facebook_pixel

Bernardo Guimarães fez seu doutorado em economia na Yale University, e entre 2004 e 2010 foi professor na London School of Economics. Atualmente é pesquisador e professor da Escola de Economia de São Paulo – Fundação Getúlio Vargas, e lançou recentemente o livro A Riqueza da Nação no Século XXI. Mantém ainda um blog na Folha de S. Paulo, e é uma grande satisfação para nós da Academia recebê-lo como primeiro entrevistado de nosso blog.

Você escreveu o livro A Riqueza da Nação no Século XXI, que inclusive está na nossa lista de leitura recomendada no site. Uma coisa que nos chamou muita atenção foi quando você trouxe a frase do físico dinamarquês Niels Bohr: “aqueles que não se chocam quando estudam a teoria quântica pela primeira vez nao podem tê-la entendido”. Como você acha que isso se aplica ao ensino de economia? Quando você ensina economia às pessoas, você sente nelas uma resistência a desfazer-se de antigos preconceitos?

Completamente. Eu dou aula de Introdução à Economia e o primeiro semestre de aula de Introdução à Economia não é tão chocante quanto a física quântica, eu creio, mas é bastante surpreendente pra muita gente de uma maneira um pouquinho diferente. Você explica, a pessoa acha muito estranho mas logo depois ela entende.

Um exemplo bem simples: a carteirinha de estudante. Ela faz diminuir o preço de um, portanto vai aumentar o preço de outro. O aluno, à primeira vista, acha estranho, acha errado, acho que eu estou contra a carteirinha dele. Depois ele para pra pensar e fala “Mas é óbvio, né? Tem gente que está comprando pelo dobro do preço.”

A lei do décimo terceiro salário: o décimo terceiro salário não aumenta o salário. “Mas como que não aumenta?” O salário é determinado por oferta e demanda. “Poxa, é verdade.”

Não é tão chocante depois que você para pra pensar. Mas sim, eu acho economia super surpreendente para os alunos de primeiro ano. Pra mim, era também.

Um tema recorrente do livro é a forma como se dá o debate econômico hoje. A própria motivação dele foi você não concordar com os contornos do debate eleitoral de 2014. Você descreve nosso debate atual como um do mundo animal, ou mundo unidimensional. Fale um pouco mais sobre isso, e sobre como isso nos impede de encontrar uma solução para nossos problemas sociais.

Zebras brigando

No mundo animal, há muita briga pela distribuição de recursos. Por exemplo, muita disputa pelo posto de macho alfa, brigas constantes por territórios. Mas não há mercados com trocas voluntárias e especialização entre membros de uma espécie, então praticamente não há progresso tecnológico.

Assim, há muita disputa sobre a distribuição de recursos, mas não há embates sobre o que pode ser feito para que o grupo como um todo seja capaz de produzir mais.

O debate econômico hoje em dia por vezes parece esquecer que, por conta das políticas públicas implementadas nos mais diversos países, alguns têm uma população rica e bem de vida enquanto outros são muito pobres; alguns crescem muito enquanto outros ficam estagnados. Parece que só há uma briga entre grupos, pobres contra ricos, não há o interesse comum.

O debate fica então perdido num mundo animal, só há uma dimensão na discussão: em um extremo, os que são pró-pobre, no outros os que são pró-ricos. O problema é que decisões de política econômica sobre o que é melhor para o grupo como um todo, que tem pouco ou nada a ver com questões distributivas, acabam sendo classificadas em uma dessas caixas. O resultado é um debate sem pé nem cabeça.

Um assunto que hoje tem muita importância (e a que você dedica um capítulo inteiro do seu livro) é como o BNDES vem atuando na economia nos últimos anos. Você inclusive mostra como essa atuação diminui a eficiência da política monetária do Banco Central, obrigando-o a manter a taxa SELIC mais elevada do que precisaria se o BNDES não tivesse uma carteira tão farta de crédito barato. Explique mais um pouco para quem não conhece.

O Banco Central mexe no custo do crédito para influenciar as decisões de consumo e investimento. Se o crédito fica mais caro, há menos incentivos para investir e comprar a prazo. A taxa de juros mais alta tende, portanto, a afetar negativamente a demanda na economia. Isso ajuda a conter a inflação, mas também desestimula a produção.

Por outro lado, quando o Banco Central baixa os juros, o crédito fica mais barato, o que estimula a demanda. Isso pressiona a inflação, mas estimula a produção.

A expansão de crédito pelo BNDES tem o mesmo efeito: afeta o produto e a inflação, como qualquer outra expansão de crédito.

Por vezes, a discussão sobre política econômica parece supor que a taxa SELIC afeta a inflação e o investimento, mas que o crédito do BNDES só afeta o investimento, não tem impacto sobre a inflação. Essa distinção não faz sentido algum!

Um grande problema que nós temos hoje é a questão fiscal. Nós estamos esse ano perseguindo um resultado primário de apenas 0,5% do PIB e que, mesmo assim, muita gente considera que dificilmente será alcançado. Que importância você vê em se melhorar esse resultado? Como você faria isso?

No momento, a política econômica brasileira não tem a menor credibilidade, não se sabe se as contas do governo serão equilibradas, nem como isso se dará. Que impostos serão levantados? As dívidas serão pagas? Nesse cenário, ninguém quer investir, não se gera mais empregos, a produção e a renda caem.

Agora, sobre como ajustar as contas: a crise fiscal não é simplesmente resultado do descontrole das contas públicas desse último governo. A carga tributária aumentou de 25% para 35% do PIB nos últimos 25 anos, há fatores estruturais por trás disso, um ajuste efetivo enfrentaria essa questão.

