Estou em Shenyang, na China , como parte da equipe de professores do programa de Gestão e Economia Internacional da Universidade Nordestina .

Meu papel principal é falar sobre economia e políticas fiscais, explicando os impactos tanto das receitas como das despesas públicas.

Entretanto, meus leitores já conhecem minhas posições sobre estas questões, então vamos falar sobre o aclamado milagre chinês.

E eu não estou sendo sarcástico quando digo “aclamado”. Desde que a China começou a liberalizar sua economia no final da década de 70, o crescimento econômico tem sido impressionante. Eu não necessariamente acredito nas estatísticas vindas do governo chinês, mas, sem sombra de dúvidas, houve um progresso espetacular.

O grande mistério, no entanto, é se a China continuará desfrutando de rápido crescimento. Em outras palavras, eles alcançarão os americanos (atualmente, o produto per capta nos EUA é mais de cinco vezes maior do que na China)? Ou, como muitas outras economias emergentes , eles baterão em um teto e aí começarão a estagnar?

Eu não tenho a pretensão de saber o futuro, mas posso afirmar com muita confiança que a resposta depende das ações do governo chinês.

A boa notícia é que a liberdade econômica saltou dramaticamente a partir da década de 80, de acordo com o relatório Economic Freedom of the World . Graças a boas reformas, o indicador chinês cresceu mais do que 50%, subindo de 4,0 em 1980 para mais de 6,0 em pouco mais de duas décadas.

Este é um enorme avanço, e explica em grande parte por que a prosperidade se expandiu e por que houve uma redução recorde na extrema pobreza e na privação material que caracterizavam o país.

Mas a má notícia é que não houve muitas reformas nos últimos quinze anos. O indicador de liberdade econômica da China oscilou entre 6,0 e 6,4 nesse período.

De fato, houve resgates financeiros e esquemas de “estímulo” no estilo keynesiano, então é possível que a China esteja agora rumando na direção errada.

Antes de entrar nos detalhes, vamos examinar a economia do crescimento. Já escrevi anteriormente que mão-de-obra e capital são os dois fatores de produção, e que o crescimento econômico é uma função de mais mão-de-obra, mais capital, ou aprender a utilizar a mão-de-obra e/ou o capital existente de forma mais produtiva.

Um modo de enxergar isso é através de uma curva de possibilidade de produção (CPP). Esta é uma ferramenta em economia frequentemente usada para ilustrar trade-offs 1 e custos de oportunidade. Se Robinson Crusoé está em uma ilha deserta, qual é a melhor maneira de ele alocar seu tempo para maximizar a quantidade de peixes que ele consegue pescar e o número de cocos que ele consegue pegar? Ou, para uma sociedade inteira, qual é o trade-off entre produzir armas e alimento?

Este é um gráfico que encontrei na internet que ilustra os papéis do capital, da mão-de-obra e da produção. É um gráfico tridimensional, o que é útil, pois ele não apenas mostra que não há produção na ausência de capital e mão-de-obra, mas também mostra que uma economia com apenas mão-de-obra ou apenas capital terá pouca ou nenhuma produção. Ao contrário, a produção será maior combinando capital e mão-de-obra.

Mas isso é apenas o começo.

O gráfico acima mostra a quantidade de produção que teoricamente pode ser produzida com uma dada quantidade de mão-de-obra e de capital. Mas e se ocorrer uma política desastrada no país? Considere a diferença, por exemplo, entre (a) o estagnado indicador de liberdade econômica da China e seu considerável desempenho econômico comparado com (b) o ótimo indicador de liberdade econômica de Hong Kong e seu excelente desempenho econômico .

Com isto em mente, contemple essa figura bidimensional. Com políticas ruins, ou a economia produz apenas A quando poderia produzir B (usando as quantidades atuais de mão-de-obra e de capital de forma mais produtiva), ou produz B quando poderia produzir C (expandindo a quantidade de mão-de-obra e de capital).

Eu suspeito que o problema chinês é essencialmente que políticas ruins interferem na alocação eficiente de mão-de-obra e capital. Em outras palavras, já existe muita mão-de-obra e capital sendo utilizados, porém uma parte significativa é desperdiçada devido a preferências políticas e outras formas de intervenção.

Agora vamos passar da teoria para os detalhes empíricos.

Aqui está uma observação sobre as reformas na China do professor Li Yang , vice-presidente da Academia Chinesa de Ciências Sociais:

Pelos últimos 35 anos, a China alcançou um desempenho econômico extraordinário graças às reformas pró-mercado e à abertura comercial. O PIB per capta também alcançou US$ 6.075 em 2012, a partir dos US$ 205 de 1980. A economia chinesa experimenta mudanças impressionantes em favor da liberalização. De fato, já em 1996, 81% dos materiais de produção e 93% das vendas a varejo foram comercializadas de acordo com o mecanismo de preços de mercado.

E aqui está um gráfico mostrando a gradual expansão das forças de mercado na China, aparentemente baseado em se os preços são determinados pelos mercados ou pelo planejamento centralizado.

Também temos dois gráficos mostrando o declínio do socialismo verdadeiro (isto é, propriedade estatal dos meios de produção).

O primeiro gráfico mostra que as empresas estatais estão se tornando uma porção cada vez menor da economia.

Ainda mais impressionante, há um enorme declínio na proporção da população empregada pelas empresas estatais.

