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O surgimento da moeda decorre do progresso econômico, devido à divisão social do trabalho, responsável pela especialização dos indivíduos em atividades produtivas isoladas. Com isso, os indivíduos deixam de ser autossuficientes e passam a ser mais interdependentes, recorrendo ao mercado para permutar sua produção individual pelos bens e serviços necessários à satisfação de suas demandas. As trocas mercantis podem ser feitas de forma direta, pelo escambo, ou de forma indireta, pela intermediação da moeda.

Na troca direta, o individuo especializado na produção de uma única mercadoria, por exemplo, A, vai ao mercado com esta para tentar obter o conjunto das demais mercadorias de que necessita. Para adquirir a mercadoria B, por exemplo, deve encontrar um produtor desta mercadoria que esteja interessado em obter o produto A. E isto é feito sucessivamente para todas as demais mercadorias de que precisa.

Escambo
Ilustração de trocas diretas (escambo).

Percebe-se o sem número de dificuldades para o funcionamento desse sistema, devido, sobretudo, à necessidade da dupla coincidência de desejos, isto é, o ofertante de uma mercadoria deve achar um demandante que seja simultaneamente ofertante do produto que deseja. Além dessa coincidência de junção do ofertante e demandante na mesma pessoa, deve haver uma equiparação quantitativa. Imagine um agente que produza uma mercadoria de elevado valor, por exemplo, joias raras, e que queira adquirir arroz. Provavelmente, ele encontrará algum produtor de arroz que queira adquirir suas joias raras. Contudo, nem por isso se pode garantir que a troca ocorrerá. Digamos, por suposição, que o preço da joia seja 10 toneladas de arroz, mas que o fabricante da joia deseja apenas 5 kg de arroz. Se realizar a troca, depois terá que trocar o arroz em excesso pelos demais produtos de que necessita.

Em um sistema como este, o desenvolvimento econômico seria facilmente obstruído pelo excesso de tempo que as pessoas despenderiam na realização das transações. Seria desestimulada a produção de mercadorias de maior valor, de modo que os problemas de indivisibilidade, custos de estocagem e de transporte inviabilizariam a produção de uma série de mercadorias. Estas dificuldades limitariam as trocas e impediriam o progresso econômico, devido ao baixo aprofundamento da divisão social do trabalho.

Operação liquidada com conchas
Mercadores árabes realizando comércio através de conchas.

Dessa forma, é consequência natural da evolução econômica e social a passagem das trocas diretas para as indiretas. Historicamente, escolhe-se uma mercadoria (gado, trigo, sal, ouro, etc.) de aceitação geral que passa a ser utilizada para liquidação das transações. Essa mercadoria transforma-se em moeda; primeiramente, metais preciosos e, em seguida, bilhetes de papel (voltaremos a esse assunto adiante). Para evitar falsificações, concentra-se a emissão de moeda “nas mãos do príncipe”, isto é, apenas o Estado tem o poder de cunhar e emitir cédulas e papéis. A introdução de um intermediário nas trocas permite sua dissociação em duas operações: uma venda, em que se entrega a mercadoria contra recebimento da moeda, e uma compra, em que se entrega moeda para o recebimento de uma mercadoria. Com isso, elimina-se o problema da dupla coincidência de desejos e, ao mesmo tempo, reduz-se o tempo para realização das transações, permitindo sua melhor alocação em atividades produtivas. Portanto, a função essencial da moeda é a sua função histórica como facilitadora das trocas (meio de troca), ampliando as possibilidades de produção da economia devido à redução dos custos de transação.

Outra função desempenhada pela moeda é a de denominador comum de valor ou unidade de conta, isto é, ela fornece o padrão para que as demais mercadorias expressem seus valores. Assim, o preço relativo entre as diferentes mercadorias passa a ser definido pela relação entre os respectivos preços monetários.

A terceira e última função desempenhada pela moeda, reserva de valor, é uma característica decorrente de sua função essencial, meio de troca. A separação entre os atos de compra e de venda em termos individuais torna desejável também a separação temporal, isto é, o indivíduo ao vender não precisa comprar imediatamente outra mercadoria. Para que o indivíduo possa escolher o momento de realizar o poder de compra adquirido ao vender sua produção, a moeda deve, ao menos durante certo intervalo de tempo, ser reserva de valor, de modo que possamos diferir o gasto de um recebimento no tempo.

