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Para responder essa pergunta, que tal uma historinha?

Na terra de Biralândia, há apenas duas cidades: Birabora, com 300 mil habitantes, e Biraborinha, com 200 mil habitantes. As duas ficam a 20km de distância uma da outra, e não há estrada asfaltada que as conecte. A única opção que têm aqueles que desejam ir de uma cidade a outra é por uma estrada de terra batida.

birabora e biraborinha

As pessoas que têm amigos e parentes na cidade vizinha gostariam que houvesse uma rodovia interligando as cidades, de modo a tornar mais rápida, confortável e segura a viagem. A questão é: eles estariam dispostos a pagar por ela?

Os interessados pediram a uma grande empreiteira da região que estudasse a viabilidade da obra. A primeira coisa que ela estimou foi o custo do empreendimento. Calculou que a construção da rodovia custaria inicialmente R$ 20 milhões, e depois mais R$ 1 milhão por ano de manutenção.

Os juros nessa economia são de 10% ao ano, então a empreiteira tinha a opção de aplicar os R$ 20 milhões iniciais em investimentos financeiros e receber rendimentos de R$ 2 milhões por ano. Logo, o negócio só será seu melhor investimento se ela obtiver receita igual ou superior a R$ 3 milhões anuais (somando-se o que estaria deixando de receber da aplicação financeira com seus gastos de manutenção). Por fim, a empresa fez uma pesquisa entre os potenciais usuários para estimar o tráfego esperado nessa rodovia.

Hoje ocorrem cerca de 450.000 viagens anuais. Estima-se que com a estrada asfaltada, esse número aumentaria para 700.000, se continuasse de graça. Mas, ao se cobrar por seu uso, esse número diminui progressivamente conforme a tabela e os gráficos abaixo.

Tarifa Viagens Receita
R$ 0 700.000 0
R$ 1 450.000 450.000
R$ 2 360.000 720.000
R$ 3 300.000 900.000
R$ 4 250.000 1.000.000
R$ 5 184.000 920.000
R$ 6 135.000 810.000
R$ 7 92.500 647.500
R$ 8 57.500 460.000
R$ 9 30.000 270.000
R$ 10 1.000 10.000

gráficos tarifa e pedágio

Podemos ver que a maior receita que a empresa poderá obter é cobrando uma tarifa de R$ 4, e que mesmo assim sua receita será de apenas R$ 1 milhão. Se cobrar tarifa menor, o aumento no fluxo de viagens não compensa a diminuição no valor da tarifa; e se cobrar mais do que isso, haverá uma queda no fluxo que será maior do que o aumento no valor da tarifa.1 A empreiteira conclui, portanto, que o negócio não é lucrativo e desiste de realizá-lo.

Aqui muita gente acha que se há demanda pela estrada, mas não há empresa querendo construí-la, então o governo deve entrar como empresário e realizar a obra. Vamos seguir na história por esse cenário. O governo de Biralândia precisará emitir títulos públicos para arrecadar os R$ 20 milhões iniciais (afinal, nem para o governo dinheiro é de graça), sobre os quais pagará os mesmos 10% de juros ao ano. A manutenção também será de R$ 1 milhão anual, e chegamos portanto nos mesmos R$ 3 milhões de custo total anual.

O governo cobrará R$ 4 por passagem, e isso garantirá receita de R$ 1 milhão por ano. Os outros R$ 2 milhões serão recolhidos por impostos da população. Como as duas cidades juntas têm 500 mil habitantes, o imposto será de R$ 4 por habitante. Repare como esse é o mesmo valor da tarifa. Pode parecer pouco, mas muita gente que faria a viagem de graça (700.000 viagens estimadas) decidiu não fazê-la porque achou essa tarifa muito cara (apenas 250.00 viagens estimadas a R$ 4). Agora elas serão obrigadas a pagar essa mesma tarifa, e sem fazer a viagem!

