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A Amazon está processando milhares de pessoas que receberam para postar “falsas” avaliações positivas de diversos produtos. Essas avaliações falsas violam o espírito – e, possivelmente, a funcionalidade – do autogovernado sistema de avaliação da empresa. Os clientes confiam nessas avaliações para guiar suas próprias escolhas, e uma onda de avaliações patrocinadas pode levá-los a escolher produtos inferiores.

Um tema similar é tratado no novo livro de auto-ajuda-com-economia comportamental de George Akerlof e Robert Shiller , Phishing for Phools 1 . Os autores, ambos ganhadores do prêmio Nobel, afirmam que um mercado desregulado leva a grande volume de manipulação e fraude . A dimensão exata permanece não especificada, mas a força do argumento é que heróis reguladores são necessários para combater os comerciantes malignos.

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Heróis reguladores?

Então não causa surpresa que os autores favoreçam esforços heroicos de um tipo progressista retrógrado, tal como o proposto por Alice Lakey ou por sua contemporânea, Elizabeth Warren . Suas obras levaram, respectivamente, à criação do Food and Drug Administration 2 e do Consumer Financial Protection Bureau 3 . Esses progressistas são vistos como heróis por “não agir de forma egoísta, mas em prol do bem público”. O problema com tais heróis, todavia, é que eles invariavelmente focam não na educação dos consumidores de forma que eles possam tomar decisões melhores, mas na concessão de poderes de regulação cada vez maiores a burocratas e políticos.

Embora seja verdade que a regulamentação do consumidor possa oferecer dicas importantes que ajudam compradores e vendedores a interagirem – inclusive, a Amazon usou essa linha de argumentação na ação –, essa verdade deixa passar um aspecto fundamental (e incômodo para Akerlof e Shiller) que é a Amazon que está trabalhando para resolver o problema, não reguladores governamentais.

Não se engane. O clássico artigo de Akerlof sobre a qualidade de bens em um mundo de informação imperfeita claramente destaca um problema que os mercados devem resolver, mas esse é um problema tanto dos consumidores quanto das plataformas de mercado das quais eles participam. Tais plataformas têm um incentivo natural a zelar pela informação de que os consumidores precisam para tomar decisões conscientes. Os incentivos com os quais se deparam os reguladores são menos alinhados com os interesses dos consumidores. (Curioso notar que os defensores da regulação raramente se perguntam quais incentivos movem os reguladores governamentais.)

Existe outro aspecto do modelo de Akerlof que é revelador nesse sentido: no equilíbrio, o chamado “ mercado de limões ” deveria entrar em colapso quando mais e mais consumidores frustram-se com níveis cada vez mais baixos de qualidade. Assim, a plataforma de mercado deveria desmoronar. O problema com esse resultado teórico é que ele novamente falha por desconsiderar a observação empírica de que são os mercados que estão resolvendo os problemas do mercado.

Michael Spence , que dividiu com Akerlof o prêmio Nobel de Economia de 2001, não teria problema com essa observação. Spence notou que é muito mais interessante comparar os resultados do mercado ao que é possível em um mundo de informação incompleta, e não ao que é encontrado quando se assume que não há imperfeição. Spence explica em seu discurso no Nobel que quando nos deparamos com um mundo de informação imperfeita, a assimetria entre comprador e vendedor “não pode ser simplesmente removida por uma caneta”.

Comparado com quê?

Mesmo quando reconhecemos que os indivíduos podem ser limitados em suas capacidades analíticas e decisórias, devemos nos perguntar “comparado com quê?”. Como notado em outros textos, toda falha no consumidor é ainda pior no eleitor . Além disso, a reivindicação imediata por mais regulamentação governamental ignora o problema do conhecimento: o ato de adquirir informação é limitado pela habilidade de pessoas normais (afinal, nem todos podem ser heróis). Saber quais transações evitar é uma informação valiosa, mas dito conhecimento deve primeiro ser descoberto, para depois ser compartilhado. Se essa informação não é prontamente alcançável, então não está claro como os reguladores saberão em quais processos de mercado focar, muitos menos como melhorá-los.

Se a informação está disponível, existe uma oportunidade de ação empresarial em recolhê-la e vendê-la para os consumidores. Em outras palavras, as falhas de mercados que fazem com que os indivíduos tomem más decisões são, elas próprias, oportunidades de lucro para empreendedores que desejam ajudar as pessoas a tomarem melhores decisões.

Em um mundo de incerteza, assegurar a qualidade pode ser uma vantagem competitiva poderosa. A Amazon quer que você, consumidor, use o sistema de pesquisa e recomendações dela para comprar novos produtos, produtos que você não pode tocar ou inspecionar fisicamente. O sistema de avaliação é um método que busca superar essa assimetria de informação. Quando a integridade do sistema de avaliação é questionada, a Amazon depara-se com a perspectiva de um volume menor de transações e, consequentemente, lucros menores.

Heróis privados

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É por isso que a Amazon está agindo para restringir os usuários desonestos da rede. Varejistas podem somente justificar preços altos ao garantirem qualidade. O sistema de feedback da Amazon constitui um subsídio informacional significativo para seus usuários, e ela está disposta a criar essa informação (ou que seja criada por seus usuários) porque leva a um volume maior de comércio e, de quebra, a benefícios que a Amazon traz aos leitores de livros ao redor do mundo .