É comum e desejável que a sociedade eleja algum ativo que cumpra as três funções desempenhadas pela “moeda”. A questão que se coloca é qual ativo poderia ser? O pré-requisito básico é que sua aceitação seja generalizada. Historicamente, a forma de “moeda” evoluiu por três fases: (a) mercadoria (moeda-mercadoria), (b) papel com lastro (moeda-papel), e (c) papel sem lastro (papel-moeda).

O papel-moeda (sem lastro) surgiu aos poucos no sistema econômico: primeiro, como simples certificado de depósito nos bancos; segundo, como um certificado transferível de depósito, isto é, com conversibilidade em ouro servindo como lastro desses certificados (o papel-moeda com lastro); e, finalmente, como um certificado inconversível, que é o próprio papel-moeda (sem lastro).

Uma vez que o uso do papel-moeda com lastro se generalizou e todos o aceitaram como moeda, independente de existir ou não lastro, passou-se a outro estágio em que o pedaço de papel (notas e moeda metálicas) se tornou inconversível (a moeda-papel torna-se papel-moeda), e sua aceitação passou a ser determinada por lei (ou de curso forçado). Tem-se a chamada moeda fiduciária (de fidúcia, confiança), que elimina qualquer ideia de moeda representativa ou de valor intrínseco.

Nota de vinte reais
Real, um exemplo de papel-moeda.

O que há de importante no conceito de papel-moeda é a eliminação da ideia da moeda representativa. Como intermediária das trocas, a moeda vale não por sua utilidade intrínseca, mas por sua capacidade de adquirir outras mercadorias; assim sendo, é absolutamente desnecessário que a moeda possua qualquer valor pelo seu uso direto. O que se supôs durante muitos anos ser o valor intrínseco do ouro e dos metais preciosos (exemplos de moedas mercadorias) nada mais era do que o seu valor indireto como meio de troca.

Pelas suas características especiais de divisibilidade, homogeneidade e facilidade de manuseio e transporte, o papel-moeda (moeda fiduciária), isto é, a moeda representada por notas e moedas metálicas, é um candidato privilegiado à função de meio de troca de vasta aceitação, devido aos baixos custos de transação.

O problema que pode ocorrer com a moeda fiduciária é não conseguir desempenhar as funções de reserva de valor e unidade de conta simultaneamente, pelo fato de ela ser facilmente reproduzível. O poder de monopólio da emissão monetária, exercido legalmente pelo Estado, pode dar origem à ampliação do montante em circulação, quando o governo no poder necessita de recursos para financiar seus gastos. Esta prática de emissão desenfreada, dado pelo poder de emissão, é chamada de senhoriagem. A consequência é que o aumento da moeda em circulação exerce pressão sobre o nível de preços no curto prazo, em que a capacidade produtiva da economia é praticamente constante. Maior moeda em circulação significa maior demanda por bens e serviços, cuja oferta é limitada. Assim, a moeda passa a ter um custo de retenção (carregamento) elevado, já que deixa de desempenhar sua função como reserva de valor, devido à perda de seu poder de compra.

Em ambientes de aceleração inflacionária, os indivíduos não mais reterão a moeda e procurarão utilizar outros ativos como unidade de conta, por exemplo, moedas estrangeiras ou ativos financeiros. Em casos extremos, chega ainda a ocorrer uma dissociação natural entre a unidade de conta e o meio de troca. Portanto, a moeda perde, primeiramente, sua função de reserva de valor, uma vez que as pessoas tentam desfazer-se dela rapidamente; em seguida, deixa de ser unidade de conta, com os agentes buscando outro referencial para exprimir os preços da economia, mantendo-se de forma precária como meio de troca por determinação legal. Finalmente, cria-se um mercado paralelo denominado, por exemplo, em moeda estrangeira para realização das transações mercantis, de modo que a moeda perde sua função como meio de troca.

Paralelamente à evolução dos tipos de moeda (da moeda mercadoria à moeda fiduciária), ocorreu o desenvolvimento das instituições financeiras bancárias, o que trouxe consigo um novo tipo de moeda: a moeda escritural.

Depósito bancário.
Depósito bancário.