Arena Amazônia, em Manaus, AM.
Arena Amazônia, em Manaus, AM. Só sua construção custou ao governo do estado R$ 674 milhões , ou R$ 173 por habitante — equivalente a até 17 ingressos para partidas do campeonato amazonense As pessoas de Parintins , segunda maior cidade do Amazonas, a 369 km de mata fechada da capital, também pagaram por seus ingressos de mentirinha.

O que aconteceu, então? Aconteceu que as pessoas que queriam a estrada não queriam-na o suficiente para pagar por ela. Mas elas encontraram um meio de obrigar outras pessoas — ainda menos interessadas — a assumir parte do custeio e diminuir a tarifa. O fato de o governo ter assumido a obra não altera em nada sua receita ou seus custos, e se nenhuma empresa tem interesse em investir no projeto, por que teria a população?

Aqui ainda estamos analisando um caso em que pelo menos parte dos gastos é bancada pelo usuário, o que nem sempre é verdade. Quando uma pessoa está decidindo se reforma ou não sua casa, avalia a questão por custo e benefício. Nem sempre ela decide fazer a reforma, às vezes prefere continuar como está. Mas quando o governo se oferece para realizar uma obra, é como o síndico decidir se usa fundos do condomínio para reformar seu próprio apartamento — sempre vale a pena!


1 O gráfico de receita por tarifa sempre terá um ponto máximo — até o qual a receita sobe, e a partir do qual a receita desce. Se a tarifa for R$ 0, a receita também será zero. Se a tarifa for absurdamente alta, o número de viagens será igual a zero, então a receita também será zero. Mas se houver alguma tarifa pela qual alguém queira fazer a viagem, isso implica que a tarifa de receita máxima será em algum lugar entre R$ 0 e a tarifa absurdamente alta, o que corrobora o formato da curva verde no segundo gráfico.

Sobre o Autor

Presidente da Academia Liberalismo Econômico, é formado em economia pela FEA-USP com especialização em estatística pela FIA-USP. Dentro da economia, tem interesse especial por microeconomia e história econômica. Também gosta de estudar história geral e filosofia.

6 Comments

  1. Queria ver exemplos envolvendo educação ou saúde, e não transportes. Uma pessoa pode se recusar a fazer uma viagem porque o custo não compensa, mas quando você não consegue custear um tratamento hospitalar você morre. Um hospital em uma cidade pequena é inviável economicamente, mas não é socialmente. E quando você divide os custos com quem não utiliza o serviço (impostos obrigatórios), você o torna mais barato para todos, de modo que alguém que ganhe menos consiga pagar. No caso da educação, é a mesma situação, sendo que as crianças educadas hoje entrarão na cadeia produtiva do estado amanhã, sendo viável economicamente a longo prazo, apesar de não sê-lo a curto. E utilizando essa mesma lógica, o estudo acima falha em não englobar os ganhos econômicos que ambas as cidades (e o país) obteriam com uma estrada facilitando o comércio na região.

  2. Mário, você tem razão, mas veja que a solução pra isso existe, são os planos de saúde, que são tão caros por conta do Estado.

  3. É por esses pensamentos mágicos de que a sociedade poderia viver na anarquia capitalista que não conseguiremos ter um estado enxuto e eficiente. Algumas pessoas querem mais estado e isso é ruim, mas ao invés de lutar para melhorar o que temos as pessoas querem a mágica utópica da revolução, de acabar com tudo e começar do zero, como defendiam os comunistas. E se vocês não gostam de dividir custos, saíam dos condomínios em que vivem e vão morar sozinhos, pois estão pagando por algo que não usam, cancelem o plano de saúde e tirem o dinheiro do banco…

  4. Tem um erro muito grande. O autor está descartando o fato de que uma rodovia trará outros benéficios para quase todos os habitantes da outra cidade, mesmo que eles não usem a pista asfaltada diretamente, estão sendo beneficiados indiretamente.

