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Você já se perguntou o que leva os países a praticarem comércio exterior? Em teoria, cada país poderia produzir tudo aquilo que consome e não comprar nada de fora; mas esse não é o caminho geralmente escolhido. Vamos entender porquê.

Adam Smith demonstrou em 1776 que por conta de cada país ser mais eficiente do que outros na produção de determinados itens, haveria uma tendência – mutuamente benéfica – de cada um concentrar sua mão-de-obra na produção daquilo que faz com mais eficiência, vender o excedente para outros países, e importar todos os demais bens que necessite. Smith estava tentando responder pensadores mercantilistas de seu tempo, que acreditavam que os países deveriam reduzir suas importações ao máximo – pensamento ainda dominante em muitos governos.

david ricardo
David Ricardo

Mas ele não conseguiu explicar os casos em que um país importa produtos que ele mesmo consegue produzir com mais eficiência do que o país do qual está importando. Esse fenômeno só foi explicado por David Ricardo em 1817 com o que ficou conhecido como teoria das vantagens comparativas . Esse é um dos aprendizados mais surpreendentes de toda a história da Economia, então vamos entendê-lo através do famoso exemplo que o próprio Ricardo usou para explicá-lo.

Suponhamos uma economia onde haja apenas dois países: Inglaterra e Portugal. Há, também, apenas dois bens produzidos: tecido e vinho. O número de horas necessárias para se produzir uma unidade de cada um desses dois bens em cada um desses dois países está na tabela abaixo. Os dois países produzem bens de idêntica qualidade.

Tecido Vinho
Inglaterra 100 120
Portugal 90 80

Para produzir uma unidade de cada bem, os ingleses precisam trabalhar 220 horas no total; e os portugueses, 170 horas. Portugal consegue produzir qualquer um dos bens com menos tempo de trabalho, e isso poderia nos levar a pensar que o país não teria interesse em comercializar com a Inglaterra, pois iria preferir simplesmente produzir ambos os bens nas quantidades que precisa.

Mas para cada unidade de tecido que Portugal produz, está deixando de produzir 9/8 unidades de vinho porque o trabalhador que dedicou tempo à produção de tecido deixou de dedicar esse tempo à produção de vinho – essa é a chave da questão. Cada país não escolhe o que vai produzir comparando seus custos de produção com os custos de produção dos outros países; mas compara os custos de produção entre os diferentes bens que ele pode produzir, isso sim em relação aos outros países. Portugal pode ser mais eficiente na produção de tecido do que a Inglaterra, mas é ainda mais eficiente na produção de vinho; então é melhor concentrar toda a sua mão-de-obra na produção de vinho e comprar o tecido que precisa dos ingleses. Vejamos o que acontece nesse caso.

Se Portugal alocar as mesmas 170 horas acima, dessa vez todas na produção de vinho, produz 2,125 unidades do produto; e com suas 220 horas alocadas na produção de tecido, a Inglaterra produz 2,2 unidades do produto. Depois disso, se cada unidade de tecido inglês for trocada por qualquer número entre 0,833 e 1,125 unidades de vinho português, ambos os países consumirão mais vinho e/ou tecido do que na situação em que não há comércio entre eles e ambos produzem as duas mercadorias; ou seja, ambas as partes saem ganhando.

Isso já é incentivo suficiente para que os dois países especializem suas produções naquele bem onde tem maior vantagem comparativa e depois pratique comércio internacional. Perceba que a importação é tão importante quanto a exportação, pois caso Portugal decidisse parar de importar tecido e começar a produzi-lo internamente, estaria deixando de produzir vinho que poderia ser trocado por ainda mais tecido do que conseguiu produzir! Como mais tarde brilhantemente sintetizou Ludwig von Mises , a maneira mais barata de um agricultor canadense adquirir um relógio é plantando trigo; e a maneira mais barata de um suíço adquirir trigo é fabricando relógios.

Durante o século XX, economistas continuaram desenvolvendo a teoria de Ricardo incorporando no modelo outros fatores de produção além do trabalho, e outras sofisticações que não cabem nesse post. Mas mantém-se até hoje a maior contribuição que Ricardo acrescentou à teoria de Smith: o entendimento de que as diferentes razões entre produto e fatores produtivos que existem entre diferentes países e bens são, por si só, suficientes para que todos os países se beneficiem do comércio internacional.

São muitas as razões porque um país necessita de mais ou menos horas de trabalho (ou quaisquer que sejam os fatores de produção) do que outro para produzir determinado bem, desde aspectos climáticos e geológicos até outros como grau de escolaridade da população, progresso tecnológico (tanto específico na produção desse bem, como em geral na economia) e burocracia governamental. Mas esses aspectos alteram a produtividade não somente entre diferentes países para o mesmo bem, mas entre diferentes bens dentro do mesmo país. Com isso está configurada a tabela do exemplo de Ricardo, mas entre todos os países e entre todos os bens; e assim surge, e se perpetua o comércio internacional.

Sobre o Autor

Presidente da Academia Liberalismo Econômico, é formado em economia pela FEA-USP com especialização em estatística pela FIA-USP. Dentro da economia, tem interesse especial por microeconomia e história econômica. Também gosta de estudar história geral e filosofia.

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