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Diferentes povos e culturas ao longo da história humana tiveram diferentes percepções sobre a moralidade do lucro. A professora Deirdre McCloskey merece especial destaque no estudo de como nos séculos XVII e XVIII as pessoas em alguns países da Europa passaram a ver empreendedores e inventores como ocupações moralmente honradas , e como essa nova percepção desencadeou uma extraordinária evolução nas condições de vida da população nesses países e, mais tarde, no mundo.

Não obstante, a busca do lucro é sempre apontada como um dos causadores dos males da sociedade.

Diante desse paradoxo, é natural nos perguntarmos, em primeiro lugar, o que é exatamente o lucro? E depois, a partir daí, tentar descobrir se o lucro faz bem ou mal para a sociedade.

É conhecimento convencional que o lucro de uma empresa seja a diferença entre (a) o dinheiro recebido por tudo aquilo que ela vendeu e (b) todo o dinheiro que ela gastou. O lucro é exatamente o que sobra da subtração entre essas duas pilhas de dinheiro: o que entra e o que sai. Agora vamos olhar para cada uma delas por uma perspectiva econômica.

A receita de vendas de uma empresa é todo o dinheiro que ela recebeu de seus clientes em troca de seu produto. Cada centavo que compõe o que ela recebeu, recebeu de alguém que julgou que estaria em melhor situação com seu produto do que com o dinheiro que estava sendo cobrado por ele.

Sam Walton , o fundador da gigante varejista Wal-Mart, costumava dizer que para ele perder toda a sua riqueza bastava que as pessoas decidissem parar de comprar em suas lojas. Toda a fortuna que ele acumulou (foi o homem mais rico dos EUA na década de 80) foi adquirida, dólar por dólar, de pessoas que entraram em uma de suas lojas, escolheram algum produto da prateleira, passaram no caixa, e trocaram uma certa quantidade de dólares pela prerrogativa de levar aquele produto para casa.

Se não fosse por Walton, cada uma dessas milhões de pessoas teria que se contentar com a segunda melhor alternativa para suprir a necessidade ou o desejo que a levou a fazer a compra. Talvez uma marca inferior na loja ao lado, ou uma loja mais longe de casa, ou um preço mais alto. Mas alguma coisa fez com que cada uma delas escolhesse comprar naquela loja, e com isso deduzimos que Walton causou-lhes um benefício por oferecer uma opção melhor do que as demais disponíveis.

E claro que há também os custos. Uma empresa só consegue realizar suas vendas trocando dinheiro por matéria prima, mão-de-obra, aluguel de imóvel, energia elétrica, transporte de mercadoria, etc. Cada um desses gastos não é um fim em si mesmo, mas uma forma de possibilitar a atividade da empresa. Para ela, todos eles são insumos, e todos juntos (e outros tantos que poderíamos ter colocado na lista) compõem o montante que será descontado das receitas para chegarmos no lucro.

Comecemos com o caso dos trabalhadores. Para desenvolver suas operações, uma empresa precisa empregar trabalhadores desempregados e/ou oferecer empregos melhores para trabalhadores já empregados. Um emprego melhor pode ser um salário mais alto, trabalho mais perto de casa, uma jornada mais breve, ou algo parecido. Ao olharmos para qualquer empreendimento (uma loja, um restaurante, uma indústria, etc), podemos ter a certeza de que ele precisou oferecer a cada um de seus trabalhadores um emprego que ele próprio considerou melhor do que qualquer alternativa de que dispunha no momento. Do contrário, ele não estaria lá.

Qualquer outro insumo que uma empresa adquira, desde matéria prima até energia elétrica, ela compra de outra empresa que também terá de contratar mais trabalhadores para atender essa demanda adicional, causando efeito idêntico ao descrito acima. E cada uma delas tem também seus fornecedores. Então esse efeito se propaga ao longo de toda a cadeia de produção beneficiando um número incontável de trabalhadores com melhores salários e/ou condições de trabalho até chegar no insumo fundamental de qualquer produção que é o próprio trabalho humano.

