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Como pode haver tantos estudantes convencidos de que eles deveriam receber notas mais altas por trabalhos que eles passaram tanto tempo escrevendo? Não é uma crença na qualidade de seus trabalhos; é uma crença nas horas e horas gastas na elaboração deles.

O desentendimento fundamental sobre o valor do trabalho está no centro da crítica marxista ao capitalismo.

O Centro de Tudo

geocentrismo
Esquema gráfico do geocentrismo, com o planeta Terra no centro e os demais astros ao redor.

Por milhares de anos, a humanidade tinha certeza de que a Terra estava no centro do universo e o Sol girava à sua volta. Com o advento da indagação sistemática, cientistas tiveram que desenvolver explicações mais e mais complexas sobre porque suas observações do universo não se encaixavam naquela hipótese. Quando Copérnico e outros ofereceram uma explicação alternativa que era capaz de explicar os fatos observados, e fez isso muito mais clara e concisamente, o modelo heliocêntrico triunfou. A revolução coperniana mudou a ciência para sempre.

Há uma história parecida em economia. Por centenas de anos, muitos economistas acreditavam que o valor de um bem dependia do custo de sua produção. Em particular, muitos adotavam a teoria do valor-trabalho , que dizia que o valor de um bem seria derivado da quantidade de trabalho que entrasse em sua criação.

Muito como a visão geocêntrica do universo, a teoria do valor-trabalho tinha alguma plausibilidade superficial, já que frequentemente parece que os bens que envolvem mais trabalho têm mais valor. Entretanto, muito como a história em astronomia, a teoria foi ficando cada vez mais complexa conforme ela tentava negar algumas objeções óbvias. Começando nos anos 1870s, a economia teve sua própria versão da revolução coperniana conforme a teoria do valor subjetivo tornou-se a explicação preferida para o valor de bens e serviços.

Hoje, a teoria do valor-trabalho tem apenas um número minúsculo de adeptos entre economistas profissionais, mas continua deveras comum em outras disciplinas acadêmicas quando discutem assuntos econômicos, assim como no público em geral. (A teoria do nota-trabalho, como notei acima, é particularmente popular entre estudantes universitários.)

O Espectro de Karl Marx (e Adam Smith)

Um motivo pelo qual a teoria ainda é a explicação implícita do valor em diversas outras disciplinas é que elas baseiam-se no seu mais famoso adepto para o entendimento que têm de economia: Karl Marx . Marx certamente não foi o único economista a adotar essa perspectiva, nem é a teoria do valor-trabalho exclusiva de socialistas. Adam Smith acreditava em uma versão um pouco mais branda da teoria também.

Para Marx, a teoria estava no centro de sua leitura dos problemas do capitalismo. O argumento de que o capitalismo explorava os trabalhadores dependia crucialmente da percepção de que o trabalho é a fonte de todo o valor e que o lucro do capitalista era portanto “tomado” dos trabalhadores que o faziam por merecer. O conceito de Marx sobre a alienação focava na centralidade do trabalho em nos fazer humanos e nos modos como o capitalismo destruía nossa habilidade de obter prazer em nosso trabalho e controlar as condições sob as quais criamos valor. Sem a teoria do valor-trabalho, não é claro quanto da crítica de Marx ao capitalismo permanece válida.

Parte do problema para Marx e outros que aceitavam a teoria era que havia tantas objeções aparentemente óbvias que eles tiveram que construir explicações complexas para contemplá-las. E o valor da terra e outros recursos naturais? E as grandes obras de arte que eram produzidas com uma baixa quantidade de trabalho mas disputadas a preços extremamente altos? E as diferenças nas habilidades individuais, que implicam que haveria diferentes quantidades de trabalho necessárias para produzir o mesmo bem?

Os economistas clássicos, incluindo Marx, ofereceram explicações para todas essas aparentes exceções, mas, como as explicações cada vez mais complexas dos geocentristas, elas começaram a parecer ad hoc e deixaram as pessoas em busca de uma resposta melhor.

A Revolução Austríaca

Carl Menger
Carl Menger

Em economia, esse resposta veio quando, muito como Copérnico, diversos economistas perceberam que a antiga explicação estava ao contrário. Esse ponto está mais claro na obra de Carl Menger , cujo Princípios de Economia não apenas ofereceu uma nova explicação sobre a natureza do valor econômico mas também fundou a Escola Austríaca de economia.

