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Na última segunda-feira, realizei uma palestra intitulada “As fábricas de suor 1 podem ajudar os pobres do mundo?” para um grupo de estudantes na SOAS University London. O ponto central da palestra era apresentar o raciocínio econômico por trás da determinação e composição dos salários de forma a dissipar os mitos populares que envolvem essas fábricas.

Na exposição dos argumentos, eu me vali de um conjunto de evidências que serão familiares aos leitores do EconLib (os salários das fábricas de suor são altos em comparação com as alternativas disponíveis, e com as médias nacionais em muitos países) e que foram aprofundadas no livro Out of Poverty 2 , de Ben Powell . Além disso, eu foquei fortemente nas evidências qualitativas apresentadas (com base em entrevistas) num artigo de que fui coautora para oferecer aos estudantes algum entendimento sobre os diferentes significados que as pessoas dão a suas próprias escolhas de trabalhar nas fábricas de suor e como elas avaliam os trade-offs que enfrentam.

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Utilizando-me das entrevistas conduzidas em duas fábricas de roupas em El Salvador no ano de 2009, o artigo fala de como as trabalhadoras das fábricas avaliam a composição de seus salários e como analisam suas próprias escolhas de abandonar a produção familiar para trabalhar nas fábricas. Não se tem a pretensão de que as entrevistas sejam representativas de todas ou mesmo da média das trabalhadoras das fábricas de suor, nem de gerar fatos ou dados que possam ser necessariamente generalizados para casos mais amplos. O artigo tem como objetivo complementar outros estudos ao oferecer insights sobre os processos de escolha de pessoas reais.

Seguem alguns trechos:

“Eles me pagam US$ 35 por semana, e eu consigo viver com esse salário. Mas e se eu não fosse capaz de ganhar isso trabalhando em casa? Se você trabalha em casa, você também gasta dinheiro diariamente e, às vezes, gastamos mais que ganhamos. Vendas não é um bom negócio no momento. Quando converso com alguém, digo-lhe que é melhor torcermos para que as fábricas não fechem, pois elas ajudam muito as pessoas. Fábricas e negócios como esse ajudam muito as mulheres.”

“Na situação em que estamos agora –- agora que sou funcionário desta empresa — não é que posso fazer tudo; mas agora que estou aqui, sinto que serei capaz de [colocar as crianças para a escola]. Quando eu ganhava menos, eu tinha o suficiente somente para comprar um uniforme escolar, só alguns cadernos; eu os compraria pouco a pouco. Agora que estou trabalhando aqui, sinto que posso equilibrar minhas contas melhor.”

“Eu gosto de trabalhar aqui. Eu não quero mais trabalhar no campo. Eu ganho mais dinheiro aqui, então é melhor aqui. Existem também outros benefícios que a empresa nos dá, melhorando a condição geral de nossas famílias. […] Na fábrica, tenho o benefício de auxílio-saúde, medicamentos, e de materiais escolares para nossos filhos. Eles nos dão cupons para comprar sapatos. Esses são benefícios que você pode ter numa empresa. Como doméstica, você não consegue nada disso. Tem suas vantagens, porque não precisa pagar transporte ou comida, mas não recebe nenhum outro benefício.”

Minha palestra também tentou mostrar como as preferências das empregadas com respeito à composição de salários e a busca de redução de custos pela empresa determinam qual será o pacote final de remuneração (monetária e não monetária).

Por exemplo, nos casos que examinamos em El Salvador, as firmas proviam transporte de ida e volta nas vilas próximas. Por quê? Para a empresa, a rotatividade de empregados e a falta de pontualidade são custosas. Para os empregados, os custos de transação para chegar ao trabalho são altos. As estradas não são bem cuidadas, não existe transporte público, e os veículos são relativamente caros.

Do ponto de vista coasiano 3 , existem ganhos para firmas que oferecem transporte subsidiado, e os empregados sentem-se satisfeitos por terem-no como parte de sua compensação total (por exemplo, aceitar salários mais baixos em troca de transporte de qualidade).

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A maioria dos trabalhadores dessas fábricas eram mulheres em idade fértil. Um raciocínio coasiano similar pode nos ajudar a entender o porquê dessas empresas que visam ao lucro terem clínicas médicas internas para serviços básicos.

Na sessão de perguntas, muitas perguntas interessantes. Eis aqui um exemplo: “Suponha que eu aceite os argumentos que as fábricas de suor podem oferecer oportunidades monetárias melhores que as alternativas disponíveis a essas trabalhadoras. O que esse trabalho diz sobre as relações de poder ou da habilidade exploratória desses empregos para com as mulheres?” (Desconsiderando os casos de tráfico de pessoas, escravidão ou coerção direta).

Eu dei três respostas:

Primeiro, a transição do artesanato para o chão de fábrica é, com frequência, a primeira oportunidade que essas mulheres tiveram para obter experiência de mercado. Embora haja pouca mobilidade vertical dentro de uma determinada empresa, muitas mulheres comentaram como foram capazes de obter empregos melhores que o primeiro de forma muito mais fácil. O aumento da produtividade de um indivíduo é algo que o fortalece. Historicamente, maior liberdade econômica é sinônimo de maior liberdade política e social.

Segundo, rendas maiores para mulheres quando entram nas fábricas tendem a reduzir assimetrias de poder dentro de seus lares e, de forma mais geral, no mercado de trabalho.

Terceiro, esses empregos dão oportunidade às mulheres melhorarem a vida de seus filhos, certamente algo que expressaram como significativo e de importância central para elas.

Agradeço muito a Jonathon Kitson por organizar o grupo Policy Forum e por me receber para uma ótima discussão, principalmente quando essas ideias são consideradas controversas. (Me foi dito por mais de um estudante que eu era provavelmente a única pessoa que já colocou o pé no campus da SOAS e defendeu as fábricas de suor.)


Esse artigo foi originalmente publicado como SOAS Policy Forum on Sweatshops para o Econlib e como Defending Sweatshops and Worker Choice no Foundation for Economic Education .


Notas:

  1. Sweatshops, no original em inglês. São locais de trabalho, frequentemente indústrias do setor têxtil, onde as condições laborais são por muitos consideradas impróprias, como longas jornadas, risco de acidentes e baixos salários. (N. do T.)
  2. Saindo da Pobreza, em tradução livre. (N. do T.)
  3. A autora refere-se a um teorema atribuído a Ronald Coase , segundo o qual, sob determinadas condições, não é necessária a intervenção do Estado para que sejam corrigidos problemas de externalidade — como ela mesma explica a seguir. (N. do E.)

Sobre o Autor

Emily Skarbek é palestrante de Economia Política no King's College London e é contribuidora convidada do EconLog. Seu site é EmilySkarbek.com. Siga-a no Twitter: @EmilySkarbek.

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