Os primeiros bancos comerciais (aquelas instituições financeiras autorizadas a captar depósitos a vista) surgem como depositários das reservas financeiras dos indivíduos, primeiramente, ouro e, em seguida, papel-moeda. O banco concedia um certificado conversível à vista em ouro (e, posteriormente, em papel-moeda) para que os indivíduos realizassem suas transações, sem a necessidade de carregar fisicamente a quantia correspondente em ouro ou papel-moeda. Ou seja, o serviço bancário oferecido era garantir que 100% dos depósitos efetuados pelo cliente fossem cobertos pelos certificados emitidos pelo banco.

Com a evolução do sistema bancário, esses certificados, então denominados depósitos a vista, passaram a ser aceitos como moedas e cada vez mais a liquidação das transações se deu pela compensação entre eles, com a simples transferência de saldos entre os titulares das diferentes contas bancárias. Passou-se, pois, a requerer cada vez menos a conversão desses certificados em ouro ou papel-moeda efetivamente depositado. A quantidade de moeda, isto é, os meios de pagamentos totais da economia, passou a se constituir tanto do papel-moeda emitido pelo governo e carregado pelos indivíduos (moeda manual), como também dos depósitos a vista (moeda escritural ou moeda bancária) no sistema bancário, já que através de tais certificados (ou cheques) podia-se dispor livremente desses depósitos1.


1. Note-se que o cheque, assim como o cartão de débito automático não são considerados moeda, mas sim um meio para movimentar uma forma específica de moeda denominada “depósito a vista”.

Sobre o Autor

Bruno Henrique Versiani Schröder é mestre em Economia pela Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getulio Vargas (EPGE/FGV-RJ). Foi professor do curso de graduação em Economia da EPGE, e leciona as disciplinas de Macroeconomia, Microeconomia, Finanças e Estatística/Econometria em cursos preparatórios no Rio de Janeiro. Atualmente, exerce o cargo de Analista do Banco Central do Brasil. Suas pesquisas e estudos concentram-se nos seguintes temas: Econometria Aplicada, Economia Política, Avaliação de Políticas Públicas, Regulação Econômica, Defesa da Concorrência e Economia Monetária.

5 Comments

  1. Olá Bruno, muito bom parabéns pelo seu artigo!

    Uma dúvida: quando você diz cartão de débito estão inclusos cartão de conta-corrente e cartão de conta poupança? Grato.

    • Obrigado, Miguel Silva!
      Com respeito à sua dúvida, o cartão de débito é o cartão de sua conta corrente, ou seja, são conceitos sinônimos. O propósito desses cartões é facilitar suas transações com uma forma específica de moeda, a moeda escritural ou depósito a vista. Mas, note que os cartões em si (como falei acima) não são moeda.
      Por sua vez, o cartão poupança não é moeda no sentido que trabalhamos neste post, pois é um meio para você movimentar seus depósitos de poupança. Depósitos de Poupança são considerados “quase-moeda”, pois são substitutos próximos à moeda conforme definida aqui. O Banco Central do Brasil adota uma classificação específica em relação a todos os demais ativos financeiros (tal como o depósito de poupança por você mencionado). Maiores detalhes poderão ser consultados aqui: https://www.bcb.gov.br/ftp/infecon/NM-MeiosPagAmplp.pdf
      Espero ter ajudado!
      Abraços

  2. OLÁ BRUNO, EM QUE ANO ESCREVESTE ESTE ARTIGO?

    PRETENDO EXTRAIR ALGUNS CONTEÚDOS DO SEU ARTIGO, GOSTARIA DE SABER O TÍTULO DO SEU LIVRO PARA ME SERVIR DE REFERÊNCIA DE UM TRABALHO ESCOLAR.

    E POR FAVOR, AGRADECERIA MUITO SE DESENVOLVESSES UM POUCO SOBRE A DESVALORIZAÇÃO DA MOEDA.

    OBRIGADO PELA ATENÇÃO.

  3. Prezado Mateus,
    A data em que o artigo foi publicado encontra-se no topo desta página. Quanto aos meus livros, vc poderá consultá-los na seguinte página: http://www.loja.elsevier.com.br/site/institucional/Minha-pagina-autor.aspx?seg=19&aid=81474
    Espero ter ajudado! Abraço

  4. Qual o total da moeda em curso no Brasil? Meio circulante + depósitos a vista?
    Existe um lugar onde possamos acompanhar a evolução desse total?
    Obrigado pela atenção.
    Geraldo Ferreira

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