Aposentadoria e a previdência

Um dos fatores cruciais é a previdência. Desses dez pontos percentuais do PIB, mais de quatro correspondem a aumento de gastos com previdência. Hoje, aposenta-se em média com 53 anos, mas vivemos cada vez mais. Então esse gasto tende a crescer bastante. Um ajuste fiscal ideal enfrentaria o problema para nos colocar em uma trajetória sustentável.

Além disso, seria ótimo discutirmos o tamanho do Estado brasileiro, mas hoje há pouco que possamos fazer a respeito, dado que boa parte do gasto do governo não pode ser cortado por lei. Um ajuste efetivo também teria que enfrentar essa questão.

Você escreveu recentemente no seu blog na Folha de S. Paulo que vê com bons olhos a mudança no comando do Ministério da Fazenda, com a saída do Joaquim Levy e com a entrada do Nelson Barbosa, porque esse estaria mais bem relacionado internamente no governo e portanto teria maiores possibilidades de realizar as reformas necessárias. Mas mais recentemente ainda você disse que na última decisão do COPOM sobre a taxa SELIC, uma alta na taxa poderia sinalizar que o governo (ou pelo menos o Banco Central) não está preso aos economistas heterodoxos do PT, e isso não aconteceu. Como você descreveria sua expectativa quanto à condução de política econômica do governo daqui pra frente?

O antigo Ministro da Fazenda Joaquim Levy, e o atual Nelson Barbosa.
O antigo Ministro da Fazenda Joaquim Levy, e o atual Nelson Barbosa.

Eu acho que o governo vai tentar aprovar um ajuste fiscal, pode tentar aprovar alguma reforma um pouco mais significativa, mas também vai por vezes recorrer a medidas um pouco mais intervencionistas. Muito longe do ideal, sem qualquer dúvida, mas ainda assim, eu acho que a chance do governo conseguir aprovar alguma medida de ajuste é maior com o Nelson Barbosa do que era com o Joaquim Levy.

Eu gostaria muito que tivéssemos um governo com uma visão de mundo completamente diferente. Mas não temos e o Joaquim Levy no governo não mudou esse fato. Sendo assim, só dá para esperar que o governo consiga passar algumas medidas para evitar uma crise maior.

Como você avalia o início de governo do Maurício Macri na Argentina?

Macri está de fato sinalizando uma mudança de rumo completa na Argentina, seu início de governo é bastante encorajador. Acho que ele vai enfrentar um bocado de dificuldade ainda, em geral mudanças de rumo na economia tem custos no curto prazo, mesmo quando elas são para o melhor, até mesmo quando são inevitáveis. Demora um pouco para a economia reagir às mudanças nas regras.

Mas é muito bom ver a Argentina mudando o rumo tanto pelo efeito direto sobre a economia brasileira (a Argentina é um parceiro comercial relevante) quanto pelo que isso nos ensina.

O duro é que no Brasil recente, nós tivemos o contrário: uma mudança nos rumos para algo pior, que tem custos no curto prazo e ainda mais custos no longo prazo.

Outro artigo recente seu abordou um tema muito atual, que é a reivindicação de alguns jovens por passe livre no transporte público. Você falou da distorção de preços que isso causa, e como esse aspecto é raramente discutido, apesar de ter grande impacto na vida das pessoas através de suas escolhas. O que é esse fenômeno e por que ele prejudica tanto a população?

Manifestantes do Movimento Passe Livre em protesto de 2013.
Manifestantes do Movimento Passe Livre em protesto de 2013.

Isso traz de novo a questão do debate no mundo animal que a gente conversou. Há uma questão distributiva, o passe livre transfere recursos de quem paga impostos para quem toma ônibus, mas há uma questão sobre o efeito disso na economia como um todo.

A gente quer subsidiar o transporte pela cidade? Que já é muito mais congestionada e poluída do que gostaríamos? Não queremos.

Claro, um ônibus gera muito menos trânsito e poluição que trinta carros, mas o melhor é tributar os carros, não subsidiar os ônibus. Primeiro porque queremos taxar o que gera trânsito e poluição, não queremos subsidiar. Segundo, porque subsídios requerem mais impostos, que desestimulam justamente as atividades que gostaríamos de estimular: a produção, as trocas…

Você já foi filiado ao PT, e hoje é um economista liberal que inclusive ajuda a difundir o liberalismo para a população. Como foi esse processo de transformação? Como você acha que os liberais podem explicar o liberalismo econômico para quem ainda não o conhece?

[Risos] No meu caso, foram duas coisas: a primeira foi ler, estudar, aprender. Por isso que eu acho que as pessoas devem ser expostas a todo tipo de visão. Demora, mas a visão que faz mais sentido acaba vencendo.

A segunda foi a percepção de que muito do que se falava não era pensado até o fim, havia uma desonestidade intelectual grande. A gota d’água foi no segundo mandato do FHC, quando o deputado Eduardo Jorge (que era da “direita” do PT na época, hoje está no PV, eu havia votado nele) propôs uma reforma da previdência que era, aliás, em muitos aspectos, mais arrojada que qualquer coisa que tentou ser feito a respeito nos governos FHC e Lula. O PT era contra a reforma da previdência, ele vinha com uma proposta alternativa. O PT o boicotou. O que ainda existia de respeito pelo PT em mim, sumiu completamente.

A desonestidade intelectual é hoje uma das principais características do PT e de boa parte da esquerda.

Responder

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

Close