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Antes de começar essa investigação, precisamos nos fazer uma outra pergunta: o que determina o salário e os benefícios pagos pelo empregador ao empregado? Quais são os fatores que determinam que trabalhador A ganhe X e trabalhador B ganhe Y? Uma resposta rica e completa para essas perguntas demandaria um curso de microeconomia praticamente inteiro. Mas um exemplo simples nos ajudará a entender alguns pontos importantes.

Vamos imaginar que Paulo tem uma fábrica e Fábio, sem emprego, visita essa fábrica para uma entrevista. Se for contratado, o trabalho de Fábio aumentará os lucros da fábrica em R$ 3.000 por mês. Então, se Paulo o contrata por qualquer salário abaixo desse, receberá mais dinheiro pelo trabalho de Fábio do que terá de pagar por ele. Mas se o contrata por qualquer salário acima desse, terá de pagar mais do que receberá por seu trabalho. A decisão do Paulo (de contratar Fábio ou não) é, portanto, muito fácil e só depende do salário por que Fábio está disposto a trabalhar.

factory workers

E do lado do Fábio, como ele está analisando a situação? Não é só porque seu trabalho consegue aumentar em R$ 3.000 os lucros da fábrica de Paulo que ele conseguiria, trabalhando sozinho, produzir a mesma mercadoria que a fábrica produz e ter esse lucro para si próprio. Ele certamente sabe fazer apenas uma ou poucas das etapas de todo o processo de produção, e não sabe fazer o trabalho de todos os outros funcionários. Ou seja, se ele fosse trabalhar por conta própria ganharia muito menos para si do que aumentaria os lucros de Paulo.

Mas isso também não quer dizer que trabalhar para o Paulo seja sua única opção. Qualquer que seja sua especialidade, seu trabalho conseguiria aumentar o lucro de qualquer outra fábrica semelhante se ele fosse contratado. Para nosso exemplo, podemos supor que antes da entrevista com o Paulo, sua melhor proposta era de R$ 2.500. Isso quer dizer que se Paulo oferecer qualquer salário acima desse valor, supondo que essa fosse a última fábrica da cidade, Fábio deveria aceitá-lo; mas se Paulo oferecer qualquer salário abaixo desse valor, Fábio deve recusar a proposta e ir trabalhar onde já lhe ofereceram R$ 2.500.

Não é difícil de ver que, nesse caso específico, Paulo irá contratar Fábio por algum salário entre R$ 2.500 e R$ 3.000. E mais ainda: esse acordo será, dada a situação em que cada um se encontra, vantajoso para ambos. Toda essa análise, por mais elementar e banal que possa parecer, serviu pra demonstrar que nada mais importa nessa determinação do que quanto o trabalho de Fábio consegue aumentar os lucros na fábrica de Paulo e nas demais fábricas. Economistas preferem chamar esse fenômeno de “agregar valor”.

Algumas pessoas criticam esse tipo de modelo porque não é possível Paulo ter absoluta certeza de quanto valor Fábio conseguirá agregar em sua fábrica; a questão é que isso não é necessário para que o modelo seja ilustrativo da realidade. Paulo tem uma ideia boa o suficiente desse número, e age de acordo com isso. Ele tem outros funcionários, toda uma folha de pagamentos na fábrica, e sabe mais ou menos o quanto cada função é importante no processo de produção; essa importância é a agregação de valor, e é tudo o que ele precisa para tomar a decisão em questão.

Agregação de valor
Alguns trabalhos agregam muito mais valor ao empregador e à economia do que outros.

Olhando para a economia como um todo, quanto mais valor uma pessoa consegue agregar a determinado processo produtivo, melhor ela será remunerada por isso. Essa capacidade de agregar valor é, aliás, o que nos referimos por “situação em que cada um se encontra” em parágrafo anterior. Mas essa conclusão nos leva necessariamente a outra pergunta: o que determina a quantidade de valor que uma pessoa consegue agregar a determinado processo produtivo (e, por consequência, à economia)?

