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No meu último artigo , contei um pouco da fascinante história da evolução do dinheiro, popularmente conhecido também por “moeda”. Vimos que a noção moderna desse conceito se chama “meios de pagamentos”, que se define pela soma do dinheiro físico (cédulas e moedas metálicas que os agentes econômicos do sistema não bancário carregam na carteira), chamado de Papel Moeda em Poder do Público ou Moeda Manual, com o dinheiro “virtual” criado pelos bancos comercias, doravante “bancos”, conhecido por Depósitos a Vista ou Moeda Escritural. Portanto, os meios de pagamentos constituem os ativos mais líquidos da economia, no sentido de que são os meios mais rápidos e práticos de que os agentes econômicos dispõem para realizar pagamentos e honrar obrigações.

Isso posto, o objetivo recai sobre a explicação do “milagre da multiplicação”, isto é, da criação de moeda ou meios de pagamentos. Se moeda é sinônimo de “meios de pagamentos” e esses se dividem em papel moeda e depósitos a vista, está claro que os únicos dois agentes econômicos capazes de criar moeda são: o Estado (na figura do Banco Central), que tem o monopólio da emissão de cédulas e moedas metálicas, e os bancos, instituições financeiras que “produzem” depósitos a vista.

euros e a lâmpada mágica

O negócio bancário ou monetário está assentado numa das maiores invenções (ou seria, ilusões?) da história da humanidade: o princípio das reservas fracionadas. Em poucas palavras, a atividade bancária se resume a captar depósitos e conceder empréstimos. Contudo, esses empréstimos não são exatamente “dinheiro do banco”. Vamos entender melhor essa “mágica”.

Quando um correntista vai ao banco depositar, digamos, seu salário (papel moeda) recebe em troca um certificado ou registro de igual montante em depósitos a vista, que são obrigações ao par do ponto de vista dos bancos comerciais, isto é, possuem liquidez absoluta em moeda nacional.

Os bancos sabem que, normalmente, o correntista emitirá, aos poucos, ordens de pagamentos sobre seus depósitos, a fim de pagar dívidas ou realizar transações — por exemplo, fazer compras no supermercado, quitar sua hipoteca ou, simplesmente, pagar uma conta de luz. Dificilmente, ele necessitará de todo o montante depositado de uma só vez, mas de apenas uma fração dele para honrar seus compromissos naquele mês ou em determinado período de tempo. Portanto, parte dos depósitos captados pelo banco comercial ficam “ociosos” e, assim, estão livres para serem por ele usados de forma mais produtiva e, sobretudo, lucrativa. Se uma empresa vai a este banco em busca de um empréstimo para investir na ampliação de sua capacidade produtiva, o banco cria moeda (sob a forma de novos depósitos a vista) ao creditar a conta corrente dessa empresa no valor do empréstimo.

À medida que a empresa for realizando seus pagamentos aos seus fornecedores e estes novamente depositando os recursos nos bancos, amplia-se o estoque de depósitos a vista nos bancos comerciais. Consequentemente, aumenta a capacidade dos bancos fornecerem novos empréstimos, criando-se mais moeda escritural na economia. Portanto, a partir de um determinado depósito inicial, a rede bancária multiplica os meios de pagamento na economia. Este é o mecanismo do multiplicador bancário.

pilhas de moeda

Portanto, esse processo de criação de moeda pelos bancos comerciais se deve ao fato de eles manterem como reserva apenas uma fração dos depósitos a vista captados do público, emprestando o excedente, isto é, creditando novos empréstimos. Para fazer frente aos saques e à compensação de cheques, os bancos devem manter reservas líquidas o suficiente para atender a essas demandas. Assim, nem tudo que é captado pelos bancos na forma de depósitos pode ser emprestado, aplicado em ativos financeiros (por exemplo, títulos públicos) ou imobilizado pela instituição bancária (ex.: construir novas agências), sob o risco de a mesma apresentar problemas de liquidez para atender às requisições de seus depositantes. Nesse sentido, a regulação da atividade bancária é indispensável ao bom funcionamento do sistema econômico, uma vez que ela gera potencialmente externalidades negativas. Basta lembrarmos do pânico generalizado que decorre de uma corrida bancária.

