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Talvez seja só porque sou criterioso, mas parece que comparar as taxas de crescimento de longo prazo entre vários países cria um argumento matador para a superioridade do livre-mercado e do Estado pequeno.

Fonte: Maddison Project

Quer seja Coreia do Norte contra Coreia do Sul, Cuba contra o Chile, ou Ucrânia contra Polônia, nações com governos inchados e com mais intervenção inevitavelmente afundam em comparação com alternativas orientadas para o mercado.

Isso é uma prova muito convincente, na minha humilde opinião, mas me pergunto se não é excessivamente persuasivo por ser muito seco e analítico.

Talvez eu deva me concentrar mais no custo humano do estatismo. E não apenas compartilhando dados sobre baixos níveis de PIB per capita. Talvez ajude explicar o que isso significa para a vida das pessoas comuns.

A Venezuela certamente seria um exemplo perfeito (do ponto de vista negativo).

A Associated Press explica que o governo inchado e o estatismo não estão funcionando muito bem, principalmente para os membros mais vulneráveis da sociedade venezuelana.

Num sábado, dezenas de milhares de venezuelanos entraram na vizinha Colômbia para comprar comida e remédios depois que as autoridades abriram brevemente a fronteira fechada há quase um ano. Uma medida similar na semana passada causou cenas dramáticas de idosos e mães invadindo supermercados colombianos e destacou como a vida cotidiana se deteriorou para milhões na Venezuela, onde a economia está em queda livre.

Isso certamente dá medo, mas a história não descreve completamente quão ruim se tornou a vida para as pessoas comuns.

Aqui estão alguns trechos de um relatório da BBC sobre a miséria criada pelo governo da Venezuela.

Viajando pelo país esse mês eu vi intermináveis filas de pessoas tentando comprar alimento – qualquer alimento – em supermercados e outras lojas administradas pelo governo. Fui parado em um bloqueio na estrada por pessoas que disseram que não haviam comido nada nos últimos três dias além de manga. Vi a expressão de desesperança de uma mãe que estava comendo tão pouco que não era mais capaz de amamentar o seu bebê.

Que tragédia miserável.

O repórter compartilha informações sobre sua própria família e de outras pessoas que conheceu.

Foi a minha família que trouxe isso para minha casa. Meu irmão me disse que todas as suas calças ficaram muito grandes. Meu pai – que não é de resmungar – deixou escapar que as coisas estavam “realmente difíceis”. Minha mãe, enquanto isso, confessou que às vezes só come uma vez por dia. Todos eles vivem em diferentes partes da Venezuela, mas nenhum deles está conseguindo comer o suficiente. É um problema nacional. Uma jovem mãe, Liliana, […] admitiu ir para a cama em lágrimas nos dias em que é incapaz de dar a seus dois filhos algo para jantar. No oeste da Venezuela, na província rica em petróleo de Zulia, visitei várias pequenas cidades onde as pessoas não sabiam o que comeriam no dia seguinte.

Que vida terrível.

Imagine se você fosse um pai ou uma mãe na Venezuela, e não conseguisse encontrar comida para seus filhos? Isso não deveria estar acontecendo no século 21.

Sem surpresas, a privação e o caos econômico são agora a norma.

Um estudo de três das principais universidades do país indica que a “extrema pobreza” saltou em 53% desde 2014. A taxa de inflação oficial do país foi de 180% em dezembro, última vez que um número foi divulgado, mas o FMI estima que a inflação será superior a 700% no final do ano.

Considerando-se que a Venezuela está em último lugar no Liberdade Econômica do Mundo, nada disso deve ser surpreendente.

Mas lembre-se que hoje queremos nos concentrar no custo humano do estatismo, e não apenas em medidas amplas de má administração econômica.

E este gráfico da BBC sobre revoltas por alimentos é certamente uma evidência persuasiva.

Aqui está a parte que mostra que a bagunça que foi criada por más políticas governamentais, com controles de preços sendo um grande culpado.

O governo fixou, alguns anos atrás, o preço de muitos bens básicos, como farinha, frango e pão. Mas os venezuelanos só podem comprar os bens nesses preços fixados uma vez por semana, dependendo do último dígito de seus números da carteira de identidade. Porque há um risco de os bens acabarem, as pessoas muitas vezes chegam aos supermercados nas primeiras horas da manhã, ou ainda antes. Às 6:00 de certa manhã em Caracas, encontrei um homem que estava na fila havia três horas. “Espero comprar arroz, mas às vezes fiquei na fila e não consegui comprar nada porque o arroz acaba antes de eu entrar”, disse ele.