Então, reunindo tudo que vimos até agora, todas as vendas que a empresa faz são atestados de que os compradores se beneficiaram da existência do empreendimento; e todas as aquisições que a empresa realiza são atestados de que os trabalhadores que tornaram aquelas vendas possíveis também se beneficiaram da existência do empreendimento. Em outras palavras, vimos que todo empreendimento traz, através de suas trocas voluntárias, benefícios difusos à sociedade. Mas há uma particularidade no empreendimento lucrativo que ainda não exploramos.

Como dito acima, um empreendimento lucrativo é aquele em que a soma do valor das vendas é maior do que a soma do valor das compras. Com tudo o que vimos depois, o que isso quer dizer?

Se, graças ao empreendimento, (a) os consumidores estão pagando menos (ou outro benefício) por seus produtos, (b) os trabalhadores estão recebendo mais (ou outro benefício) por seus trabalhos, e (c) ainda assim sobra dinheiro para o empresário, isso implica necessariamente que antes do empreendimento os trabalhadores estavam recebendo menos por seu trabalho do que os consumidores estavam pagando por esse trabalho. Caso contrário, se os trabalhadores estivessem recebendo mais do que os consumidores estavam pagando, alguém que quisesse contratar esses trabalhadores para produzir algo e depois vender aos consumidores, ele teria prejuízo.

Vamos ver um exemplo com prejuízo para ficar mais claro. Suponha que um empreendedor esteja considerando contratar neurocirurgiões para vender areia na praia. Por que esse negócio provavelmente teria prejuízo?

O senso comum diria “porque é uma ideia estúpida”. Um economista, no entanto, responderia com algo como “porque o preço que as pessoas na praia estariam dispostas a pagar por areia é provavelmente menor do que o salário que seria necessário para convencer neurocirurgiões a deixarem seus consultórios”. Em outras palavras, as pessoas na praia não precisam de areia! E os neurocirurgiões não ganham tão mal assim!

O negócio lucrativo é, portanto, o negócio em que podemos ter certeza não apenas de que ele está beneficiando outras pessoas, mas que ele está beneficiando pessoas que precisam. O lucro é o atestado inviolável de que seu portador conseguiu encontrar pessoas que estavam pagando demais em produtos cujos produtores estavam ganhando de menos. E tem mais: quanto maior for o lucro obtido, (a) mais defasada estava a renda do trabalhador em relação ao preço pago pelo consumidor, e/ou (b) maior foi o número de trocas realizadas que beneficiaram essas pessoas todas. Ou, nas palavras de Robert Murphy , “lamentar que um capitalista esteja tendo lucro muito alto é como reclamar de um cirurgião por salvar muitas vidas” .

Olhando para os dois exemplos que usei, pode parecer fácil encontrar os casos lucrativos. Mas então o que você acha que está faltando no seu bairro? Uma nova academia? Uma loja de conveniência? Um pet-shop? Você apostaria seu dinheiro nisso?

Grandes inventores e empresários ficaram multibilionários com seus negócios, mas você já parou para pensar como seria o mundo sem computadores pessoais, por exemplo? Theodore Dalrymple esclarece que, apesar de sua riqueza ser apenas uma diminuta fração daquela de Bill Gates , ela é certamente maior do que seria se Gates não tivesse fundado a Microsoft. O mesmo vale para todo o mundo. Todos nos beneficiamos do esforço empreendedor que deu a ele sua fortuna.

E esse benefício não se limita a cada um poder usar seu computador. Imagine um mundo em que todos os supermercados mantivessem seus controles de estoque em papel. A administração não seria muito mais trabalhosa e errática? Esse custo não seria repassado para o preço dos alimentos? Isso não teria um impacto decisivo nas vidas de bilhões de pessoas além de Gates? Agora imagine isso para todos os produtos que já deram lucro na história. Eles não causam benefícios para a sociedade?

Quando as abelhas coletam néctar de flor em flor, elas não têm nenhuma intenção de espalhar pólen pela natureza.
Mas isso importa?

Quando paramos para pensar, o lucro já é a parte que cabe ao empreendedor na repartição dos benefícios que ele gerou para a sociedade. Mesmo assim, quando um empreendedor decide abrir seu negócio, ele dificilmente o faz especificamente para ajudar outras pessoas. Ele o faz para atender seus próprios interesses, como as abelhas que buscam néctar nas flores e acabam polinizando a natureza. Adam Smith já descobrira isso em 1776 :

O indivíduo não busca promover o interesse público, ou mesmo sabe o quanto está promovendo-o. E ao dirigir seu negócio de tal maneira que seu produto possa ter o maior valor, ele busca apenas seu próprio ganho. E ele é nesse caso, como em muitos outros casos, guiado por uma mão invisível a promover um fim que não era qualquer parte de sua intenção.

