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Vamos responder essa pergunta com um exemplo hipotético. Primeiro, vamos imaginar um mundo onde há apenas duas ilhas: Jaymaca, de belas praias ensolaradas, e Glas-Betanha, de clima sempre fechado e chuvoso. Os habitantes de Glas-Betanha têm muito apreço por água de coco, e podem comprar o refresco de produtores locais ou importá-lo da Jaymaca. Vamos analisar essas duas possibilidades.

Ilhas Jaymaca e Glas-Betanha

Para os produtores betanhos, lhes custa $1,00 por litro executar todo o processo que se inicia em plantar os coqueiros e termina ao engarrafar a bebida. Porque os produtores jaymacos contam com clima mais adequado para essa atividade, seus coqueiros dão mais cocos por ano, e seus cocos ainda são maiores e com mais água. Por tudo isso, eles conseguem executar o mesmo processo por apenas $0,70 o litro.

Cada um desses dois produtores aplica uma margem de lucro de 10% sobre seus preços, de modo que vendem seus produtos por $1,10 e $0,77, respectivamente. O custo de transporte para levar a mercadoria de uma ilha para outra é de $0,13 por litro transportado. O custo do transporte dentro de cada ilha é desprezível e arredondado para zero.

agua de cocoResumindo tudo, os habitantes de Glas-Betanha têm duas opções: comprar o litro da bebida por $1,10 do produtor local ou por $0,90 do produtor estrangeiro. É evidente que escolherão a bebida feita na Jaymaca; os jaymacos, mais ainda, pois não precisam pagar por transporte. Logo, os produtores betanhos não conseguirão encontrar clientes e sairão de mercado. Isso não é culpa deles, afinal é o clima jaymaco que faz com que seus coqueiros sejam mais produtivos, e não há nada que os betanhos possam fazer para continuar nesse mercado. Ou talvez haja.

Os produtores betanhos anunciam que se não conseguirem vender seu produto, terão de fechar seus negócios e demitir todos os seus trabalhadores. Há evidente comoção popular, e uma assembleia popular determina um imposto de 30% sobre toda a água de coco que entra na ilha sob alegação de proteger os empregos nessa indústria.

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Panfleto defendendo as Leis do Grãos, criadas em 1815 na Inglaterra, que aplicava tarifas às importações do produto. Como poderíamos imaginar, o texto apela para uma suposta ameaça ao emprego dos trabalhadores. As leis foram revogadas em 1846.

agua de coco 2Com isso, o produto que era vendido a $0,77 receberá um imposto de $0,23, seu valor de frete continuará em $0,13, resultando em um produto final que custa $1,13 à população. Os produtores betanhos, vendendo a $1,10, agora conseguem encontrar compradores interessados. Mas esses compradores antes conseguiam consumir a bebida por $0,90 o litro, agora precisam pagar $1,10.

Sempre que se fala em proteger a economia nacional da competição estrangeira, se olha pelo lado do produtor nacional. Raramente se leva em conta o que acontece com os consumidores do país, que agora só têm escolhas piores do que tinham antes. Imagine o que acontece quando esse imposto é aplicado não somente sobre a água de coco, mas sobre todos os produtos: há um aumento no nível geral de preços para todos os consumidores e seus salários perdem poder de compra.

PãezinhosO Brasil importa máquinas que são usadas em nossas indústrias, trigo que é ingrediente do nosso pãozinho, fertilizantes aplicados em nossa agricultura, e tantas outras mercadorias. O Imposto sobre a Importação encarece todos esses bens intermediários (e muitos outros), encarecendo também todos os seus produtos finais, e atingindo a população toda. “Mas ele não protege empregos?”

Não, nem isso é verdade. Toda economia tem dois tipos de indústria: aquelas que são protegidas da concorrência estrangeira e aquelas que não são. Os trabalhadores irão sempre escolher o emprego que lhes permite melhores condições de vida. Por conta do imposto de importação, para muitos deles esse emprego será em alguma indústria protegida. Mas essa indústria só consegue oferecer salários altos porque a população é obrigada a comprar seu produto a um preço encarecido – o que não acontece com aquelas do outro grupo.

Ao se eliminar o imposto de importação, as indústrias protegidas deixam de existir e seus trabalhadores migram para a próxima melhor opção, que necessariamente será uma indústria não protegida. Seus salários serão nominalmente menores, mas eles conseguirão comprar mais bens e serviços com eles porque houve uma redução no nível geral de preços – não só para eles, mas para todos os trabalhadores.

O elemento que elevava o salário desses trabalhadores é exatamente o mesmo que encarecia os produtos na economia. Quando é eliminado, pressiona simultaneamente preços e salários de volta para baixo. É claro que nem todo o aumento de preços dos produtos protegidos vai para os trabalhadores, parte dele fica para o empresário.

handshake empresario politicoO governo também aumenta sua receita de impostos, o empresário beneficiado sente-se “muito agradecido” ao político que instituiu a proteção, e por aí começamos a perceber porque, a despeito de tudo que foi explicado, países gostam de tributar suas importações sob pretexto de proteger empregos. As barreiras à importação não têm a intenção de proteger o produtor nacional do produtor estrangeiro, mas de proteger o dono da produção nacional da população de seu país.

Não havendo imposto de importação na ilha de Glas-Betanha, a indústria de água de coco fecha e seus trabalhadores migram para outra onde a ilha tem vantagem competitiva. É possível demonstrar matematicamente que todos os países encontrarão setores produtivos onde são comparativamente mais eficientes, e portanto o temor de que a economia de um país seria “engolida” pela concorrência estrangeira também não se verifica na prática.

A grande vantagem de não haver barreiras a importações é exatamente que a melhor opção de trabalho de cada trabalhador será sempre em algum setor da economia em que o país tem maior eficiência de produção. Ao invés de os setores produtivos arrastarem a bola de ferro de financiar setores improdutivos, o país concentrará todos os seus fatores de produção (como a mão de obra) naqueles produtos que consegue produzir melhor, aumentando seu PIB e a renda dos seus trabalhadores.

Sobre o Autor

Presidente da Academia Liberalismo Econômico, é formado em economia pela FEA-USP com especialização em estatística pela FIA-USP. Dentro da economia, tem interesse especial por microeconomia e história econômica. Também gosta de estudar história geral e filosofia.

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