facebook_pixel

Na primeira vez em que viram a variedade exibida em nossos supermercados, os emigrantes ou ficaram sem reação com a quantidade de escolhas à sua frente, ou encheram seus carrinhos selvagemente, pois acreditavam que as prateleiras estariam vazias no dia seguinte. Isso foi nos anos 80, quando uma onda de expatriados fugiu da União Soviética para os Estados Unidos. Muitos deles tiveram famílias hospedeiras para ajudá-los a se adaptar à vida americana, e foi de alguns dos hospedeiros que eu ouvi sobre esses primeiros encontros com a abundância comercial da América.

Esses emigrantes somente podiam entender o que viam dentro do contexto de suas crenças da época no planejamento central. Muitos podem ter pensado inicialmente que os Estados Unidos tinham planos quinquenais incrivelmente eficazes. O que mais poderia explicar tanta fartura? Eles ficavam emudecidos quando ouviam dizer que nenhum oficial do governo apontava onde um supermercado deveria abrir, o que ele deveria ter em estoque, de quem ele deveria comprar a mercadoria, ou as horas que ficaria aberto.

Na União Soviética, quando o alimento ia para a mesa da cozinha, era o resultado de comando e controle. Com base em suas experiências, a ideia de que a ordem poderia emergir sem o planejamento central parecia inconcebível.

Pôster soviético: "Vamos cumprir o plano quinquenal em quatro anos!"
Pôster soviético: “Vamos cumprir o plano quinquenal em quatro anos!”

Considere este experimento mental. É 1980 em Moscou. Em uma reunião institucional de planejamento, alguém diz: “Camaradas, nós precisamos de menos planejamento, não mais. Se abrirmos mão de fiscalizações e estabelecermos direitos de propriedade, o livre-mercado vai abastecer nossos mercados com profusão, com preços mais baratos do que conseguiríamos imaginar. Temos apenas que sair do caminho.”

Imaginem as respostas se outros se juntassem a ele em discurso pensativo: “Camarada, você propõe uma fantasia. Quem ordenaria aos fazendeiros o que plantar e o quanto plantar? Quem organizaria a colheita de alimentos?” (Alimentos muitas vezes apodreciam em plantações soviéticas por falta de colhedores.) “Quem organizaria o transporte? E até aí nossos problemas estariam apenas começando. Quem organizaria o fornecimento e distribuição? Como saberíamos o quanto de pão e salsicha teríamos que produzir?”

A única resposta possível seria esta: “Nós não precisamos responder estas questões. O sistema de livre-mercado dará respostas para todas estas perguntas sem precisar de nada de nós. Alem disso, em um mercado livre, as decisões serão atualizadas continuamente, de acordo com o que nosso país precisar no momento.”

Claro que, isto é uma fantasia. Na união Soviética, o teimoso problema de escassez de alimentos foi criado por uma crença de que controle era necessário; eles não tinham habilidade para olhar para a escassez de alimentos por fora do sistema de crenças que estava causando o problema. Se esforço produzia poucos resultados, mais esforço, mais planejamento, controle, manipulação e coerção pareciam ser necessários. Eles podem ter pensado que melhores dados, melhores interpretações dos dados, melhor transmissão de ordens, e mais cumprimento das ordens melhoraria a distribuição de alimentos.

Einstein nitidamente descrevia a impossibilidade de tentar resolver problemas intratáveis dentro do nosso sistema de crenças atual: “O mundo que construímos, como um resultado do nosso nível de pensamento até agora, cria problemas que não conseguimos resolver no mesmo nível no qual nós os criamos.”

Claro que, nos Estados Unidos, nós não escapamos da falha humana descrita por Einstein. Por exemplo, muito já foi escrito sobre problemas em nosso sistema de escolas públicas. As soluções propostas permanecem firmemente dentro do reino das crenças comumente aceitas, tomando formas familiares de se gastar mais dinheiro ou assegurando a entrega de uma grade curricular padronizada.