Uma das diferenças fundamentais entre o comunismo e o liberalismo é que o primeiro tem como pré-condição uma transformação na natureza humana 1 : as pessoas precisam deixar de agir para satisfazer seus próprios interesses individuais, e precisam começar a agir para atender os interesses coletivos da sociedade. Dezenas de milhões de pessoas morreram de inanição ou violência decorrentes de diversas tentativas de se realizar essa transformação, geralmente através do socialismo. Até hoje, muita gente acredita que ela seja, pelo menos em parte, necessária para um mundo melhor.

O liberalismo sugere um caminho mais fácil e menos doloroso. Ao invés de ver o auto interesse como algo a ser tratado, ele o emprega como combustível de um processo que melhora difusamente a qualidade de vida das pessoas. Esse processo é o empreendedorismo.

E aí voltamos ao início do artigo. Sociedades que valorizam empreendedores são mais prósperas. Que as pessoas queiram ser ricas, que queiram colecionar barcos luxuosos, acender charutos com dinheiro, ou conhecer a lua. Sem poder roubar nada das demais (inclusive corrompendo políticos), só poderão ter tudo isso aquelas que conseguirem ajudar outras pessoas – precisamente aquelas que mais necessitam.

Estamos finalmente prontos para responder a pergunta inicial, mas o farei com ainda outra pergunta: que mal há em promover o bem daqueles que mais precisam?


Esse artigo também foi publicado como Why We Should Celebrate Profits para o Foundation for Economic Education .


Notas:

  1. “Para construir o comunismo é necessário, junto com as novas fundações materiais, construir o novo homem e a nova mulher .” – Che Guevara .

Sobre o Autor

Presidente da Academia Liberalismo Econômico, é formado em economia pela FEA-USP com especialização em estatística pela FIA-USP. Dentro da economia, tem interesse especial por microeconomia e história econômica. Também gosta de estudar história geral e filosofia.

3 Comments

  1. Não só esquerdistas ignorantes detestam o lucro e a “cobiça” dos capitalistas, mas a maior parte dos acadêmicos, supostamente inteligentes, ou pelo menos “sapientes”, também exibem aversão aos lucros privados, preferindo ignorar completamente, e estupidamente, que é dos lucros dos capitalistas, em parte apropriados sob a forma de impostos pelo Estado, que sai a massa de salários de todos os funcionários públicos. Até mesmo professores de escolas e universidades privadas, que são empresas voltadas para gerar lucros para capitalistas da educação, preferem ignorar esse fato singelo, com a diferença que no seu caso seus salários são custos para a empresa, diretamente repassado para os “clientes” que são os estudantes.

  2. 272. As Temer-idades do (des)governo atual:
    O lucro das empresas é bom ou ruim?

    Gerhard Erich Bœhme

    Dr. Martin Luther, uma lembrança diária nos dias de hoje, ainda mais que estaremos comemorando os 500 Anos da Reforma Luterana, nos deu excelentes escritos. Mas como é da natureza humana, também enveredou em temas polêmicos, se de um lado nos apresentou um excelente texto sobre a Liberdade do Cristão, livro de leitura obrigatória, no Brasil publicado pela Editora UNESP, em edição bilíngue, também no alemão, assim como vertido a partir do latim pela Editora Sinodal (Liberdade Cristã), foi dele também um texto que de certa forma, se mal interpretado, “demoniza” o lucro.

    Dele temos numa coedição das Editoras Concórdia e Sinodal, “Economia E Ética”, Nele Lutero reflete, em perspectiva ética, sobre as relações econômicas e suas consequências para a vida das pessoas. É igualmente um texto simples, são apenas 52 páginas
    Um bom subsídio para quem reflete hoje, em perspectiva ética, sobre as relações econômicas e suas consequências para a vida das pessoas. Contém a primeira parte do texto Comércio e Usura.

