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De luxuoso hotel, o historiador cultural Luc Sante relembra ternamente os bons e velhos tempos de alcoólatras moradores de rua ascendendo fogueiras de lixo na skid row1 de Manhattan.

“Por ali, ao lado do albergue,” Sante recordava ao The Guardian, “é onde Nan Goldin vivia e trabalhava. Quarenta anos atrás ainda havia muitos galpões vazios por aqui que tinham sido casas de espetáculos burlescas e vaudeville durante o tempo em que as entradas das lojas eram salões. Havia bares frequentados exclusivamente por vagabundos, debruçados sobre o balcão. À noite, eles fariam fila na porta dos albergues das missões e do Exército da Salvação — veteranos da Segunda Guerra Mundial, da Guerra da Coreia, da Guerra no Vietnã. À noite, fogueiras de lixo seriam acesas em barris de petróleo.”

Os franceses têm uma frase elegante para o que Sante está fazendo. Eles dizem que é nostalgie de la boue, ou “desejando a lama”, que significa a romântica atração por um comportamento ou condição primitiva ou degradante.

A frase, que foi criada por um dramaturgo francês em 1855, já existe há algum tempo e proveitosamente descreve a maneira muito real com que os habitantes mais ricos e saudáveis da modernidade enxergam o passado por um olhar místico e romântico.

Apesar de irritar historiadores quando amenizamos os desconfortos da história, geralmente não há tanto mal nisso. Não precisamos que cada romance medieval nos lembre que o bafo da heroína não cheirava a Listerine cool mint. É provavelmente melhor que os atores da reencenação histórica de Colonial Williamsburg não usem remédios autênticos coloniais para seus problemas de saúde, e os turistas são certamente gratos por encanamento e saneamento modernos. Até mesmo a definitivamente autêntica 1900 House da BBC tinha um telefone e moderna proteção contra incêndio.

Globo de Shakespeare. Fonte: Shakespeare's Globe.
Globo de Shakespeare. Fonte: Shakespeare’s Globe.

Qualquer amante da história se pegará de vez em quando sonhando que está no poço do Globo de Shakespeare assistindo a uma performance, ou vivendo na dureza dos abrigos e cabanas de algum vilarejo na corrida pelo ouro. Alguns de nós podem até mesmo ter passado recentemente uma ou duas horas entretidos brincando no site “Crie-uma-peruca” do Victoria and Albert Museum. Mas um bom estudante de história vai reconhecer que o Globo era inquestionavelmente barulhento, fedido, cheio, e às vezes até perigoso para os expectadores. E o charmosamente rude romance da corrida do ouro é contido pela compreensão de que você provavelmente teria muito mais chance de morrer de gangrena ou cólera do que acabar ficando até mesmo moderadamente rico. E aquelas gloriosas perucas do século XVIII? Pesadas, calorentas, fedidas, e atrai mosquitos.

Mas o verdadeiro caso de nostalgie de la boue vai além de ignorar os desprazeres do passado. Ao invés de ignorar a “lama” da história, nostalgie de la boue ativamente procura esse tipo de desprazer e insiste que, sem ele, a vida é menos autêntica, menos significante, e pior como um todo.

E é aqui que Luc Sante parece estar. Embora ele esteja certíssimo ao notar que a promiscuidade parisiense tem sido há muito tempo um desejável antídoto para o puritanismo sem graça das cidades americanas, Sante sai completamente de linha quando insiste que sua admiração pelos “materialmente pobres, mas […] imaginativamente livres e criativamente ricos” habitantes de Paris não é uma visão romântica.

De acordo com Sante, as pessoas lhe perguntam: “Como você pode elogiar a vida dos pobres do século XIX, quando muitos deles nem comiam todos os dias?”

Sante reconhece: “Bom, sim… é ruim. Mas é mesmo pior do que a situação de hoje onde todos se alimentam bem, mas você tem um incrível percentual de nova-iorquinos que vivem no sistema de pensão — inclusive pessoas que têm empregos permanentes?”

Colocando de lado os horrores do sistema de pensão, há muito o que ser dito sobre um mundo onde mais e mais pessoas se alimentam melhor a cada ano, e meu palpite é que um grande número dos parisienses livremente imaginativos com que Sante sonha teriam apreciado mais uma baguette. É possível valorizar criatividade histórica e independência intelectual sem também elogiar déficits alimentares históricos. (E vale notar, se o Sante por acaso estiver lendo isso, que a alimentação de todas aquelas pessoas não se deve inteiramente, e nem primariamente, ao “sistema de pensão”. É a economia de mercado, e tudo que vem com ela, que está fazendo o mundo se alimentar melhor a cada ano.)

