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Sexy and the City 3 pode ter acabado, mas a febre por lindas roupas que a franquia da HBO exibiu, não. Assim como a (anti-) heroína Carrie Bradshaw demonstra tendo Manolo Blahniks e Prada, eu aprecio um closet ilimitado e rotativo de roupas de grife e acessórios. Mas diferentemente da Carrie, eu não possuo nenhum destes itens – eu pago por uma “assinatura ilimitada” do Rent the Runway, que permite que eu alugue quaisquer quatro itens por vez.

Viva la revolución fashion

Rent the Runway é parte da economia compartilhada, que permite que organizações e indivíduos compartilhem ativos físicos subutilizados como serviços. Neste caso, os ativos subutilizados são maravilhosas roupas e acessórios. Impulsionada pelos efeitos da recessão econômica que forçou as pessoas a encontrar novas e criativas formas de ganhar e poupar dinheiro, a economia compartilhada está desafiando o jeito de encararmos a propriedade.

Uma mudança de valores e prioridades nos levou do hiperconsumismo do século 20 para o consumo colaborativo do século 21. Enquanto algumas empresas como a Rent the Runway temporariamente emprestam seus produtos para os consumidores, outras criam uma plataforma para facilitar aluguéis entre pares1, onde indivíduos compartilham propriedade entre eles em troca de dinheiro.

Getaround, um serviço online de compartilhamento de carros, permite aos proprietários gerar lucro alugando veículos subutilizados que, estudos demonstram, permanecerem sem uso 95% de suas vidas. Por outro lado, os consumidores podem aproveitar os benefícios de ter um carro, sem ter que gastar muito dinheiro com isso. Getaround permite que a tecnologia viabilize a confiança entre duas pessoas através de uma transação mutuamente benéfica que soluciona o problema da “dupla coincidência de desejos” – quando a pessoa X, que tem um carro, quer dinheiro da pessoa Y, e vice-versa.

Compartilhar recursos não é um conceito novo, mas a big data2 e a tecnologia revolucionaram e simplificaram o processo. Conectando diretamente consumidores e provedores de serviços, a tecnologia reduz os custos de transação, barateando como nunca o compartilhamento de produtos e o tornando mais viável em grande escala. Conectando consumidores aos proprietários, a tecnologia elimina os custos indiretos de gerir um negócio, como lojas físicas e armazéns.

Estima-se que a economia compartilhada cresça de 14 bilhões de dólares em 2016 para 335 bilhões de dólares em 2025. Conforme ela se torna mais e mais atraente para empresas, inovadores e empreendedores, e conforme cresce a concorrência, os preços destes serviços se tornarão mais acessíveis.

Enquanto que a propriedade é colocada ao lado da vida e da liberdade, com o crescimento da economia compartilhada, estamos começando a reconsiderar a importância e o valor que damos a possuir algo. Os americanos adultos que estão familiarizados com a economia compartilhada já estão mudando suas percepções sobre possuir propriedade: 81% acham que é mais barato compartilhar do que possuir coisas, 43% acham que possuir algo é um ônus, e 57% concordam que a acessibilidade é a nova propriedade.

À medida que as pessoas continuam se espremendo nas cidades já densamente povoadas, a globalização continua tornando o mundo um lugar menor, e as empresas inovadoras baseadas na confiança geram valor a partir de ativos subutilizados, veremos uma mudança fundamental rumo a uma sociedade que é cada vez menos definida pela distinção entre os que têm e os que não têm.

A propriedade está evoluindo

Isto não significa que a propriedade acabou, mas que ela está em evolução, assim como nossos estilos de vida e escolhas. A economia compartilhada está remodelando a concepção convencional de propriedade, que se limita à reivindicação ou título legal de certo item de propriedade. Conforme as pessoas são apresentadas a oportunidades de ganhar dinheiro com coisas que elas já possuem, somos levados a pensar de forma diferente sobre a propriedade.

Propriedade não é mais simplesmente um título que permite a você reivindicar seus bens, ela é um meio de se obter lucro – um empreendimento muito mais real hoje do que jamais foi. Qualquer pessoa pode oferecer um serviço na economia compartilhada, conquanto que possua um bem demandado e uma conexão à internet.

A popularidade dos serviços da economia compartilhada significa que possuir coisas não é mais uma boa indicação de riqueza relativa. Através da Airbnb, um mercado online para aluguel de acomodações de curta duração, alguém pode alugar um castelo na Escócia ou um quarto compartilhado para o período de um estágio. Você consegue selecionar e escolher as experiências em que está disposto a torrar dinheiro, sem criar um comprometimento custoso e de longo prazo, a preços de 30 a 60% mais baratos do que em hotéis. Em um mundo onde as experiências são priorizadas em relação à posse, podemos até começar a avaliar o bem-estar e a prosperidade das pessoas através do acesso a experiências.

Carrie Bradshaw uma vez disse: “Eu gosto do meu dinheiro bem onde eu posso vê-lo: pendurado no meu closet.” Acontece que eu acho melhor gastar em uma variedade de coisas – muitas das quais eu posso acessar como experiências através da economia compartilhada, em vez de comprar algo – um sentimento compartilhado por uma população crescente, em sua maioria a Geração Y3, e viram. Eu não quero ter um carro para me dar trabalho, e não tenho dinheiro para ter vestidos de grife para cada ocasião, mas alguns astutos empreendedores na economia compartilhada resolveram estes dilemas.

A economia compartilhada não se trata de aproveitar irresponsavelmente o acesso ao luxo. À medida que a economia compartilhada experimenta diferentes tipos de bens e os empreendedores surjam para solucionar problemas locais, os benefícios gerados pela economia compartilhada continuarão a desafiar fronteiras geográficas e socioeconômicas. Resumindo, a economia compartilhada está aumentando o bolo para aqueles de nós que participamos dela.


Esse artigo foi originalmente publicado como Access Is the New Ownership para Foundation for Economic Education.


Notas:

  1. Peer-to-peer, no original em inglês. (N. do T.)
  2. Trata-se da análise, através de modelos desenhados por humanos e executados por computadores, de uma quantidade enorme de dados. É uma tendência recente e crescente entre empresas com os mais diversos objetivos. (N. do E.)
  3. Aqueles que nasceram entre 1980 e 1995, em um ambiente altamente urbanizado e com acesso às novas tecnologias e consumo. (N. do E.)

Sobre o Autor

Natural do Sri Lanka, Deshani se formou bacharel na Lynn University, em ciência política. Depois de se mudar para Washington, trabalhou como assistente de pesquisa e estagiária no Instituto de Política Mundial, e gerente de mídia social do Good of All. Atualmente trabalha na Young Voices Advocates. Os interesses de Deshani incluem história, assuntos globais e política externa.

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