    A partir dele, se mal interpretado, ainda mais fazendo uso dos óculos de hoje para avaliar o que foi escrito no passado, no mundo “politicamente correto” de hoje é perigoso. As pessoa deixam de pensar, e se o fazem, não o fazem de forma inteligente, mas de forma ideologizada, voltada a interpretar os efeitos sem reconhecer as causas.

    Nele vemos que seu forte não era economia, mas sim religião. Não que esteja de todo errado, mas a interpretação que devemos dar a questão do lucro, deve ser bem entendida, afinal depois de Dr. Martin Luther, alguns séculos se passaram, veio o liberalismo, que a soma da liberdade com a responsabilidade, e com ela seus defensores, já que vinha sendo ameaçada por conceitos que ora tiravam a liberdade das pessoas, ora não cobravam deles a responsabilidade. Na segunda metade do Século XIX, tempo em que o Brasil conquistava e dava passos largos rumo a defesa da liberdade e desenvolvimento, tempos do nosso Império do Brasil. Felizmente nos abriram os olhos para a economia uma série de professores austríacos. E assim passamos a entender que o lucro é essencialmente ético.

    E cito algumas razões que me parecem ser importantes:

    1. A existência de lucros informa se uma determinada empresa está utilizando seus fatores de produção de forma efetiva e eficaz. Se obtém o lucro, está sendo eficaz, posto que há resultados e cumpre seu papel não apenas colocando a disposição de seus clientes bons produtos e serviços, mas a garantia de continuidade. E se há lucro, faz uso dos recursos de forma adequada, está sendo eficiente, o que gera igualmente menores impactos sociais e ambientais.

    2. Empresas enfrentam adversidades, assim como o ser humano, em que pese os povos da franja Mediterrâneo estejam sempre mais próximos do conforto, pois não enfrentam os rigores do inverno, que exige algumas doses extras de prevenção. Isso quer dizer que um alemão ou sueco tem que se prevenir, afinal se não o fizer, morre de fome e frio. E é justamente neste ambiente que se inseriram os luteranos. E esta mentalidade teve um impacto enorme na questão do ensino. Ele que é uma das mais importantes partes da competência¹ de uma pessoa, depois da educação que recebemos em casa, por certo. E aqui temos uma frase de impacto. Espero que nunca mais a esqueçam:

    “Em cada comunidade uma igreja, e ao lado dela uma escola”. (Dr. Martin Luther)

    Vale lembrar que Martinho Lutero não foi o principal responsável pela Reforma, foi também um dos responsáveis por formular o sistema de ensino que serviu de modelo para a escola moderna no Ocidente. Merecendo destaque aos resultados obtidos nos países onde a quase totalidade da população é luterana: Dinamarca, Ilhas Faroé, Gronelândia, Islândia, Noruega, Suécia, Finlândia, Estônia, Letônia, Namíbia – aquele país onde o então presimente Lula afirmou que nem parecia, em um de seus repentes de imbecilização ou no mais puro Dilmês, que estava na África, e na maioria dos estados no norte dos Estados Unidos.

    O luteranismo ainda é o maior grupo cristão evangélicos da Alemanha (50% e cerca de 45%, católicos), da Lituânia, da Polônia, da Áustria, da Eslováquia, da Eslovênia, da Croácia, da Sérvia, do Cazaquistão, do Tajiquistão, de Papua Nova Guiné, do norte de Sumatra na Indonésia, e da Tanzânia.

    As igrejas luteranas têm em comum a Confissão de Augsburgo, de 1530, como sua confissão de fé básica. Reúnem seus escritos confessionais no Livro de Concórdia, de 1580.

    Este ano comemoramos os 500 anos da Reforma, e merece destaque a leitura dO Livro de Concórdia. Recomendo a leitura, sem ele não entendemos esta divisão entre católicos e evangélicos.

    O Livro de Concórdia contém os escritos confessionais da Igreja Luterana. Não se trata de um patrimônio exclusivo das igrejas que se confessam diretamente devedoras da Reforma Luterana, mas pertence à cristandade toda como confissão ecumênica de membros no corpo de Cristo e como profissão da fé apostólica. Sua reedição é um esforço sincero para reunir também visivelmente num só rebanho todos os que desejam ser um em espírito e em verdade.

    Adversidades exigem que estejamos preparados, das pessoas exige-se competência¹, de uma empresa, reservas. E estas reservas tem como origem o lucro.

