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Steve Patterson é um filósofo independente que trabalha fora do mundo acadêmico. Está atualmente percorrendo o mundo entrevistando diferentes pessoas e em busca de respostas a questões fundamentais. Já publicamos alguns artigos dele aqui em nosso blog, e é com grande satisfação que o recebemos para entrevista!

Com certeza Bitcoin é mais amplamente aceito nos EUA do que no Brasil, mas em ambos os lugares as pessoas ainda resistem em abandonar suas moedas estatais. O que há de tão bom no Bitcoin, e por que as pessoas ainda são tão hesitantes em relação a ela?

O Bitcoin tem diversas qualidades únicas que as moedas estatais não têm. Talvez a mais importante seja que sua oferta é escassa – o que significa que novos bitcoins não são criados por uma impressora do governo. Escassez é muito singular no mundo digital, onde estamos acostumados a copiar e colar quaisquer arquivos que quisermos. Se você pudesse copiar e colar dinheiro, no entanto, esse dinheiro rapidamente perderia todo o seu valor. O Bitcoin é uma invenção tecnológica brilhante que impede qualquer um de arbitrariamente criar novas unidades monetárias do nada.

Em segundo lugar, o Bitcoin é acessível de qualquer lugar do mundo com uma conexão de internet. Isso significa que bilhões de pessoas podem conectar-se financeiramente umas com as outras, sem a necessidade de uma conta bancária e sem depender de uma empresa. Isso quer dizer que fazendeiros no Quênia podem ter acesso direto a negociantes de Nova York, sem pagar enormes tarifas de conexão e transação – e tampouco precisam da permissão de seu governo.

Há diversas outras qualidades no Bitcoin, as quais explico em mais detalhes no meu livro What’s the Big Deal About Bitcoin?1

Ironicamente, muita gente vê como uma fraqueza que nenhum Estado esteja por trás dele. Por que é tão importante que os governos (ou, na verdade, qualquer um) não consigam criar mais moeda do nada?

imprimir dinheiro

Os governos não têm um bom histórico na administração de dinheiro. Eles têm um extraordinário incentivo a imprimir dinheiro demais, o que causa inflação. Um motivo por que o ouro foi historicamente uma moeda bem-sucedida é porque é impossível imprimir ouro do nada. Contudo, até aqui os governos encontraram um jeito – algo em que são muito bons. Eles quebravam moedas de ouro e derretiam as sobras para formar novas moedas.

Ninguém consegue quebrar um bitcoin. Ninguém consegue criá-lo do nada. Sua emissão é controlada por matemática e código de computador, não por decreto do governo. Podemos prever com um grau razoável de certeza quantos bitcoins existirão em 10, 20 e até 100 anos no futuro.

Uber e Airbnb também são às vezes vistos como propulsores de ideias libertárias em meio ao público. Como você vê a relação entre tecnologia e liberdade?

Tecnologia é uma faca de dois gumes. Por um lado, acho que fortalece enormemente a liberdade individual e é, portanto, uma coisa boa. Por outro lado, também fortalece enormemente o controle e a vigilância sobre nossas vidas. Como Edward Snowden revelou, os governos têm terríveis instrumentos tecnológicos à disposição. Eles podem saber detalhes de virtualmente qualquer aspecto de sua vida, você goste ou não.

Por isso sou mais entusiasta de tecnologia que vem junto com criptografia. A criptografia permite privacidade e liberdade que os governos não conseguem tomar de você.

A economia ponto-a-ponto2 também é algo para animar os libertários. Uber, Airbnb e Bitcoin criaram uma quantidade extraordinária de valor para as pessoas, sem o controle ou a permissão do Estado. A tecnologia ponto-a-ponto mais empolgante de todas talvez seja o OpenBazaar, que permite a indivíduos de qualquer lugar do mundo realizar comércio entre si – sem supervisão, tarifas, ou controle central. É um livre-mercado que não pode ser derrubado ou regulado pelas autoridades.

E conte-nos sobre Patterson in Pursuit, seu projeto atual. Deve ser muito bom sair pelo mundo em busca da verdade desse jeito. Nos conte um pouco sobre isso.