Um triste exemplo da Lei de Mitchell, de como o fracasso de uma má política leva à imposição de outra má política.

A mais nova medida do presidente Nicolás Maduro […] foi a criação dos Comitês Locais de Suprimentos e Produção, mais conhecidos pelo acrônimo [em espanhol] CLAP. Os CLAPs essencialmente significam que o governo vai parar de enviar alimentos importados diretamente para os supermercados e começará a entregá-los a conselhos das comunidades locais. O objetivo final dos CLAPs é criar comunidades autossustentáveis, onde as pessoas cultivem seus próprios alimentos. Um membro de um “coletivo” – um grupo de apoiadores radicais do governo, muitas vezes armados – […] acabou concordando em me mostrar o que o CLAP estava pretendendo alcançar. Fui levado para ver um terreno infértil – “que pretendemos ter pronto para as culturas em oito meses” – e várias plantas esperando serem plantadas. Foi, para dizer o mínimo, de quebrar o coração.

Em outras palavras, aparentemente a Venezuela está criando uma mistura (com fracasso certo) de economia autônoma com agricultura coletiva.

Nem mesmo Ayn Rand pensou em incluir algo tão maluco em seu romance distópico Revolta de Atlas.

Vamos encerrar com uma matéria da CNN sobre um novo programa de “empregos” dos vigaristas em Caracas.

Em um decreto vagamente explicado, as autoridades venezuelanas indicaram que funcionários dos setores público e privado poderiam ser forçados a trabalhar nos campos do país por períodos de pelo menos 60 dias, que podem ser estendidos “se as circunstâncias demandarem”. O presidente Nicolás Maduro está usando seu poder para declarar um estado de emergência econômica. De acordo com o decreto de 22 de julho, os trabalhadores continuariam tendo seus salários pagos pelo governo e não podem ser demitidos de seus empregos. A Venezuela […] está lutando com a falta de alimentos básicos como leite, ovos e pão. As pessoas esperam horas em filas fora dos supermercados para comprar mantimentos e muitas vezes só veem prateleiras vazias. […] A Venezuela é a pior economia do mundo, de acordo com o FMI. É esperado que encolha 10% esse ano e a inflação é projetada para passar de 700%1. Além da escassez de alimentos, os hospitais têm poucos suprimentos, fazendo com que muitos pacientes não sejam tratados e alguns morram.

Uau, nem sei por onde começar. O fato de que as pessoas estão morrendo por péssimos cuidados? O fato de que o governo está desenvolvendo uma forma de quase escravidão, forçando as pessoas a trabalharem em fazendas? Ou o fato de que péssimas políticas do governo são a razão para o desastre?

Enquanto eu contemplava estas perguntas, me fez pensar nos diferentes graus de estatismo e no efeito nocivo nas pessoas comuns.

Então, com o perdão dos fãs do inferno de Dante, montei os “cinco círculos do inferno estatista”. A primeira camada é relativamente benigna, com nações como a França que prejudicam a vitalidade da economia com muitos programas de boas aparências. Aí você segue para os países que pertencem à segunda camada, que é caracterizada por economias que estão realmente diminuindo ao invés de apenas estagnar.

E a próxima camada é onde a Venezuela está hoje, com miséria e pobreza sistêmicas. Em outras palavras, as nações nesta camada já diminuíram e sofrem muito.

Mas é sempre possível piorar ainda mais. Se a Venezuela não reverter algumas das horríveis políticas que estão causando o caos hoje, é apenas uma questão de tempo2 antes que o país se junte à Coréia do Norte em estado de privação generalizada e até mesmo inanição.

E a única coisa pior do que isso é a camada final do inferno estatista, que apresenta países que realmente destroçam seus próprios cidadãos.


Uma versão desse artigo foi originalmente publicada como Venezuela Is Heading for the Fourth Circle of Statist Hell para o International Liberty.


Notas:

  1. A CNN refere-se ao ano de 2016. Até o momento dessa publicação, não há números oficiais divulgados. Números preliminares apontam para um encolhimento de 18,6% e inflação de 800%. (N. do E.)
  2. O autor escreveu esse artigo em julho de 2016. Em dezembro do mesmo ano, ele reconheceu que o país definitivamente cruzou a linha para o quarto círculo. (N. do E.)

Sobre o Autor

É colaborador sênior do Cato Institute. É presidente do Center for Freedom and Prosperity, uma organização criada para defender e promover impostos competitivos. Previamente, Dan serviu como colaborador sênior no The Heritage Foundation e foi economista do senador Bob Packwood e do comitê de finanças do Senado. Recebeu seu Ph.D em economia da George Mason University e graduação e mestrado em economia da University of Georgia.

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