    3. É do lucro que se tem os recursos para ampliar, modernizar e inovar os negócios, se uma empresa não o faz, como Getúlio Vargas impôs ao Conde Matarazzo, ela tem como caminho certo o fracasso, e assim deixa de dar a principal contribuição social que temos: a geração de empregos.

    As grandes fortunas praticamente não nascem no Brasil ou, dada a regra do jogo, são resultado do capitalismo de comparsas, fruto do clientelismo político que veio com a quartelada que muitos denominam de “Proclamação da República”. Vivemos em uma sociedade de privilegiados. É por isso que sustentamos o “Triângulo de Ferro”, uma das maiores pragas de nossa, não minha, República. Sou monarquista convicto. Afinal uso meu cérebro para pensar e não para guardar preconceitos vindos daqueles que nos impuseram a “Republica da Espada”, ou que praticaram o único e verdadeiro Golpe que tivemos, já que todos os demais apenas foram uma forma de troca de comando do grupo que está no poder no momento.

    Não temos mercado e não propiciamos as condições para que sejam criadas grandes fortunas, tivemos em nossa história empreendedores, como o Barão de Mauá, o Engenheiro André Pinto Rebouças, notáveis durante o Império, depois os poucos sempre conquistaram antipatia dos políticos, ditos republicanos, com destaque a Vargas, que foi um dos inimigos do Conde Francesco Matarazzo, criador da IRFM – Indústrias Reunidas Francesco Matarazzo, um império destruído pela excessiva tributação e entraves e amarras políticas, por uma miopia política de muitos governantes, que ao invés de promover a concorrência e aprender com o sucesso do mesmo, procuravam distribuir a riqueza conquistada, não de forma ética, através do capitalismo de livre mercado, mas do capitalismo de comparsas, tão presente no “Triângulo de Ferro” imposto goela a baixo aos brasileiros, coitados, mal sabem como ela ocorre, em que pese o administrador Guilherme Afif Domingos ter sido muito didático tempos atrás, isso quando foi o mais votado para Presidente da República pelo Paraná.

    O império da IRFM foi criado por alguém que não queria ter um patrão, mesmo com toda a adversidade que se iniciou ao desembarcar no Rio de Janeiro, em 1881, ainda durante o glorioso Império do Brasil, tinha tudo para se desesperar. A tonelada de banha de porco que trazia da terra natal para comercializar aqui afundou com a embarcação que levava a carga do navio, por puro azar, pouco antes de aportar no Brasil. Sem perspectivas e com pouco dinheiro no bolso, a única esperança de se manter vivo era encontrar um velho amigo e conterrâneo, Fernando Gradino, que vivia em Sorocaba (SP). Meses depois escreveu para a família que deixara na Itália – a mãe Mariângela, a esposa Filomena, oito irmãos e dois filhos: “Abri uma venda em Sorocaba e não procurei, nem jamais procurarei, ter o que se chama de patrão.

    Ao completar 80 anos, era de longe o homem mais rico do Brasil à época, sendo que a riqueza produzida por suas indústrias ultrapassava o PIB de qualquer estado brasileiro, exceto São Paulo, chegando a reunir 365 fábricas por todo o Brasil e um porto exclusivo, o de Antonina no Paraná, hoje uma das mais belas cidades do Brasil, ainda por ser descoberta pelos brasileiros. A renda bruta do conglomerado era a quarta maior do país, e 6% da população paulistana dependia de suas fábricas. Faleceu em 10 de dezembro de 1937. Sua fortuna não durou mais do que uma ou duas gerações ou no máximo três, filhos e netos souberam dissipá-la, incluindo a família de um ex-Senador pelo PT de São Paulo. O mesmo que veio em defesa da tributação de grandes fortunas nos seus repentes ideológicos voltados ao atraso, acredito que tenha sido o único. Este Senador foi também um dos que se inspiraram nos trabalhos de Milton Friedman em defesa do imposto de renda negativo, mas o desvirtuaram, criaram o maior estelionato eleitoral de todos os tempos. A proposta de Suplicy nem mesmo foi considerada pelos PTistas.