Dentro do sistema de crenças atual, propostas de quebrar o monopólio aumentando as opções encontram a mesma resistência que a proposta de romper a distribuição estatal de alimentos na antiga União Soviética.

Quais crenças temos sobre a origem da ordem que nos causam tanta dependência de planejamento e controle?

Em seu ensaio “Cosmos and Taxis” no Volume 1 de Law Legislation and Liberty, F.A. Hayek nos aponta em uma direção que talvez não tenhamos considerado. Ordem, Hayek explica, pode ser um fenômeno espontâneo além do controle de qualquer pessoa ou qualquer grupo de pessoas.

Ordem, gerada em um mercado que ninguém regulamenta, produz abundância. Olhando dentro do nosso cesto no mercado, não temos como conhecer e não precisamos conhecer todos os fazendeiros e especialistas em alimentos cuja cooperação contribui para as nossas refeições. Ordem espontânea tem um “grau de complexidade”, Hayek instrui, que “não é limitado ao que a mente humana consegue compreender.”

Ordem espontânea é a ideia de que ordem pode emergir naturalmente, sem que haja um planejador central que coordene os atores.
Ordem espontânea é a ideia de que ordem pode emergir naturalmente, sem que haja um planejador central que coordene as ações dos diversos atores.

É importante ressaltar que, ordens espontâneas não emergem para servir qualquer um propósito em particular. Nas palavras de Hayek, a ordem espontânea apoia “nossa busca bem sucedida de uma variedade de diferentes propósitos”. Cada um de nós é livre para apreciar nossa própria refeição favorita, de dieta paleo até a vegana, e o mercado irá nos fornecer os ingredientes necessários para fazer essas escolhas.

Acreditar na possibilidade de ordem espontânea nos dá uma lente que é essencial se vamos interpretar aquilo que está além do poder da nossa mente de compreensão plena. Einstein famosamente disse: “Se você pode observar algo ou não, depende de qual teoria você usa. É a teoria que decide o que pode ser observado.”

Nós acreditamos em algo maior do que os limites de nossa própria mente e pensamento?

A maioria de nós está confortável com o tangível — aquilo que podemos ver e manipular. Para estar confortável com a liberdade econômica, precisamos entender que as soluções para nossos problemas emergem da cooperação espontânea de muitos indivíduos tomando suas decisões independentes, sem ter conhecimento da rede de intercâmbios da qual eles são uma pequena parte.

Aqueles sem nenhum entendimento de ordem espontânea muitas vezes se tornam o que Hayek em “Cosmos and Taxis” chamou de “reformadores indignados” que reclamam do “caos dos assuntos econômicos”.

O que melhor guia a cooperação humana para satisfazer melhor as necessidades humanas? Na União Soviética, não havia nenhum mecanismo disponível a não ser a mão pesada do Estado. “Reformadores indignados” no nosso próprio país estão nos marchando pelo mesmo caminho. Acreditar na ordem espontânea é o outro caminho. Toda a prova que você precisa para fazer a melhor escolha está na mesa da sua cozinha.


Esse artigo foi originalmente publicado como But Who Will Stock the Supermarkets? para o Foundation for Economic Education.

Sobre o Autor

Barry Brownstein é professor emérito de economia e liderança na University of Baltimore. É autor de The Inner-Work of Leadership e escreve nos blogs BarryBrownstein.com, Giving up Control, e America’s Highest Purpose.

2 Comments

  1. Marco Antônio Mourão - Responder

    Acredito que onde consta emigrante, o correto deva ser imigrante.

    • Em inglês, o autor usou a palavra francesa ‘émigré’, que é melhor traduzida para emigrante. Emigrante é quem abandona um país, imigrante é quem chega a um novo país. Na verdade, todo emigrante é também um imigrante, então não faria diferença trocar.

Responder

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Close