Tenho buscado a verdade por muitos anos. Essa jornada me levou de teoria política para economia, depois para filosofia e religião. Alguns anos atrás, comecei a escrever e produzir vídeos explicando o que tinha descoberto, e estou terminando de escrever meu primeiro livro sobre filosofia.

buddismo

Mais tarde, uns dois meses atrás, minha mulher e eu decidimos tornar nossa busca internacional. Então estamos viajando o mundo, entrevistando intelectuais de todos os contextos3. Estou conversando com professores de universidades como Columbia e Oxford. Estou conversando com pastores e pregadores rurais sobre suas ideias. Sério, estou entrevistando qualquer um que acho interessante. Uma coisa é falar da filosofia do budismo – outra é entrevistar um monge na Tailândia a respeito.

Na minha cabeça, penso no projeto como uma jornada socrática4 com um microfone.

Podemos ver que você já conversou com o Dr. Bryan Caplan, você provavelmente discutiu um pouco de economia com seus outros convidados também. Quais foram algumas descobertas interessantes em economia até agora que você poderia oferecer como aperitivo para a série?

Estou sempre investigando os fundamentos, que são a parte mais importante de qualquer disciplina. Os fundamentos de economia são simples e profundos. Tenho entrevistas a seguir que tratam de questões fundamentais como “antes de mais nada, como temos o conhecimento econômico?”, “por que, em poucas palavras, o salário mínimo causa desemprego?”, e “o que são ‘bens públicos’, e eles realmente existem?”.

Você se considera não apenas um libertário, mas um anarquista. Você escreveu um longo e excelente post em seu blog descrevendo como lentamente fez a transição de ser um conservador para tornar-se um libertário anarquista. Muito do nosso trabalho é iluminar esse caminho para nossos leitores. Quais você considera que foram os grandes marcos, os pontos chave por que você passou para chegar onde está?

Nunca imaginei me tornar um anarquista, mas fui impelido pela consistência intelectual da filosofia. Em retrospecto, eu diria que houve três causas maiores de minha conversão.

Primeiro, e para mim mais importante, eu aprendi economia. Estou convencido que você não consegue compreender como o mundo funciona sem entender economia. Contudo, quando você começa a aprender economia – sobre as ineficiências inerentes aos monopólios, por exemplo – sua visão sobre Estado imediatamente se obscurece. Na minha análise, Estados não são apenas ineficientes; são inteiramente desnecessários. Todos os serviços que eles fornecem podem ser produzidos mais eficiente e eticamente por empreendedores privados.

Segundo, fui desafiado por meu amigo Dan. Eu estava criticando o anarquismo em um evento libertário muitos anos atrás, e ele me fez uma pergunta simples. Ele disse: “Steve, vamos dizer que você está certo. Digamos que os governos precisem fornecer alguns serviços específicos. E se eu simplesmente não quiser esses serviços? Você me deixaria escolher ficar de fora?”

Eu não tinha uma boa resposta para ele. Por um lado, eu não estava confortável em impedi-lo de sair – afinal, se ele não quisesse um serviço que lhe é fornecido, ele não deveria ter que pagar por ele. No entanto, se eu permitisse que ele ficasse de fora, isso é anarquismo! Se impostos são voluntários, então não são nem impostos.

Finalmente, eu li livros. Houve alguns argumentos cruciais que descobri em Chaos Theory5 de Bob Murphy e The Machinery of Freedom6 de David Friedman. Não poderia recomendar esses dois mais fortemente.

É interessante como você fez a transição tanto pela economia como pela filosofia moral. Você acredita que alguma delas é mais válida do que a outra?

Não diria que qualquer uma delas seja mais “válida” do que a outra, mas acredito sim que os argumentos econômicos são mais persuasivos e concretos. Não me causa desconforto uma visão de mundo desprovida de filosofia moral, mas fundada em sólido conhecimento econômico. Sou desconfiado de uma visão de mundo repleta de filosofia moral, mas desprovida de sólido conhecimento econômico.

Minhas conclusões vieram ao entender economia, e só depois disso compreendi a filosofia moral por trás.

E você diria que hoje você é mais atraído por filosofia do que por economia?

Sem dúvida. A maior parte de meu trabalho é filosofia. Meu principal interesse é epistemologia, que é o estudo do conhecimento em geral – como sabemos qualquer coisa, o que é considerado uma boa justificativa, quais são as leis da lógica, etc. Também me interesso por metafísica e a filosofia da mente.