    4. É do lucro que saem os recursos para que uma empresa amplie seu quadro de funcionários e demais colaboradores, e é do lucro que saem os recursos para ampliar a competência¹ deles. O que é de vital importância, mas desconsiderado pelos brasileiros, que como papagaios repetem que devemos investir em educação escolar, que ela é a solução. Não é, isso é fazer jogo dos políticos incompetentes ou mal-intencionados. O importante é investirmos em competência¹, a qual obviamente contempla o ensino ou escolarização.

    5. É do lucro que saem os recursos para fazer frente aos impostos, a começar o Imposto de Renda. E no Brasil não temos o entendimento de que o Imposto de Renda sobre o lucro deveria ter um único caminho certo, o investimento em incubadoras e Startups², e não apenas na área da Ciência e Tecnologia (C&T), privilegiando a inovação. Assim como em linhas de crédito e seguro para novos negócios. Nossa visão de futuro é míope. Muitos advogam que não deveríamos ter imposto de renda sobre as empresas, já que invariavelmente quem paga a conta é consumidor, o que deve ser considerado neste debate. Mas ainda defendo a tese de que devemos privilegiar as incubadoras e Startups², e não só na área de C&T, mas em todas as áreas, fomentando uma ambiente inovador.

    “Por conta da má gestão pública, ou mesmo falta dela, o que vemos são os investimentos em pesquisa, na área de Ciência & Tecnologia, serem reduzidos ano a ano, temos assim a certeza de que não criamos aqui a competência¹ necessária para manter e multiplicar incubadoras² e Startups³ e assim auxiliar na construção do futuro da nação e mantê-la competitiva. (Gerhard Erich Bœhme)

    ¹ Competência – é quase consenso no Brasil que é o ensino, principalmente o superior, a prioridade para a construção do futuro, ele é importante, mas o fundamental é termos o entendimento de algo mais amplo, pois é a competência o fundamental, a qual também inclui o ensino ou escolarização.

    A competência começa com a educação que recebemos em casa, de nossos pais, ou na falta deles ou por incompetência deles, por parte de algum parente, pelos padrinhos, razão pela qual devemos dar prioridade nas nossas escolhas deles para nossos filhos, ou outra pessoa que o possa fazer. Sem ser educada, uma criança chega a escola, ao ensino fundamental, deformada, sem noção do que é autoridade e respeito, já que as confunde com autoritarismo ou entende que possa haver liberdade sem responsabilidade e capacidade para se avaliar riscos. E ela tem continuidade a partir das famílias educógenas.

    A expressão famílias educógenas foi utilizada pela primeira vez por Jean Floud, em 1961, no texto ”Social Class Factors in Educational Achievement”, editado pela OCDE. A meu conhecimento, o único pesquisador brasileiro a fazer menção a ela é CASTRO (1976) que a define como famílias que se caracterizam por oferecer certo tipo de ambiente familiar favorável à educação (p. 73). Esse autor reconhece, entretanto, o caráter vago dessa noção no texto original da OCDE, mas ressalta a conclusão da autora inglesa de que esse tipo de família vai de tornando mais frequente conforme se sobe na escala social.

    Leia mais:
    Precisamos de uma sociedade “educógena”
    Ilona Becskeházy
    https://exequi.com/2017/01/16/precisamos-de-uma-sociedade-educogena/

    E uma família que não sabe educar em casa, também não sabe ser educógena, aliás uma questão que é cada vez mais relevante na avaliação do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) – Programme for International Student Assessment da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O mesmo PISA que nos coloca cada vez pior avaliados.

    Mas o que é competência?

    Eu defino como a soma de cinco palavrinhas:

    (1) educação, a educação que devemos receber em casa pela família (Ver Artigo 229 da Constituição), a qual não pode ser terceirizada ou desconsidera, como o fazemos.

    (2) ensino ou escolarização, a educação formal, obtidas através de entidades supervisionadas pelas secretarias municipais e estaduais de educação, e no nível superior pelo MEC – Ministério da Educação.

    (3) formação (treinamentos, estágios, visitas técnicas, on-the-job training, hangouts, congressos, seminários, encontros, painéis, Technical Papers, etc.). É a formação que cito neste texto, pois no Brasil ela tem sido disponibilizada pelas empresas, que assim aperfeiçoam a competência de seus profissionais, não apenas cobrando educação, ensino, habilidade e experiência.

    (4) habilidade (saber-fazer e saber-ser) e

    (5) experiência.

