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Uma das explicações mais famosas descritas por Bastiat é a falácia da janela quebrada.  Bastiat não era somente um excelente economista, era também um exímio contador de estórias.  O argumento cita o filho de um carpinteiro, Jacques Bonhomme, que, ao jogar bola, quebra uma janela.  O carpinteiro então, teria que contratar os serviços do vidraceiro e comprar o vidro.  O vidraceiro, por sua vez, fica contente na mesma proporção da fúria de Jacques Bonhomme.  Ele compra seu jornal, leite, sustenta a sua família.  O jornaleiro, o leiteiro, o padeiro, todos fazem o mesmo.  A economia gira em função da janela que se quebrou.  O que seria então, do vidraceiro se as janelas não se quebrassem?  O que seria do comerciante de vidros?  E a economia?

Frédéric Bastiat
Frédéric Bastiat

Assista ao vídeo sobre a falácia da janela quebrada aqui. (clique em cc para legendas em português).

Bastiat nos esclarece que não devemos nos ater ao que é facilmente observado, ou nas palavras de Bastiat, “ao que se vê.”  Não há dúvidas que muitas políticas públicas são muito bem intencionadas.  Mas todas elas, sem exceção, caem na mesma falácia.  É fácil observar o bem que é feito com o dinheiro que é dado pelo governo para um determinado programa.  É difícil porém, observar o que seria feito com esse dinheiro na mão do contribuinte.

Bastiat supõe que o conserto da janela poderia custar seis francos.  O vidraceiro que fez o serviço ganhou seis francos.  A indústria de vidros, por sua vez, cresceu na proporção de seis francos.  O que poderia o carpinteiro fazer com seis francos se não gastá-los com uma janela? Como medir o benefício do gasto desse dinheiro em outros fins?  E se o carpinteiro comprasse roupas para o seu filho, ou quem sabe, investisse o dinheiro na ampliação do seu negócio?  Ou poderia, quem sabe, comprar sapatos novos.  Não estaria assim incentivando o mesmo tipo de benefício social do que foi feito com a quebra da janela?

O problema é que esse tipo de benefício é mais difícil de ser visto.  “É o que não se vê.”  Se Jacques Bonhomme gasta seus seis francos com sapatos, o sapateiro enriquece na proporção de seis francos.  Se deixa de incentivar a indústria de vidros, incentiva a indústria de sapatos.  Quando ele não é obrigado a gastar, ele não é reduzido a ter “um só prazer em vez de dois.”  Está feliz que tem o vidro e passa a ter também um par de sapatos.  Bastiat, em sua obra, nos alerta para o argumento óbvio que procede dessa situação – mas e se o carpinteiro economizasse os seus seis francos ao invés de gastá-los?  O que seria então da economia do país?  Esse argumento se encaixa a todos nós.  Qual o impacto econômico da parte do nosso dinheiro que nós não gastamos?

Poupança

O valor que nós gastamos hoje, não estará disponível para gastarmos amanhã.  Pelo ponto de vista inverso, o dinheiro que economizamos hoje, poderemos gastar no futuro.  Muitas vezes, deixamos de consumir algo no presente para consumirmos esse bem em maior quantidade ou até mesmo qualidade em alguns anos.  Outras vezes, nos endividamos para consumir hoje, considerando que um bem é importante o suficiente para valer os juros que pagamos, ou o comprometimento com uma renda que ainda não recebemos.  Todas essas considerações sobre quando gastar compõe o que chamamos de decisão de preferência temporal.

Bastiat reflete sobre a preferência temporal com a estória de Mondor e seu irmão Aristo, que receberam e repartiram igualmente uma herança de 100 mil francos.  Mas há uma diferença entre o ponto de vista dos dois irmãos.  Mondor é perdulário, gastando em coisas triviais, comprando móveis e carroças, enquanto Aristo é mais comedido com a sua parte da herança.  Ele pensa cautelosamente em cada gasto, pensa no futuro dos filhos, modera seus gastos.  Aristo “se não é um egoísta, é, pelo menos, um individualista.”  Mas aos olhos dos observadores menos cautelosos, Mondor é tido como benfeitor, pois ao gastar, gera empregos imediatos para pessoas que tanto precisam. Aristo, por outro lado, é mal falado.  Ao invés de gastar e girar a economia, economiza para a sua família.