Isso depende de uma série de fatores. Os principais são:

  • escolaridade: quanto melhor tenha sido a educação escolar do trabalhador, mais ele consegue desenvolver tarefas complexas e de tomadas de decisão que exigem conhecimento. Trabalhadores que não tiveram educação de qualidade só conseguem desempenhar atividades operacionais, que não exigem conhecimento avançado (ou seja, todos conseguem fazer) e agregam menos valor a seu empregador e à economia. Por escolaridade, nos referimos a todo o conhecimento acumulado desde a pré-escola, passando pela universidade até o momento presente. E não se trata apenas de uma mensuração quantitativa (fez ou não faculdade), mas qualitativa também.
  • lucratividade das empresas na economia: empresas diferentes têm diferentes capacidades de transformar trabalho em lucro. Quanto melhor ela conseguir fazer essa conversão, mais alto será o patamar até o qual será vantajoso para ela remunerar seus funcionários. Um ambiente propício para negócios (ou seja: onde o Estado não interfere na economia, onde haja segurança jurídica, direito de propriedade respeitado, ausência de empresas estatais, etc…) faz com que todas as empresas da economia sejam mais lucrativas, e que todas elas consigam transformar dada quantidade de trabalho em maiores lucros. Isso literalmente valoriza o trabalho de cada um de seus trabalhadores.
  • dedicação: quanto mais um trabalhador se dedicar a seu trabalho, mais ele agrega valor à produção. Não há nada de errado em alguém que se dedica menos a seu trabalho para passar mais tempo com a família, desfrutar de lazer, etc… o economista busca entender os fenômenos, não julgá-los. Mas não se pode negar que de dois trabalhadores, em iguais condições em todos os outros fatores, se um deles se dedica mais do que o outro, ele agregará mais valor à economia. Infelizmente, algumas pessoas estão em situação tão desprivilegiada em todos os outros fatores, que são obrigadas a trabalhar com extenuante dedicação de tempo e de esforço para meramente subsistir.

Há ainda outros fatores importantes que são suficientemente auto-explicativos: experiência profissional, inteligência, boa relação pessoal, etc…

Repare como em momento algum dessa lista aparecem aspectos da legislação trabalhista. Claro, afinal leis não estão entre os fatores que determinam o quanto o trabalho de cada trabalhador agrega a processos produtivos. Se Fábio agrega R$ 3.000 à empresa de Paulo e o salário mínimo for aumentado em 1%, 5% ou 30%, Fábio continuará agregando os mesmos R$ 3.000 à empresa de Paulo. Não ocorreu nada que alterasse o trabalho de Fábio, ou quanto ele vale dentro da fábrica. E isso vale para todos os trabalhadores de uma economia, dos mais ricos aos mais pobres.

Em outras palavras: não existe relação causal entre legislação e salários; estes são determinados por fatores específicos, que nada têm a ver com o que é impresso no Diário Oficial da União: papel e tinta não têm o poder ou o alcance de aumentar salários ou benefícios dos trabalhadores. Isso não pode ser enfatizado o suficiente; esse ponto será recorrente no blog para outros assuntos, pois é algo muito mal compreendido.

Mas então não há nada que possa ser feito para tirar o Fábio (e todas as pessoas que ele representa) dessa situação? Sim, claro que há! Como vimos, há fatores que determinam o quanto o trabalho de Fábio consegue agregar na economia, e dois deles – que muita gente considera os dois principais – sofrem ação direta do Estado.

Primeiramente, é necessário melhorar a qualidade da educação no Brasil, principalmente da população mais pobre. Não confundir isso com simplesmente aumentar os gastos públicos com educação. O volume gasto na educação não está entre os fatores que determinam a produtividade do trabalhador; o aprendizado (ou seja: o resultado desse gasto) está.

Por isso, o melhor aprendizado dos alunos passa principalmente por medidas de gestão, como estabelecer meritocracia entre os profissionais do ensino (como já é na rede privada) ou a ideia de vouchers escolares (que vem ganhando cada vez mais adeptos no Brasil).

Além disso, o Brasil precisa ser uma economia mais amigável aos negócios. Privatizar empresas estatais, reduzir regulamentações e burocracias do governo, extinguir monopólios garantidos pelo Estado e dar amplo respaldo ao direito de propriedade privada são medidas que iriam nesse sentido.

A própria legislação trabalhista é extremamente onerosa aos negócios. As condições do contrato de trabalho não são estabelecidas diretamente entre as duas partes interessadas, mas por centenas de artigos da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT. Isso causa enorme custo burocrático, incerteza sobre os termos do contrato, e penosos e longos processos na justiça. Nada disso favorece a lucratividade dos negócios que aumentariam os salários dos trabalhadores.

Sobre o Autor

Presidente da Academia Liberalismo Econômico, é formado em economia pela FEA-USP com especialização em estatística pela FIA-USP. Dentro da economia, tem interesse especial por microeconomia e história econômica. Também gosta de estudar história geral e filosofia.

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