    ² Incubadora – são incubadoras de empresas os ambientes que proporcionam uma clara contribuição para o Sistema Nacional de Inovação, pois atuam como mecanismos catalisadores da pesquisa básica e aplicada geradas nas Universidades e centros de pesquisas e à demanda das empresas por produtos que atendam a diferenciação estratégica necessária para o atendimento às necessidades de mercado. Mais que oferecer suporte às iniciativas empreendedoras, as incubadoras oferecem um leque de serviços diferenciados, assessoria em gestão, suporte às ações mercadológicas, infraestrutura de qualidade, bem como um passaporte para o mercado exterior e contato com empresas âncoras e capitalistas interessados em investir em novas empresas.

    Em termos mundiais, o movimento de incubadoras de empresas tem crescido contínua e consistentemente. Em termos de quantidade, o que se observa é que cada vez mais países em desenvolvimento têm optado pela criação de incubadoras de empresas como estratégia de desenvolvimento econômico e social. Esses resultados têm proporcionado uma crescente ampliação de seus segmentos de atuação, bem como mais recentemente, dado espaço para o surgimento de novas modalidades de operação, a exemplo da incubação à distância e as próprias pré-incubadoras.

    No Brasil, segundo dados da ANPROTEC – Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores, existem de cerca de 400 incubadoras que articulam mais de 6300 empresas, entre incubadas (2800), associadas (2000) e graduadas (1500). Estas empresas geram mais de 33 mil postos de trabalhos altamente qualificados e produzem inovações reconhecidas nacional e internacionalmente na forma de contratos, premiações e parcerias.

    Em suma, incubadoras de empresas são ambientes planejados para auxiliar o nascimento, crescimento e desenvolvimento de empresas, assistidas por uma infraestrutura comum e, geralmente, na presença de uma universidade fornecedora de pesquisa básica e aplicada necessárias ao processo de inovação. Desta forma, não só a relação entre grandes empresas e as universidades gera inovação, mas também, as incubadoras por meio das spin-offs dos laboratórios das universidades transformam a tecnologia criada na pesquisa, em produtos, serviços, emprego e renda para a sociedade através da geração de empresas nascentes e inovadoras.

    ³ Startups – Muitas pessoas dizem que qualquer pequena empresa em seu período inicial pode ser considerada uma Startup. Outros defendem que uma Startup é uma empresa com custos de manutenção muito baixos, mas que consegue crescer rapidamente e gerar lucros cada vez maiores. Mas há uma definição mais atual, que parece satisfazer a diversos especialistas e investidores: uma Startup é um grupo de pessoas à procura de um modelo de negócios repetível e escalável, trabalhando em condições de extrema incerteza.

    Apesar de curta, essa definição envolve vários conceitos:

    – Um cenário de incerteza significa que não há como afirmar se aquela ideia e projeto de empresa irão realmente dar certo – ou ao menos se provarem sustentáveis.

    – O modelo de negócios é como a startup gera valor – ou seja, como transforma seu trabalho em dinheiro. Por exemplo, um dos modelos de negócios do Google é cobrar por cada click nos anúncios mostrados nos resultados de busca – e esse modelo também é usado pelo Buscapé.com. Um outro exemplo seria o modelo de negócio de franquias: você paga royalties por uma marca, mas tem acesso a uma receita de sucesso com suporte do franqueador – e por isso aumenta suas chances de gerar lucro.

    – Ser repetível significa ser capaz de entregar o mesmo produto novamente em escala potencialmente ilimitada, sem muitas customizações ou adaptações para cada cliente. Isso pode ser feito tanto ao vender a mesma unidade do produto várias vezes, ou tendo-os sempre disponíveis independente da demanda. Uma analogia simples para isso seria o modelo de venda de filmes: não é possível vender a mesmo unidade de DVD várias vezes, pois é preciso fabricar um diferente a cada cópia vendida. Por outro lado, é possível ser repetível com o modelo pay-per-view – o mesmo filme é distribuído a qualquer um que queira pagar por ele sem que isso impacte na disponibilidade do produto ou no aumento significativo do custo por cópia vendida.

    – Ser escalável é a chave de uma startup: significa crescer cada vez mais, sem que isso influencie no modelo de negócios. Crescer em receita, mas com custos crescendo bem mais lentamente. Isso fará com que a margem seja cada vez maior, acumulando lucros e gerando cada vez mais riqueza.