    Ex: Na cidade A tem um supermercado que vende frutas trazidas da cidade B pela estrada de chão batido chegando ao consumidor final por $10 o quilo. Vamos supor que na estrada ruim, o caminhão gaste mais combustível, o transporte demora mais e o veículos sofre mais danos do que se a estrada fosse de asfalto, por isso o custo de transporte de um quilo sai a $4 por quilo. Após a construção da nova estrada, usando impostos, o custo de transporte seja 2,50. Logo a população que não usa a estrada também acabou sendo beneficiada pela pista de asfalto.
    Esse é um exemplo muito simples, mas há muiiiiiiitas coisas envolvidas na construção dessa estrada de asfalta, no final das contas a maioria das pessoas saem ganhando e apenas um parcela muito pequena sairia perdendo.

    Eu sou a favor do estado mínimo, mas existência do estado de um pouco de impostos são essências.
    Ninguém é obrigado a morar no estado que arrecada impostos.
    Quando a pessoa vai morar num país está praticamente aceitando um contrato.
    As vezes a pessoa pode até não ser beneficiada diretamente pelo o imposto que paga hoje, mas nunca se sabe se a pessoa que hoje pode pagar por serviços não vai precisar usar a rodovia, o hospital ou escola, algum dia.

    É claro que tem um limite de para o que os impostos devem ser usados.
    Porém eu não me importo em pagar impostos para o estado manter coisas básicas para garantir a sobrevivencia do população (que apesar de trabalhar não tem capacidade chegar a ter condições de pagar um tratamento de um cancer) como hospitais, escolas, rodovias, segurança, proteção contra danos ambientais(como a poluição de um rio).

    O que não pode são impostos para pagar serviços que poderiam ser privados(os quais ninguem morreria se não pudesse pagar para ter acesso), uma rama de funcionarios que não produzem nada, salarios altos de deputados, vereadores e prefeitos.

    Esse texto ficou mal escrito, terei vergonha de por meu nome kkkkk

  5. Complementando essa merda de texto que escrevi:

    Ninguém morre mais fácil diretamente se não tiver estrada.
    Quando for viável que a estrada seja privada eu concordo plenamente que ela o seja.

    A verdade é que tem uma rama de serviços publicos que quase impossivel de ter a solução privada, por isso sou a favor de cobrança de imposto e leis mais duras para combater a corrupção.

    As pessoas que não concordarem em pagar impostos para manter serviços como os abaixos devem procurar um lugar onde não cobre impostos para tal.

    A limpeza e varredura das ruas – este serviço é feito pelos garis, eles são responsáveis pela limpeza das ruas, calçadas e bueiros.
    A coleta de lixo – este serviço é feito em caminhões por funcionários que passam nas casas recolhendo todo o lixo, eles são responsáveis pela limpeza das vias públicas.
    A iluminação das cidades – é necessário fazer uma manutenção deste serviço com certa frequência, observando os locais onde é necessário colocar postes e estar sempre observando as lâmpadas que devem ser trocadas quando não estão funcionando.
    O saneamento básico – todas as cidades devem ter saneamento básico e é necessária uma manutenção frequente.
    A pavimentação das ruas – todas as ruas devem ser pavimentadas para que seja facilitado o acesso.
    Postos de saúde e hospitais públicos – é preciso construir e manter o bom funcionamento destes, para que a população tenha o serviço quando necessário.
    Creches, escolas e bibliotecas públicas – é preciso construir e manter o bom funcionamento destas, a população tem direito a educação.
    Praças e parques – é necessária a construção e manutenção para que a população tenha uma forma de lazer e diversão.
    Cuidar da beleza física da cidade – é necessário arborizar, pintar, fazer jardins nas ruas, mantendo-a bonita e organizada.
    Estação de tratamento de água e esgoto – as cidades precisam ter essa estação e mantê-la em bom funcionamento.

  6. jandui paulino de araujo - Responder

    TRISTE ECONOMIA, AGONIZANTE NAS MÃOS DE INFELIZES E BURROS ALGOSES, NÃO SABEM ELES, QUE TAMBÉM ESTÃO SENDO LESADOS PELA MÁ ADMINISTRAÇÃO QUE FAZEM “deste país”.
    OLHA! JESUS, ACREDITO, TER BATIZADO TODO UM POVO, MAS A ESTE QUE SOMOS brasil… acho que não.

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