Sante continua sua nostalgia pela lama quando continua: “Na Paris de minhas histórias, as pessoas tinham negócios para viver, não para ter lucro. Cafés, bares… eles não são mais instituições públicas ou parte de uma comunidade. Não há qualquer possibilidade para autodeterminação excêntrica entre os lojistas.”

A distinção que Sante estabelece entre “para viver” e “para ter lucro” não é particularmente clara para mim. Sugere, talvez, uma premissa não declarada de que exista algo como uma quantidade pré-acordada e “correta” de lucro para um negócio ou dono de negócio obter — além da qual, todo ganho torna-se lucro imundo. Ele talvez esteja partindo da igualmente indefensável premissa de que os donos de negócios no passado não estavam tão interessados em obter todo o sucesso que pudessem, e que foi somente nosso cinismo pós-moderno que libertou a sede pelo lucro.

Talvez o Sante esteja tentando dizer que, diferentemente dos negócios de hoje, os negócios de anos atrás “viviam” de ajudar a criar uma comunidade entre seus clientes, ao invés de simplesmente “ter lucro” vendendo coisas. Acredito que milhares de pequenos empresários de hoje e suas páginas no Facebook, lojas Etsy, e barracas de feira fariam questão de discordar de sua afirmação acerca de suas importâncias para suas comunidades.

Não há sempre necessariamente um problema com nostalgie de la boue. É como apareceram Peaky Blinders, o renovado interesse em reaproveitar jarras, restaurantes que servem medula óssea, e o grande ressurgimento da música folk embalado por O Brother Where Art Thou?, afinal de contas.

renda per capita
Evolução da renda mundial per capita, em dólares internacionais de 1990 e ajustada, portanto, ao poder de compra de cada época e região. Fonte: Maddison Project. Elaboração: Academia Liberalismo Econômico.

Sante, porém, tem tanta lama nos olhos que ele não consegue ver o progresso importante e tangível que foi alcançado na saúde e no bem-estar humano. Sua nostalgia empoeirada leva-o a alegar que o aumento de nossa riqueza — que nos trouxe mais saúde, mais renda discricionária, mais comida, e mais tempo livre — é um perigo mais nocivo do que o terrorismo. “O dinheiro, como vejo, talvez não mate as pessoas instantaneamente como faz o terrorismo, mas ele certamente muda o tecido da vida cotidiana de maneira muito mais profunda e traiçoeira.”

Essa é uma afirmação de ignorância tão ofensiva, que só poderia ter sido feita por um homem confortavelmente acima da antiga skid row, observando através de vidro, com serviço de quarto e empregada a apenas uma ligação de distância2. Me pergunto se os homens e mulheres nas fotos que Sante contempla teriam dito o mesmo!


Esse artigo foi originalmente publicado como The Good Old Days of Poverty and Filth para o Foundation for Economic Education.


Notas:

  1. Skid row refere-se a uma área tipicamente urbana habitada por mendigos e/ou drogados. É mais ou menos o que chamamos de cracolândia. (N. do T.)
  2. Esse é um trecho de difícil tradução. O que a autora quis dizer, juntando com o trecho do início do artigo, é que Sante estava em um quarto de hotel luxuoso, olhando pela janela para a região onde havia sido a skid row. (N. do T.)

Sobre o Autor

Sarah Skwire é a editora de poesia do The Freeman e membro senior do Liberty Fund, Inc. Ela é poeta e autora do livro de escrita Writing with a Thesis. Ela é membro da rede de docentes da FEE.

1 Comment

  1. O texto está muito bom. Eu só gostaria de fazer uma observação sobre a tradução de “folk music” para “música sertaneja”, com todo o respeito, é claro: o máximo que poderia ser usado para traduzir “folk music” é “música folk” ou até mesmo “folk”. O tipo de música a qual a música sertaneja se aproxima é o country, e há bastante diferença entre o country e o folk. É como comparar Johnny Cash e Bob Dylan. =]

    No mais, a tradução está muito boa. Parabéns.

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