. Os consumidores têm dificuldade em escolher entre diversas alternativas; os preços dos novos produtos são arbitrários; e as pessoas são seduzidas por coisas “grátis”. Segundo, vendedores e publicitários sabem que os consumidores são previsivelmente irracionais, e se aproveitam dessa fraqueza com publicidade, embalagem, e comparações cuidadosamente escolhidas.

Então qual é o erro que eu tenho cometido pela maior parte da minha vida? Tenho tentado defender a perfeição do mercado. Fui abduzido pela noção de que o mercado é “ideal”: “O mercado não é tão ruim!” “Os consumidores estão geralmente em melhor situação!” e por aí vai. Amigos, se vocês vêm defendendo a perfeição do mercado, vocês estão se fazendo de bobos. Pare.

O fato elementar é que as pessoas podem ser enganadas. Pessoas. Seres humanos. Os resultados de economistas comportamentais como Dan Ariely, Richard Thaler e outros são corretos, e convincentes. Mas quando alguém usa esses resultados para criticar o mercado — e para por aí — eles não estão sendo justos. Porque a crítica contra o mercado tem de ser em relação a algum outro sistema: o mercado é ruim, em relação a que?

[N. do E.: Esse artigo foi escrito no contexto de um debate hipotético sobre quem deveria tomar as decisões econômicas dos indivíduos. Porque há sempre duas possibilidades: o indivíduo pode ele mesmo decidir o que comprar, onde investir, quanto trabalhar, etc. Ou essa decisão pode ser delegada para o governo, eleito democraticamente.

Nesse caso o governo poderia proibir a venda de alguns itens (como alimentos que fazem mal), algumas modalidades de investimentos, ou impor restrições nas relações de trabalho (como limite de horas). Cada uma dessas restrições corresponderia àquilo que as pessoas rejeitariam livre e individualmente.

Em teoria, ambas as alternativas dariam na mesma. Em uma, os indivíduos estão tomando essas decisões diretamente, na outra indiretamente; mas seria sempre esses indivíduos, em última instância, que deteriam o controle dessas decisões.

O autor então explica que a realidade não é bem assim.]

Então se você se confrontar com alguém que anda lendo economia comportamental, sugiro que você acate suas alegações. As pessoas não são tão boas tomadoras de decisões. Mas depois desafie seu amigo com isso: toda falha no consumidor é pior no eleitor.

Pense a respeito. Toda falha que as pessoas apontam nas escolhas dos consumidores existem, mas muito pior, em decisões políticas!

  • Informação assimétrica (onde produtores têm mais conhecimento do produto do que os consumidores) sobre a qualidade? Check. Os consumidores podem ver as avaliações de outros consumidores para saber a qualidade de algum produto. Mas é muito difícil de saber quando um político está mentindo (a não ser que você aceite a velha lição que diz que é quando seus lábios estão mexendo).
  • Monopólio? Check. Sim, a empresa de TV a cabo é bem ruim. Mas o Estado é a própria definição de monopólio. Sua única escapatória é mudar-se… para outro monopólio. Nunca há competição, e os burocratas no Departamento de Veículos Automotores sabem disso. É por isso que tratam você tão mal.
  • Publicidade sedutora e enganosa? Check. Talvez eu realmente compre aqueles novos calçados da Nike porque eles prometem me fazer parece como o Mike, e talvez aquele Twix na fila do caixa é tentador demais para resistir. Mas pelo menos eu gosto de Twix! Políticos colocam-se em anúncios por toda parte que nem photobombers do inferno, e alguma vez acontece de recebermos o que fomos prometidos?
  • Finalmente, seduzido por coisas grátis? Check. Ariely aponta, corretamente, que as pessoas frequentemente (irracionalmente) escolhem a alternativa grátis, e não conseguem entender os custos daquela alternativa, como esperar na fila ou preencher papelada. Francamente, isso soa como uma descrição muito boa dos programas governamentais que vão desde o nosso novo sistema de saúde (“É tudo grátis!”) até programas de reciclagem, que economizam tudo, menos tempo que é o único recurso verdadeiramente não-renovável. Já vi gente gastar 10 minutos e 50 centavos de gasolina para reciclar duas garrafas de bebida e uma caixa da papelão, tudo no valor de cinco centavos. Mas já que reciclar nos dá recursos de graça, deve valer a pena!

Alguns livros recentes (Myth of the Rational Voter2 de Caplan, Democracy and Political Ignorance3 de Somin) já apresentaram esse argumento, mas por alguma razão defensores da liberdade não se saem muito bem em debates. O fato é: As pessoas não são boas em adquirir informação e usá-la para tomar decisões da maneira que o modelo de escolhas racionais prevê. E a conclusão é: Isso tem implicações acerca da capacidade de consumidores beneficiarem-se do mercado, pois consumidores são pessoas. Só que a conclusão também tem que ser que eleitores têm o mesmo problema, a não ser que você pense que elas são imbecis no supermercado mas milagrosamente espertas na urna. É a mesma pessoa.

Por que os eleitores são ainda mais burros do que os consumidores? Considere: Um consumidor que compra uma televisão ruim, ou paga caro demais por uma máquina de café, ou se dá mal em um investimento, ele vai ficar com a televisão, e perde seu próprio dinheiro na máquina de café ou na má compra da ação. Acontece, mas você aprende com seu erro (isso se chama “feedback de mercado”) e toma decisões melhores da próxima vez.

Eleitores, por outro lado, têm ainda menos informações, não têm como buscar informações precisas, e sabem que sua escolha não determinará o resultado de qualquer forma. Se eu passar meses estudando os candidatos, e então depositar meu voto para presidente, ele terá impacto absolutamente igual a zero no resultado. Não é um impacto pequeno; é zero.

Cédula de votação
Elaboração: Academia Liberalismo Econômico.

Eu ainda vou votar, claro. Sou um bom cidadão. Mas voto no candidato que faz eu me sentir bem. Como Jason Brennan apontou em Ethics of Voting4, isso quebra a conexão entre comprometimento cívico (votar) e resultados desejados (bom governo). Eleitores ignorantes e irracionais não prejudicam apenas a si mesmos. Eles prejudicam a todos.

As pessoas escolhem mal. Mas elas são ainda piores como eleitores do que como consumidores. Então, a não ser que você pense em suspender a democracia, esse é um argumento muito poderoso a favor do mercado.


1. Previsivelmente Irracional, em tradução livre. (N. do E.)

2. O Mito do Eleitor Racional, em tradução livre. (N. do E.)

3. Democracia e Ignorância Política, em tradução livre. (N. do E.)

4. A Ética de Votar, em tradução livre. (N. do E.)


Esse artigo foi originalmente publicado como Every Flaw in Consumers Is Worse in Voters para o Learn Liberty.

Sobre o Autor

Diretor do departamento de filosofia, política e economia da Duke University. É ex-presidente da Public Choice Society.

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