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“Os traços de medo e ganância são o que o mercado traz à proeminência”, argumenta G.A. Cohen em Why Not Socialism?1 “Cada um predominantemente vê os demais atores do mercado como possíveis fontes de enriquecimento, e como ameaças a seu sucesso.”

Cohen nota mais a frente que essa é “uma maneira horrível de ver outras pessoas” e que é o “resultado de séculos de civilização capitalista.”

Como seria bom se vivêssemos em outro sistema econômico onde as pessoas vissem umas às outras como irmãos e irmãs em empenho conjunto, e não como competidores que lutam para pegar a maior fatia do bolo.

Implicitamente inspirada na ideia marxista de que as forças e relações de produção determinam as ideias que as pessoas têm e o modo como elas se comportam, essa crítica imagina que a competição é uma característica contingente da interação humana causada pelo capitalismo.

Mas é mesmo? Nós só somos competitivos porque o capitalismo nos faz assim?

Em contraste, considere uma anotação que tenho para a aula em que começamos a falar de competição no meu de curso Introdução à Economia: “Competição não é um produto de vivermos em uma sociedade capitalista — é um produto de não vivermos no paraíso.”

Apesar dos sonhos dos socialistas, competição não vai acabar tão cedo. Enquanto recursos forem escassos e nem todos os nossos desejos puderem ser satisfeitos, a humanidade precisará de alguma maneira de determinar quem fica com quais bens.

Competição entre Maneiras de Competir

Suponha por um momento que queremos descobrir a melhor maneira de alocar bens para os consumidores. Em uma economia de mercado, permitimos que as pessoas compitam através de preços para tentar adquirir as coisas que pensam ser melhor para elas. Mas conseguimos imaginar outras formas de alocar esses bens. Podemos pedir para as pessoas fazerem fila. Ou talvez pudéssemos tentar descobrir quem merece mais. Ou talvez fazer a alocação puramente pela decisão de agentes públicos. Ou decidimos no estilo Clube da Luta. Isso acabaria com a competição?

acampamento
Fãs acampando para assistir ao show do One Direction em Londres.

Creio que não. Tudo o que esse métodos fariam acontecer seria desviar a competição para formas menos produtivas. Por exemplo, se distribuíssemos os recursos na base do “leva quem chegar primeiro”, alguém duvida que haveria gente descobrindo novas maneiras de competir por um lugar no começo da fila? Ou pense nas pessoas que acampam para eventos esportivos ou shows e o custo de oportunidade do tempo que elas perdem esperando ao invés de fazer outras coisas.

Ou se fosse pela investigação de quem merece mais, as pessoas não iriam simplesmente competir em relação a qual deveria ser o critério moral escolhido — e depois competir para demonstrar que elas merecem os bens mais do que os outros?

Imagine se um comitê de planejadores econômicos dissessem que distribuiriam recursos às pessoas que fossem as mais honestas. Não nos surpreenderia ver que as pessoas começariam a gastar recursos para convencer os planejadores que produtividade ou inteligência são mais importantes do que honestidade para a distribuição de recursos, nem nos surpreenderia se elas então competissem para provar aos planejadores que são os mais honestos, produtivos ou inteligentes. Todas essas formas de competição desperdiçam recursos quando comparados à competição por consumidores no mercado.

Ou imagine bens sendo distribuídos por decretos governamentais. As pessoas não descobririam novas e criativas maneiras de competir em convencer os agentes públicos responsáveis a favorecê-los? Aliás, não é exatamente isso que vemos hoje quando lobbystas competem para obter favorecimentos governamentais de legisladores e agentes públicos? O rent-seeking que acontece em Washington e nas capitais dos estados é apenas mais uma forma de competição — favorecendo políticos ao invés de clientes.

Se os recursos forem distribuídos por “quem pode, leva”, podemos facilmente imaginar a competição que haveria para as pessoas terem as melhores armas e armaduras, ou ir para a academia obter a força e resistência que precisarão para sobreviver à luta. Isso também é competição, mas de um tipo muito diferente.

terra de Cockaigne
Terra de Cockaigne, pintura de Pieter Bruegel, the Elder.