As reservas formadas pelos bancos são de três tipos:

caixas eletronicos

a) Reservas (ou encaixes) em moeda corrente guardada nos próprios bancos comerciais (EMC): são feitas para compensar o excesso de pagamentos sobre recebimentos em papel moeda na “boca do caixa” e, portanto, atender aos saques dos correntistas. Também são conhecidos como “encaixes técnicos” ou “encaixes do sistema bancário”. Ou seja, é considerado o caixa dos bancos comerciais1.

b) Reservas (ou encaixes) voluntários depositados no Banco Central (EV): são feitas voluntariamente para atender excesso de pagamentos frente a recebimentos na compensação de cheques e como disponibilidade imediata de numerário para atender comportamento atípico dos saques dos correntistas.

c) Reservas (ou encaixes) compulsórios depositados no Banco Central (EC): são recolhidas obrigatoriamente junto ao Banco Central como proporção legalmente definida sobre os depósitos a vista, com o propósito de garantir uma segurança mínima ao sistema bancário. É um instrumento de política monetária, ou seja, de controle sobre a oferta da moeda na economia.

Cumpre salientar que a chamada “conta de reservas bancárias” no Banco Central é a soma dos encaixes voluntários com os compulsórios. Por sua vez, definimos os encaixes (ou reservas) totais dos bancos comerciais (ET) como a soma dos encaixes em moeda corrente, os encaixes voluntários e os compulsórios.

Resta-nos, então, compreender o outro lado da moeda, para ficarmos numa metáfora monetária: a criação de moeda pelo poder público, isto é, pelo Banco Central. Essa espécie de “banqueiro dos bancos” tem o poder de “produzir” uma moeda especial, a “moeda do Banco Central”, também conhecida por “base monetária”. Por definição, a base monetária é a soma do papel moeda em poder do público com os encaixes totais dos bancos comerciais (ET). Como se pode notar, as variações da base monetária impactam a disponibilidade total de meios de pagamento, pois ambas as variáveis dependem de um fator em comum: a quantidade de papel moeda em poder do público.

A produção de base monetária pelo Banco Central ocorre de uma maneira completamente diferente da produção de moeda pelos bancos, pois o Banco Central não está preocupado em lucrar, mas sim em fornecer uma quantidade de moeda suficiente para que os agentes econômicos realizem suas transações sem comprometer a estabilidade dos preços na economia.

A criação de base monetária depende das variações dos ativos e dos passivos não monetários em posse do Banco Central. No meu próximo artigo, vou explicar melhor esse mecanismo a partir do exame do balancete sintético da autoridade monetária. Com isso, vamos adquirindo conhecimento para compreendermos o significado de política monetária e como ela afeta o seu dia-a-dia.


1. Nota-se que o caixa dos bancos comerciais, do ponto de vista da lucratividade do negócio bancário, deve ser o menor possível, respeitando-se a margem de segurança da atividade. Os encaixes em moeda corrente são a única modalidade de encaixe que não é monitorada pela autoridade monetária.

Sobre o Autor

Bruno Henrique Versiani Schröder é mestre em Economia pela Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getulio Vargas (EPGE/FGV-RJ). Foi professor do curso de graduação em Economia da EPGE, e leciona as disciplinas de Macroeconomia, Microeconomia, Finanças e Estatística/Econometria em cursos preparatórios no Rio de Janeiro. Atualmente, exerce o cargo de Analista do Banco Central do Brasil. Suas pesquisas e estudos concentram-se nos seguintes temas: Econometria Aplicada, Economia Política, Avaliação de Políticas Públicas, Regulação Econômica, Defesa da Concorrência e Economia Monetária.