O que Menger e outros argumentavam era que o valor é subjetivo. Ou seja, o valor de um bem não é determinado pelos insumos físicos, incluindo o trabalho, que ajudaram a criá-lo. Em vez disso, o valor de um bem emerge das percepções humanas de sua utilidade para os fins particulares que as pessoas tenham em um ponto particular no tempo. Valor não é algo objetivo e transcendente. É uma função do papel que um objeto desempenha como meio para alcançar fins que são parte dos propósitos e planos humanos.

Então, de acordo com os subjetivistas, a terra não tinha valor por causa do trabalho empregado ao prepará-la, mas porque as pessoas acreditavam que ela poderia contribuir para a satisfação de alguma vontade própria (como plantar alimentos para comer) ou que ela poderia contribuir indiretamente para outros fins por ser usada para plantar alimentos que seriam vendidos no mercado. Obras de arte tinham valor porque as pessoas as achavam belas, não importa quão pouco trabalho foi usado em sua produção. Com o valor sendo determinado pelo julgamento humano de utilidade, as variações na qualidade do trabalho não causam problema para explicar o valor.

De fato, valor econômico é uma categoria completamente diferente de outras formas de valor, como o valor científico. É por isso que as pessoas pagam para ter alguém fazer-lhe uma leitura completa do horóscopo mesmo que a astrologia não tenha qualquer valor científico. O que importa para o entendimento do valor econômico é a percepção de utilidade em busca dos propósitos e planos humanos, não algum valor “objetivo” do bem ou serviço.

Virando Marx de Cabeça para Baixo

Karl Marx
Karl Marx

Mas a verdadeira revolução coperniana na economia foi como a teoria do valor subjetivo relaciona-se com a teoria do valor-trabalho. Ao invés de ver o valor dos produtos ser determinado pelo valor dos insumos como o trabalho, a teoria do valor subjetivo mostrou que é o contrário: o valor dos insumos são determinados pelo valor dos produtos que eles ajudam a produzir.

O alto valor de mercado de comida bem feita não é resultado do valor do trabalho do chef. Na verdade, o trabalho do chef é valorizado precisamente porque ele é capaz de produzir comida que o público considera saborosa, bonita ou saudável.

Por essa perspectiva, o trabalho é recompensado de acordo com a habilidade em produzir coisas que os outros valorizam. Quando você então considera a maneira com que o trabalho combinado com o capital permite a esse trabalho produzir bens que a humanidade valoriza ainda mais, o que por sua vez aumenta a remuneração do trabalho, toda a visão de mundo de Marx é rapidamente virada de cabeça para baixo. O capital não explora o trabalho. Ao invés disso, ele aumenta o valor do trabalho ao dar-lhe os instrumentos que ele necessita para fazer ainda mais das coisas que a humanidade valoriza.

Entendido corretamente através da teoria subjetiva do valor, o capitalismo é fundamentalmente um processo comunicativo através do qual a humanidade tenta descobrir a melhor maneira de dar uso a nossos limitados recursos para satisfazer nossas vontades mais urgentes. As trocas e os preços de mercado são como tornamos nossas percepções subjetivas de valor acessíveis aos outros para que eles possam descobrir a melhor forma de nos prover com as coisas que mais valorizamos.

Temos Mais Trabalho pela Frente

Para economistas, a teoria do valor-trabalho tem aproximadamente a mesma validade da visão geocêntrica do universo. Por esse motivo, todo o aparato de Marx, e portanto sua crítica ao capitalismo, é igualmente questionável.

Infelizmente, muitas pessoas, acadêmicos longe do estudo econômico e o público em geral, simplesmente desconhecem a revolução coperniana na economia. Derrubar a teoria do valor-trabalho permanece uma tarefa valiosa e trabalhosa.


Esse artigo foi originalmente publicado como We’re Still Haunted by the Labor Theory of Value para o Foundation for Economic Education e está sob a Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional .

Sobre o Autor

Professor de Economia na St. Lawrence University e autor de Microfoundations and Macroeconomics: An Austrian Perspective.

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