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Em condições normais de mercado (ou seja, quando não há qualquer interferência do governo em seu funcionamento), um aumento na demanda por um determinado bem ou serviço desencadeia uma série de efeitos:

  1. Esse aumento na demanda faz com que o preço do produto suba, porque agora há mais consumidores disputando a mesma quantidade do produto que havia antes.
  2. Esse aumento de preços faz com que o lucro dos produtores nesse setor também aumente, já que não houve qualquer alteração em seus custos, mas agora estão vendendo a um preço maior do que antes.
  3. Esse aumento de lucros aumenta a quantidade ofertada do produto por conta de dois movimentos distintos:
    • Os produtores desse setor decidirão aumentar sua produção, tanto porque agora terão mais recursos para investir como porque as perspectivas de seu negócio melhoraram ainda mais.
    • Outros empresários decidirão entrar nesse mercado, atraídos pelos lucros que agora são maiores do que antes. Alguns desses empresários atuavam em outro setor cuja taxa de lucro foi ultrapassada pela desse, outros tinham outra forma de renda e decidiram criar seu próprio negócio depois que esse setor tornou-se mais lucrativo.
  4. Esse aumento na oferta do produto diminui seu preço praticado, já que agora há maior quantidade sendo produzida para atender a mesma demanda que havia ao final de (1).
  5. Essa diminuição no preço do produto diminui a taxa de lucro em sua produção até equiparar-se com as taxas dos demais setores dessa economia, quando os efeitos (3) e (4) deixam de atuar porque (2) deixa de ser verdadeiro.

Essas etapas não ocorrem um por vez como foram descritas aqui; cada uma delas pode continuar agindo por conta da anterior enquanto já influencia a subsequente. Mas uma vez exaurido todo o efeito provocado pelo aumento na demanda desse produto, haverá uma quantidade maior dele sendo produzida, ele será vendido a um preço maior1, e a taxa de lucro de seus produtores será muito próxima do que era antes. O importante aqui é que o mercado encontrou, sozinho, um novo equilíbrio e está pronto — como sempre esteve — para absorver novos choques.

Mas o que acontece quando o governo resolve regular a oferta de determinado serviço? O exemplo clássico dessa prática é o da licença para se operar ponto de táxi. As prefeituras do Brasil (e do mundo em geral) fixam o número de carros que podem cobrar para transportar passageiros. Nesse caso, quando há um aumento na procura pelo serviço, os efeitos (1) e (2) acontecem normalmente, mas a sequência é interrompida aí. O governo barra a entrada de novos ofertantes, e o efeito (3) (e todos os subsequentes, que dele dependem) não ocorre.

Ao final, a quantidade de carros servindo os clientes é a mesma (a despeito da elevação na procura), o preço praticado é significativamente mais alto e o lucro do taxista também. A situação continua assim, permanentemente, podendo inclusive continuar piorando se a demanda continuar crescendo. A população sai prejudicada e o taxista é beneficiado pelo político — com quem contrai dívida de gratidão.

Esse é o exemplo mais conhecido, e que vem sendo muito discutido por conta da chegada do aplicativo Uber. Mas não é o único, e é importante que se entenda o fenômeno para identificar outros casos que causam mal à população pelos mesmos motivos. Como nas profissões de médico, advogado, engenheiro ou qualquer outra em que o Estado determine (ou delegue a alguma instituição que determine) quem pode ou não pode exercê-la. O que acontece é o encarecimento de seus serviços, um segmento da população que fica à margem deles, e um pequeno grupo beneficiado.

medico engenheiro advogado

É claro que os reais interesses nunca são revelados, o discurso é invariavelmente o de que se quer garantir a qualidade do serviço. Mas o crescimento do Uber vem demonstrando que a população prefere ter a maior quantidade possível de opções (precisamente o que o governo tenta impedir), e ela mesmo avaliar a qualidade de cada prestador.


1Pode ser demonstrado porque o preço e a quantidade produzida estabilizam-se acima de seus níveis originais, mas por simplicidade essa explicação está fora do escopo desse artigo.

Sobre o Autor

Presidente da Academia Liberalismo Econômico, é formado em economia pela FEA-USP com especialização em estatística pela FIA-USP. Dentro da economia, tem interesse especial por microeconomia e história econômica. Também gosta de estudar história geral e filosofia.

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