Por trás de minha filosofia política há o entendimento de economia, mas por trás da economia há a filosofia. A filosofia moral é apenas uma pequena parte dela. Acho que é praticamente impossível entender qualquer coisa do mundo sem ter alguma base na filosofia.

A fundação americana foi grandemente baseada nos valores filosóficos do liberalismo clássico, e economia teve um papel em alguma medida menor. Por muitos anos, o país poderia ser considerado o pedaço de terra mais livre do mundo. Ainda assim, o poder governamental tem crescido continuamente, principalmente ao longo do último século. Quando você diz que os argumentos econômicos são mais persuasivos, você acredita que se o país tivesse sido fundado nos princípios econômicos de liberdade ele teria melhor preservado as liberdades individuais?

Nesse ponto, não creio que os princípios da fundação tenham muita influência. A maioria dos americanos não entendem e nem querem saber dos valores do liberalismo clássico, verdades econômicas, ou liberdade individual. O Estado não cresceu por conta própria; ele recebe a aprovação tácita do público em geral.

obama na escola

O que poderia ter preservado melhor a liberdade americana seria um sistema educacional diferente. O sistema de escolas públicas tem um objetivo explícito: criar bons cidadãos. Em termo concretos, isso significa criar cidadãos obedientes que pensam que têm uma “obrigação cívica” em cumprir as leis e reconhecer a legitimidade de seu Estado. As escolas têm tido muito sucesso.

Não temos qualquer exemplo de liberdade sendo preservada no longo prazo. Minha esperança é que no futuro tenhamos a emergência de uma cultura que é tão apaixonadamente libertária – que entende princípios econômicos claramente – que considerariam escolas bancadas pelo Estado um absurdo. Se isso acontecer, as crianças não serão submetidas a propagandismo sem fim por catorze anos de suas vidas, e eles talvez tenham mais sucesso em transmitir seu libertarianismo para gerações futuras.

É difícil não perguntar nada sobre a corrida americana para a presidência. A escolha agora é entre Hillary, Trump – dois que nunca perdem a chance de mostrar como acreditam que liberdade é um conceito supervalorizado – e o libertário Gary Johnson. Como você acredita que ele irá se sair?

Antes de qualquer coisa, se alguém precisar de uma demonstração empírica dos perigos da democracia, não precisa procurar além da corrida presidencial dos EUA. O Trump é um pesadelo e um palhaço. Pode-se argumentar que a Hillary seja a mulher mais corrupta do mundo. A campanha é um circo, e demonstra as falhas de nosso sistema político.

Gary Johnson
Gary Johnson

Dito isso, sou otimista quanto a Gary Johnson. Não porque acho que ele irá ganhar, mas por causa da circulação de notícias. Mais pessoas acabarão ouvindo o termo “libertarianismo”, o que inevitavelmente levará a mais buscas de “o que é libertarianismo?” no Google. Isso não tem como ser ruim.

Minha própria jornada para o libertarianismo começou com a campanha de Ron Paul em 2008, e é possível que milhões de pessoas descubram o libertarianismo através da de Gary Johnson. O melhor cenário: Gary vai para o palco de debates com Hillary e Trump7 – ele seria a única alternativa legítima aos dois. Se isso acontecer, será uma enorme vitória e um marco para os libertários.


Notas:

  1. “O que há de tão bom no Bitcoin?”, em tradução livre. (N. do T.)
  2. Peer-to-peer, no original em inglês. (N. do T.)
  3. Backgrounds, no original em inglês. (N. do T.)
  4. Sócrates foi um filósofo grego famoso por seu perfil questionador em busca da verdade. (N. do E.)
  5. Teoria do Caos, em tradução livre. (N. do T.)
  6. Apesar do livro não ter sido oficialmente lançado em português, é geralmente traduzido como Engrenagens da liberdade. (N. do T.)
  7. De acordo com as regras eleitorais americanas, um candidato precisa obter 15% das intenções de votos em pesquisas para que ele seja chamado a participar dos debates. Gary Johnson tem obtido 7-9%, o que é uma marca considerada alta em relação a outros terceiros candidatos de disputas anteriores. (N. do E.)

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