Enquanto bens e serviços forem escassos em relação aos desejos, decisões terão de ser feitas e involverão algumas das pessoas não obtendo acesso a esses bens. O fato da escassez é o que faz a competição onipresente. E se há um paraíso, uma das características que o define é certamente a ausência de escassez. A humanidade sempre sonhou com a Terra de Cockaigne onde frangos assados voam para nossas bocas e os mares são feitos de limonada. Até que esse paraíso chegue na terra, alguma forma de competição será a regra do recinto.

No que a Competição de Mercado é Melhor?

Se teremos competição, por que preferir uma forma e não outra?

A competição que vemos no mercado tem a importante vantagem de criar benefícios para o resto da sociedade, e não só para os competidores.

aperto de mãos

Considere o rent-seeking. É verdade que o acordo entre o lobbysta e o político é mutuamente benéfico. O rent-seeker, quando tem sucesso, obtém recursos alocados em sua direção, enquanto o político recebe os almoços grátis e a bajulação do rent-seeker — além de uma possível influência no rent-seeker mais para frente.

A competição associada com o rent-seeking, no entanto, não beneficia mais ninguém. De fato, toda a crítica ao comportamento de rent-seeking é que o gasto de recursos para gerar transferências de riqueza — não para criar nova riqueza — é socialmente dispendioso. Estaríamos melhor se aqueles recursos fossem usados para produzir novos e melhores produtos, e não para persuadir terceiros a lhes transferir riquezas, ou para reduzir a riqueza dos outros.

Argumentos parecidos também são verdadeiros para todas as outras forma de competição, exceto o mercado. Todas elas envolvem usar recursos de maneiras que não beneficiam a sociedade como um todo porque não criam riqueza. Tudo o que fazem é desviar recursos de outros fins para serem usados na tentativa de transferir riqueza que já existe para uma pessoa ou grupo.

Por Que Competição de Preços?

O outro problema com todas aquelas formas de competição é que ignoram a pergunta sobre de onde vêm os recursos. Não há conexão alguma entre a distribuição de recursos (e a forma de competição que a determina) e a oferta desses recursos.

Produção de carros

Ou ainda, como qualquer daqueles processos criam os sinais e incentivos necessários para saber o que produzir e como produzir de modo a haver oferta de bens no futuro? Pense na distribuição estilo Clube da Luta. Se todos estão ocupados dando porrada um no outro para receber os recursos existentes, que incentivo isso cria para alguém produzir qualquer coisa se ele terá de gastar ainda mais recursos para defender qualquer riqueza que ele tenha criado? Como poderia alguém saber o que produzir nesse mundo, e por que alguém iria querer produzi-lo para começar?

Em um sistema em que a competição ocorre através da oferta de dinheiro para adquirir recursos, aparecem os preços, que servem tanto como incentivo para a produção contínua como de informação sobre o que produzir. Quando compradores competem com compradores para adquirir um bem e com isso puxam seu preço para cima, isso diz a produtores atuais e potenciais que esse bem é mais valioso e que eles deveriam produzir mais dele. Competição similiar para insumos de um processo produtivo informa outros produtores sobre o que eles devem e não devem usar para fazer diversos bens e serviços.

Competição através de preços conecta a competição pela distribuição de bens com a produção de bens de uma maneira que nenhuma outra forma de competição consegue fazer. Desse modo, a competição de mercado beneficia não apenas as partes diretamente envolvidas na competição, mas todos nós ao incentivar a produção contínua de bens de forma a economizar recursos.

Escassez é uma característica que define a condição humana, e escassez significa que haverá competição para decidir quem fica com o quê. O capitalismo de mercado tem a grande vantagem de canalizar essa competição pelo sistema de preços, que não apenas garante uma oferta contínua de bens mas também incentiva sua produção eficiente.

Podemos não estar no paraíso, mas a competição pacífica e mutuamente benéfica do mercado é certamente paradisíaca comparada às alternativas.


1. Por Que Não Socialismo?, em tradução livre. (N. do T.)


Esse artigo foi originalmente publicado como There’s No Escaping Competition para o Foundation for Economic Education e está sob a Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.

Sobre o Autor

Professor de Economia na St. Lawrence University e autor de Microfoundations and Macroeconomics: An Austrian Perspective.

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