Ao examinar o impacto das escolhas de ambos, como Bastiat elabora em sua estória, veremos que a verdade não é bem assim.  Aristo também é boa pessoa.  Ele também dedica certa parte de sua renda à caridade para os mais necessitados e até mesmo uma parte para ajudar os amigos.  E, obviamente, também incorre certas despesas no seu dia a dia.  Aristo, além de ter um compromisso moral com sua família, também é mais útil a sociedade como um todo do que seu irmão.  “Se os homens tivessem que optar entre dois partidos, dos quais um ferisse os seus interesses e o outro, sua consciência, só nos restaria a desesperança no futuro.  Felizmente, não é assim.”  Há uma coerência nas ações das pessoas prezando seus próprios interesses e o benefício social que isso gera.  Aristo é superior a seu irmão tanto moralmente como economicamente, pois “poupar é gastar.”  Ao economizar, Aristo deseja melhorar a sua condição futura, aumentando seu patrimônio financeiro com valorização de suas propriedades e com juros auferidos sobre seus investimentos.  Para isso, disponibilizará parte de seu dinheiro a empréstimos, para que sejam gastos por terceiros.  Outra parte do seu capital ele investe em ações de empresas.

De qualquer forma, o dinheiro economizado por Aristo coloca comida na mesa do pequeno empreendedor, incentiva o crescimento da indústria, e gera emprego ao trabalhador.

Jorge Guinle
Jorge Guinle
Warren Buffett
Warren Buffett

Mondor me remete à história de Jorge Guinle.  O playboy brasileiro gastou dinheiro da mesma forma que o personagem e assim como ele, incentivou o comércio e desfrutou do luxo por onde passou.  Jorge se orgulhava de ter conseguido gastar até o último centavo de sua herança.  A Aristo, comparo o atual bilionário norte americano Warren Buffett.  Apesar de não ter recebido herança familiar, Warren é poupador.  Desde jovem aprendeu o valor do dinheiro, vendendo chicletes ou comprando Coca-Cola na máquina por cinquenta centavos e revendendo por US$ 1.  Com o tempo, comprou ações da companhia de seu pai, e, posteriormente, estudou economia e passou a investir no mercado financeiro.  Hoje, é um dos três homens mais ricos do mundo, graças à sua disciplina financeira.  As empresas onde investiu seu dinheiro geram milhares de empregos, direta e indiretamente.

Mas em um quesito Warren Buffett se distingue do personagem Aristo.  Ele decidiu que ao final de sua vida, doará a maior parte de sua fortuna à caridade, deixando apenas uma parte pequena como herança aos seus filhos.  A decisão de Buffett é muito bem vista por aparentar gerar um benefício imediato aos mais necessitados.  Mas se o dinheiro continuasse investido, duraria mais e geraria muitos benefícios, para muita gente, por um tempo muito mais prolongado.  O dinheiro doado, se gasto em caridade direta, não irá gerar o mesmo benefício.  Será destinado à necessidades imediatas, como a compra de leite ou pão, obras de infraestrutura, vacinação, etc.  Por mais nobres que sejam essas causas, o gasto do dinheiro, sem reposição ou investimento, eventualmente levará ao esgotamento do mesmo.

Obviamente uma fundação pode fazer bom uso do dinheiro e ao mesmo tempo investi-lo e fazê-lo render, gerando um benefício maior e mais prolongado.  O que Bastiat nos ensina é que não há nada moralmente superior em simplesmente gastar dinheiro.  Por outro lado, também não há nada moralmente inferior em poupar esse mesmo dinheiro.

A moral da estória dos irmãos é que Aristo continua injetando dinheiro na economia, assim como seus filhos continuarão após a sua morte.  Já Mondor, acaba arruinado.  Tanto sua fortuna como sua popularidade se dissipam.  Ele já não mais provê para o emprego do trabalhador ou incentiva as artes, e sequer consegue garantir o futuro de sua própria família.

O impacto econômico das decisões de Aristo é o que não se vê, pois é mais difícil de ser medido e requer uma análise mais profunda.  O benefício dos gastos excessivos de Mondor é o que se vê.  Porém, como podemos observar, o benefício social da poupança de Aristo é muito maior do que o benefício da gastança de Mondor.

É a poupança que garante taxas contínuas e prolongadas de crescimento.  Relembrando as sábias palavras de Bastiat supramencionadas, “poupar é gastar.”

Sobre o Autor

Formado em Finaças pela George Mason University, em Virgínia, nos Estados Unidos. Experiência no setor bancário e de investimentos. Hoje, é sócio da RBR Invest, uma empresa de investimentos.

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