O que Akerlof e Shiller não levam em conta é que a criação e a manutenção de uma plataforma viável de comércio é enormemente caro. Ter consumidores saindo pela porta para nunca voltar – ou talvez, escrevendo avaliações negativas – causa instabilidades no mercado que podem ser fatais caso não sejam tratadas rapidamente.

Em vez de focar nas falhas dos consumidores, o pecado original de nossa humanidade, deveríamos, pelo contrário, notar como os empreendedores da informação estão nos permitindo tomar decisões melhores. A revolução da informação liderada por esses inovadores mudou o mundo, reduzindo os custos de distribuição a níveis inéditos. Esses podem não ser os heróis do bem-estar do mundo de fantasias de Akerlof e Shiller, mas os solucionadores privados de problemas do mundo em que habitamos de verdade.

Os reguladores solidários podem ser os heróis que queremos, mas não são os heróis que precisamos.


Esse artigo foi originalmente publicado como Regulators Are Not Heroes para o Foundation for Economic Education .


Adam C. Smith é professor assistente de economia e diretor do Center for Free Market Studies na Johnson & Wales University. Ele é também pesquisador convidado do Regulatory Studies Center da George Mason University e coautor do livro ainda não lançado Bootleggers and Baptists: How Economic Forces and Moral Persuasion Interact to Shape Regulatory Politics.

Stewart Dompe é instrutor de economia na Johnson & Wales University. Ele publicou artigos no Econ Journal Watch e contribuiu para o Homer Economicus: Using The Simpsons to Teach Economics .


Notas:

  1. O título desse livro é um trocadilho. A palavra phishing corresponde a um tipo de fraude online. A palavra fishing significa pescando. A palavra fool significa bobo, aqui usada no contexto de alguém sendo enganado (trouxa, otário). A palavra phool não existe e foi usada para completar o trocadilho. Uma possível tradução seria, portanto, “Enganando/pescando trouxas”. (N. do T.)
  2. Agência americana reguladora dos mercados de alimentos e remédios. (N. do E.)
  3. Agência reguladora americana que supostamente protege consumidores no setor financeiro. (N. do E.)

2 Comments

  1. Segundo o texto os órgãos reguladores “não focam na educação dos consumidores de forma que eles possam tomar decisões melhores”. Eu pergunto: E a maioria do grande empresário aqui no Brasil, foca em proteger alguém? Só lembra disso quando ocorre um recall ou algo que abale a imagem do grupo. Quantos manuais de produtos consagrados são feitos com letras cada vez menores em papéis cada vez menores com informações cada vez mais confusas para o consumidor? A dona Severina, lá de Caruaru que mal (ou não) sabe ler , que chance tem contra alguém que coloca aditivos nocivos no pão para aumentá-lo de tamanho se não houver órgão regulador para protegê-la? Criticar a FDA ou ANVISA me desculpem é uma aberração. Acho que o Liberalismo tem um lado bom sim, o de estimular a inovação e competição contra os cartéis. Quanto à desregulamentação, acho um perigo. Os consumidores seriam mais enganados ainda, como o prêmio Nobel citou. Aliás…não ganhou o prêmio à toa…concordo em tudo com ele. Se político não é santo, tampouco o grande empresário que negocia no Brasil. Não necessitamos de sistemas econômicos milagrosos, precisamos de educação massiva de qualidade, até para a dona Severina saber como buscar informação e entender o que está consumindo e se paga valor justo por aquilo. Com revolução educacional o Brasil salta num instante , assim como Coréia e Espanha fizeram, muito embora haja muita gente contra pois se aproveita do pouco estudo do brasileiro para pagar baixos salários.

  2. A resposta aos seus comentários está no próprio texto Tavares. As empresas tem muito mais interesses (econômicos) em prover os consumidores com serviços e produtos de qualidade, bem como informação. Mas pergunto, e os agentes reguladores? Quais são seus incentivos? Quem controlará eventuais desvios provenientes do monopólio de reuglamentar e estabelece privilégios? ou você se esqueceu, por exemplo, da captura relgulatória da ANATEL e da limitação da franquia de dados recente?: “Se a informação está disponível, existe uma oportunidade de ação empresarial em recolhê-la e vendê-la para os consumidores. Em outras palavras, as falhas de mercados que fazem com que os indivíduos tomem más decisões são, elas próprias, oportunidades de lucro para empreendedores que desejam ajudar as pessoas a tomarem melhores decisões.

    Em um mundo de incerteza, assegurar a qualidade pode ser uma vantagem competitiva poderosa. A Amazon quer que você, consumidor, use o sistema de pesquisa e recomendações dela para comprar novos produtos, produtos que você não pode tocar ou inspecionar fisicamente. O sistema de avaliação é um método que busca superar essa assimetria de informação. Quando a integridade do sistema de avaliação é questionada, a Amazon depara-se com a perspectiva de um volume menor de transações e, consequentemente, lucros menores.
    Heróis privados

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    É por isso que a Amazon está agindo para restringir os usuários desonestos da rede. Varejistas podem somente justificar preços altos ao garantirem qualidade. O sistema de feedback da Amazon constitui um subsídio informacional significativo para seus usuários, e ela está disposta a criar essa informação (ou que seja criada por seus usuários) porque leva a um volume maior de comércio e, de quebra, a benefícios que a Amazon traz aos leitores de livros ao redor do mundo.”

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