7 Comments

  1. ótimo artigo.. muito esclarecedor.

  2. Muito interessante e claro seu artigo, parabéns. Informação é tudo!

  3. Muito bem esclarecedor este artigo sobre o sistema bancário, o milagre da criação e a evolução do dinheiro durante a história.

  4. Excelente artigo Sr. Bruno, sobre a sistemática bancária e a evolução do dinheiro durante a nossa história.

  5. Gostei muito do artigo, está muito bem escrito, foi legal saber sobre a evolução do dinheiro, interessante.

  6. O milagre da multiplicação do capital dos bancos.

    Lembra quando antigamente você pedia um trocado para o seu pai, para comprar um picolé, e, depois de vários pedidos, sempre atendidos com muita paciência, amor, carinho ele dizia, então você acha que eu tenho um pé de dinheiro? Ou eu não sou milionário não, meu filho.

    Pois é, tempo bom aquele que os bancos não metiam a mão no nosso bolso, no nosso salário, na nossa poupança.

    Lembra, também, quando um amigo lhe pedia um pequeno empréstimo e você dizia, só quando eu receber o pagamento. Você tinha plena consciência de que só podia emprestar se o dinheiro estivesse no seu bolso, na conta ou debaixo do colchão.

    Pois é, exatamente, o que não acontece hoje com o banco. Você vai ao banco e toma um pequeno empréstimo para tocar a sua micro ou pequena empresa, comprar um automóvel ou realizar o sonho da casa própria, trabalha feito um condenado para honrar aquele compromisso e pagar ao banco. Se tiver outro trabalhador que tome outro empréstimo, para descontar na folha de pagamento, o banco, generosamente, faz o empréstimo; no final do mês lá vem o desconto e assim, mês a mês o seu pagamento vai sendo consumido e o seus míseros tostões vão sendo transferidos para o banco.

    Desta forma, então, o banco vai transferindo a riqueza do andar de baixo para o de cima, do pobre para o rico, da classe trabalhadora para o capitalista que hoje é um financista. Quer dizer, eles não precisam fazer mais nada, somente ficar sentados, tomando o seu whisky, enquanto o banco vai depositando na conta deles os juros cobrados de todos aqueles empréstimos que você, eu, o aposentado tomou do banco.

    Mas aí é que vem o milagre da multiplicação do dinheiro dos bancos…
    Se você tem 💯(cem) você só pode emprestar aqueles 💯(cem) que está no seu bolso, ou na conta ou que vai entrar no final do mês.
    O banco, não, ele pega os seus 💯(100) e empresta 10 vezes 💯(100). Sim, é exatamente o que o banco faz.
    – Como assim?, quer dizer que o banco empresta um dinheiro que ele não tem?
    – Meu amigo, o banco empresta um dinheiro que ele não tem.
    – Não, isso é ilegal, é um assalto.
    – Sim, meu amigo, o banco faz parte de uma quadrilha legalizada. E todos nós, vivos ou mortos, trabalhos para esta quadrilha que tomou de assalto a riqueza do nosso país, das nossas empresas, dos nossos salários.Trabalhamos para enriquecer as famílias donas dos bancos, os banqueiros, até a JBS tem banco, rouba de todos os lados.

    Que fazer, então? Somente uma #REBELDIAFINANCEIRA, #devonãonego, #nãopagonemmorto, ou um #Movimentojurozero, que defenda, como emenda popular um #IGF, #impostograndesfortunas, ou as cidades implantarem nas suas leis um #IPTUprogressivo, alem de #diretasja e #foratemer, é claro.
    #BORAPRALUTA?

  7. Medida provisória para anistiar os grandes bancos que fizerem acordo de leniência – Roubam, confessam e pagam migalhas – O povo não pode assistir apático, a mais este assalto aos seus direitos – https://goo.gl/X777L0

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