Imagine a vida em isolamento, acordando toda manhã antes do nascer do sol para produzir suas próprias roupas, construir e reparar seu abrigo precário, caçar e colher sua própria comida, criar remédios rudimentares para seus ferimentos, e zelar pela continuidade de sua existência selvagem com outras tarefas difíceis e tediosas. Esqueça o lazer e os luxos; todo o seu tempo seria gasto tentando produzir necessidades básicas para apenas subsistir.

Especialização e cooperação

Felizmente, este não é mais o modo em que a maioria da humanidade organiza suas atividades econômicas. Não procuramos produzir tudo o que necessitamos ou que queremos consumir, mas ao invés disso nos especializamos em algumas poucas, ou apenas uma atividade agregadora de valor: uma profissão. Esta especialização é possível porque aceitamos e adotamos o conceito de cooperação na forma de trocas. Percebemos que, através da especialização, podemos concentrar nossos esforços naquilo que fazemos melhor, e produzimos mais valor do que seria possível se tivéssemos que cuidar da produção de todas as nossas necessidades e vontades.

Porque podemos trocar nossa produção (monetizada nas formas de salários e rendimentos) pela produção dos outros, não precisamos conhecer nem o básico de martelar um prego, misturar cimento, produzir tecido, fios e roupas, tricotar, apontar uma flecha para matar um animal, ou quaisquer detalhes dos incrivelmente complexos processos e cadeias de produção que geram os produtos e serviços que consumimos diariamente. Felizmente (porém infelizmente, também), a maioria de nós nunca pensa muito a respeito.

Se duas pessoas concentrando seus esforços nas tarefas que fazem melhor e trocando seus excedentes diários permite a ambas consumir mais (ou produtos de melhor qualidade), logo se conclui que quatro ou oito ou oitenta ou oito milhões de pessoas participando nessa relação de cooperação econômica pode levar a volumes muito mais altos de produção (riqueza) e maiores consumos e investimentos (padrão de vida mais elevado).

Este é o propósito das trocas. Ela permite nos especializarmos. E quando há mais participantes no mercado (mais com quem trocar) há maior margem para níveis mais refinados de especialização. Isso significa maior oportunidade de encontrar as habilidades e capacidades específicas de cada indivíduo (ou então desenvolver e depois utilizar essas habilidades e capacidades específicas) com tarefas cada vez mais especializadas e profissões criadas em resposta às demandas cada vez mais refinadas da sociedade conforme ela produz ainda mais riqueza e elevado padrão de vida.

Nós percorremos um longo caminho trocando roupas e vinhos. As escolhas das pessoas não são mais restritas a ficar sóbrio e vestido ou bêbado e pelado. Hoje, podemos ter quase tudo. Enquanto que no passado havia curandeiros trabalhando como “médicos” generalistas, hoje (em Washington, me disseram) existe uma crescente demanda por serviços de psiquiatras que se especializam no tratamento das dificuldades de adaptação emocional e psicológica de um cônjuge expatriado de diplomata da Europa Ocidental. Está especializado assim. Imagine ouvir: “Lamento, minha especialidade é conversar com cônjuges de diplomatas sobre seus distúrbios causados pela transferência para Washington de lugares como Estocolmo, Amsterdã, Paris ou Londres. Uma vez que você é de Varsóvia, deixe-me recomendar um outro especialista que tem como foco o tratamento de poloneses expatriados em condições similares.”

O propósito das trocas é permitir que cada um de nós concentre nossos esforços produtivos no que fazemos melhor. Ao se especializar em uma ocupação – ao invés de alocar pequenas frações do nosso tempo na impossível missão de produzir cada uma das necessidades e luxos que desejamos consumir – e trocar o resultado monetizado do que produzimos mais eficientemente por bens e serviços que produzimos menos eficientemente, somos capazes de produzir e consumir mais produtos do que estaríamos no caso de ausência de especialização e comércio. Quanto maior o tamanho do mercado, maior será o espaço para a especialização, para as trocas e para o crescimento econômico.

Especialização no mercado internacional

O livre comércio é a extensão do livre mercado além das fronteiras. Expandir os mercados dessa maneira – integrando mais compradores, vendedores, investidores e trabalhadores – permite uma especialização mais refinada e economias de escala, que levam a mais riquezas e um maior padrão de vida. Quando bens, serviços, capital e trabalho fluem livremente pelas fronteiras, os americanos podem obter todo o proveito das oportunidades do mercado internacional.

O propósito do comércio é permitir que nos especializemos; o propósito da especialização é nos permitir produzir mais; o propósito de produzir mais é nos permitir consumir mais. Mais e melhor consumo é o propósito do comércio. Logo, os benefícios do comércio decorrem das importações, que produzem mais competição, maior variedade, preços mais baixos, melhor qualidade e inovação. Os reais benefícios do comércio são mensurados pelo valor das importações que podem ser adquiridas com uma unidade de exportação – o tão-chamado “ termos de troca ”. Quando negociamos no supermercado, buscamos otimizar valor obtendo o máximo em troca do nosso dinheiro.

O alto custo do protecionismo

Porém, quando consideramos o comércio internacional, ou quando nossas transações individuais são agregadas a nível nacional, parecemos esquecer estes princípios básicos e assumimos que o objetivo do comércio é obter um superávit. Esquecemos que barreiras internas ao comércio internacional aumentam os custos e reduzem a quantidade de importação que pode ser adquirida com uma unidade de exportação. As barreiras comerciais americanas prejudicam seus cidadãos, seus consumidores, seus contribuintes, seus trabalhadores, produtores e investidores. A população americana 1 estaria melhor se nós simplesmente fizéssemos nossas próprias reformas – em relação a tarifas, regulações e outros obstáculos artificiais ao comércio – sem considerar o que os outros governos fazem. Ainda assim, não o fazemos.

Apesar de as tarifas e outras barreiras comerciais terem sido consideravelmente reduzidas desde o final da segunda guerra, as políticas nacionais continuam acomodando intoleráveis quantidades de protecionismo. Temos regras de “conteúdo local” que restringem a maioria das compras do governo a fornecedores nacionais, garantindo que os contribuintes obtenham o menor retorno para o seu dinheiro; setores de serviços pesadamente protegidos, como transporte aéreo e logística, causem aumentos generalizados de custos; intermináveis subsídios agrícolas; cotas e altas tarifas de importação de açúcar; altas tarifas sobre produtos de consumo básico, como roupas e calçados; restrições à exportação de energia; distorções de mercado pelo favorecimento de bancos de exportação-importação; obrigações antidumping que estrangulam setores da cadeia e tributam consumidores; protecionismo regulatório disfarçado de precauções de segurança e saúde pública; regras protecionistas de requisitos de origem e conteúdo locais que limitam os benefícios do comércio; restrições sobre investimentos externos, e assim por diante.

É triste, mas verdadeiro, que o congresso parece ter esquecido por que nós fazemos comércio internacional.


Esse artigo foi originalmente publicado como Why We Trade para o Cato Institute .

Notas:

  1. Bem como a população de qualquer país, e pelos mesmos motivos explicados ao longo do artigo. (N. do E.)

Sobre o Autor

Dan Ikenson é diretor no Centro Herbert A. Stiefel para Estudos de Políticas Comerciais do Cato, onde coordena e conduz pesquisas sobre todas as formas de políticas de investimento e comércio internacional.

1 Comment

  1. […] que o sol “despeje”, todos os dias, luz de graça na economia americana, então você não deveria reclamar contra produtores estrangeiros “despejando” mercadorias baratas na nossa economia, a […]

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