Estas são boas notícias, e ajudam a explicar porque a China é muito mais rica hoje do que era trinta anos atrás.

Porém a grande dúvida é se a China irá passar por semelhante vigoroso crescimento econômico nos próximos trinta anos.

Aqui vai mais da análise otimista do professor Yang:

Outro fator indispensável para explicar o milagre econômico chinês é a constante abertura, que é igualmente guiada pelo princípio do gradualismo. Considerando a estrutura espacial, os mercados se abriram sucessivamente a partir das zonas econômicas especiais , zonas de desenvolvimento econômico e tecnológico, zonas costeiras de desenvolvimento econômico, regiões ribeirinhas, interior, e finalmente toda a China; considerando a estrutura industrial, a partir da privilegiada indústria manufatureira, até os setores menos favorecidos da agricultura e de serviços. Em 2001, a entrada da China na OMC pode ser considerada um marco: a abertura chinesa transformou medidas de política seletivas em amplos e profundos arranjos institucionais.

A liberalização do comércio é particularmente impressionante, como ilustrado pelo gráfico a seguir:

Fico pensando se Donald Trump iria rever seu protecionismo anti-China se ele visse (e compreendesse) esse gráfico.

De todo modo, aqui vão alguns trechos da conclusão do professor Yang:

Reformas pró-mercado constituem o mais crucial fator de suporte do crescimento chinês no futuro. A chave aqui é lidar apropriadamente com o relacionamento entre governo e mercados. Do último é esperado que cumpra o papel fundamental da alocação dos recursos econômicos. A China deve realizar mais esforços em melhorar a eficiência dos investimentos. O governo precisa reduzir suas intervenções no nível microeconômico, promover desregulamentação e descentralização administrativa, quebrar monopólios, e melhorar a eficiência funcional.

Eu concordo, particularmente na parte sobre aumentar a eficiência dos investimentos.

E isto só pode acontecer se a China acabar com o capitalismo de laços deixando o capital ser alocado pelas forças de mercado ao invés das conexões políticas.

Vamos encerrar com dois itens.

Primeiro, um dos outros professores comigo na universidade em Shenyang é Ken Schoolland . Em sua apresentação, ele apontou que existe um real federalismo na China. As províncias têm considerável flexibilidade para se engajar em reformas.

E não deve provocar nenhuma surpresa que o acelerado crescimento na China tenha se concentrado nas áreas que se moveram mais rapidamente e mais longe na direção do livre-mercado.

Segundo, alguns observadores experientes estão um pouco pessimistas sobre o futuro do desenvolvimento econômico chinês. Derek Scissors do American Enterprise Institute explica o que precisa acontecer para estimular a prosperidade futura.

A economia está em vias de se estagnar. A única solução é um retorno para o mercado, reforma politicamente difícil. Tal reforma deve ter como foco principal o recuo do setor estatal. Expandir títulos de propriedade individuais ou familiares nas áreas rurais seria útil. Mais direitos privados sobre a terra reduzem o Estado no campo. O passo crítico na revitalização da economia é reduzir o Estado nas cidades, e por um montante considerável. Tais mudanças serão, é claro, em etapas ao longo do tempo. Mas o quanto antes iniciarem, mais cedo a performance econômica irá melhorar. Reduzir o setor público urbano iria (i) finalmente solucionar o excesso de capacidade; (ii) viabilizar que o capital seja alocado muito mais eficientemente; (iii) assim reduzir ou interromper a acumulação improdutiva de dívida; (iv) encorajar inovação ao estimular mais competição. Em termos de alocação de capital, a liberalização formal da taxa de juros foi dita como um passo vital. Porém isto não pode acontecer enquanto o Estado controlar a maioria dos ativos financeiros – os incentivos para conluio entre financeiras estatais irmãs são enormes.

Aqui está a conclusão de Derek:

Para saber quando a China irá florescer novamente – apenas verifique se o setor público está realmente diminuindo.

Amém.

O que ele está descrevendo são as políticas que iriam dramaticamente melhorar o indicador chinês no Economic Freedom of the World. E se a China em algum momento alcançar Hong Kong , então o céu é o limite para crescimento e prosperidade.

Notas do autor:

  1. Existem alguns sinais que a liderança chinesa reconhece que uma agenda ao estilo Reagan seja necessária.
  2. Por outro lado, se o governo chinês seguir o conselho do FMI , então prepare-se para declínio e estagnação econômica.
  3. A mais divertida notícia econômica dos últimos anos foi quando um alto oficial chinês basicamente explicou que o Estado de bem-estar social na Europa torna as pessoas preguiçosas.

Esse artigo foi originalmente publicado como The Chinese Miracle and the Economics of Growth para o International Liberty .


Notas:

  1. Um trade-off é uma situação onde há uma escolha entre duas opções desejáveis. Ir para a praia ou para o campo no final de semana? Trabalhar mais (e ganhar mais dinheiro) ou descansar? (N. do E.)

Sobre o Autor

É colaborador sênior do Cato Institute. É presidente do Center for Freedom and Prosperity, uma organização criada para defender e promover impostos competitivos. Previamente, Dan serviu como colaborador sênior no The Heritage Foundation e foi economista do senador Bob Packwood e do comitê de finanças do Senado. Recebeu seu Ph.D em economia da George Mason University e graduação e mestrado em economia da University of Georgia.

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