    Os passos seguintes

    É justamente por esse ambiente de incerteza (até que o modelo seja encontrado) que tanto se fala em investimento para startups – sem capital de risco, é muito difícil persistir na busca pelo modelo de negócios enquanto não existe receita. Após a comprovação de que ele existe e a receita começar a crescer, provavelmente será necessária uma nova leva de investimento para essa startup se tornar uma empresa sustentável. Quando se torna escalável, a startup deixa de existir e dá lugar a uma empresa altamente lucrativa. Caso contrário, ela precisa se reinventar – ou enfrenta a ameaça de morrer prematuramente.

    As Startups não são necessariamente empresas de internet. Elas só são mais frequentes na Internet porque é bem mais barato criar uma empresa de software do que uma de agronegócio ou biotecnologia, por exemplo, e a web torna a expansão do negócio bem mais fácil, rápida e barata – além da venda ser repetível. Mesmo assim, um grupo de pesquisadores com uma patente inovadora pode também ser uma Startup – desde que ela comprove um negócio repetível e escalável.

    Conclusão:

    O tema é polêmico, por certo, o problema é que temos uma parcela significativa dentro de nossa sociedade que não sabe relacionar causa e efeito, abrange por certo toda a esquerda, mas a ela se soma uma parcela que não se interessa sobre a economia, mas deveria. Até mesmo Jesus Cristo o fez. E com sabedoria.

    Muitas pessoas pensam que dinheiro não é algo muito espiritual. Todavia, a Bíblia fala muito a respeito de dinheiro. Existe uma estatística muito interessante que comprova esse fato. No Novo Testamento existem 215 versículos que falam a respeito de fé, 218 versículos que falam de salvação e 2084 versículos a respeito de finanças e dinheiro.

    Em outras palavras, o Novo Testamento fala dez vezes mais de dinheiro do que de salvação. As pessoas concordam que a salvação é um tópico muito importante, eu entendo como essencial, mas, das 28 parábolas de Jesus 16 falam sobre dinheiro. Ele busca nos orientar como trabalhar com ele, pois ele é e deve ser resultado do que herdamos de nossos pais, ou dos que nos amam, e é fruto de nosso trabalho, de nosso talento, de nossos dons, de nosso empreendedorismo, de nosso mérito, de nossa criatividade, de nossa capacidade em inovar, de nossa dedicação, usw..

    Porque Jesus falou tanto a respeito de dinheiro? Será que Jesus estava atrás de dinheiro? Será que ele veio a esta Terra a procura de dinheiro? É claro que a resposta é não. Jesus não está interessado em dinheiro.

    Ele está interessado em nossos corações.

    Se ele está interessado em nossos corações, então porque ele falou tanto de dinheiro? Simplesmente porque as pessoas possuem muitos tesouros e riquezas. E Jesus disse que onde estiver o nosso tesouro, ali também estará o nosso coração. O coração sempre vai atrás do tesouro. Se existe algo que valorizamos e que é importante para nós, não importa o que seja, o nosso coração vai atrás dele.

    Quem matou a charada foi o Dr. Martin Luther, e não só ele, como também Santo Agostinho (das Confissões), Santo Inácio de Loyola, …

    “Para que, tanto o que dá os Exercícios como o que os recebe, se ajudem mutuamente e tirem maior proveito, deve-se pressupor que todo bom cristão está mais pronto a salvar uma proposição do próximo do que a condená-la. Se não pode justifica-la, pergunte como é que ele a entende; se a entende mal, corrija-o com amor; se isso não basta, procure todos os meios convenientes para que a entenda bem e assim se salve”. Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, n.º 22

  3. Devemos acha um meio de melhor coexistirmos, ajudando a todos indistintamente, São só rótulos: direita esquerda, comunismo, liberalismo, socialismo, monarquia, republica, parlamentarismo…tudo blá blá blá… Invenções, idéias para controlar pessoas…. Pensem nesse mundo como um grande navio afundando e não há boiá… A ganancia humana é sua destruição.
    Todas boas invenções para o bem, foram transformadas para destruir pessoas.
    O ser humano é mau por excelência.
    Só se volta para o bem quando obrigado a faze lo, e na sua maioria egoistamente.

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