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Em O Caminho da Servidão 1 , F.A. Hayek traz um argumento elaborado e importante que é bem resumido, eu acho, por essa observação chave de David Friedman (recentemente mencionado em um comentário nesse post , por Walter Clark):

Economistas são frequentemente acusados de acreditar que tudo – saúde, felicidade, a própria vida – possa ser medido em dinheiro. O que realmente acreditamos é, na verdade, ainda mais estranho. Acreditamos que tudo pode ser medido em qualquer coisa.

Dentre os muitos benefícios de um sistema de preços desimpedidos por controles de preços impostos pelo governo é que preços definidos pelo mercado permitem que cada comprador pague pelas coisas que compra com os bens e serviços que ele valoriza menos, enquanto permitem simultaneamente que cada vendedor seja pago, em troca dessas mesmas coisas, com bens e serviços que ele valoriza mais. Trocas monetárias a preços determinados pelo mercado eliminam qualquer necessidade de escambo 2 .

Um exemplo: uma troca monetária a preços de mercado permite que Joe pague por seu almoço com (digamos) um ingresso para o cinema, enquanto Jane, a vendedora desse almoço, é paga por ele com (digamos) uma taça de adorável vinho seco que será apreciado amanhã à noite. O que Joe usa para pagar o seu almoço não é somente o que ele menos se importa em abrir mão (dentre as variedades de bens e serviços em que ele pode gastar seu dinheiro), mas também não é o mesmo que Jane recebe. Jane, nesse exemplo, não recebe de Joe um ingresso para o cinema, mas uma taça de vinho. Isso acontece porque o preço definido pelo mercado para o almoço (digamos, $12) é o mesmo preço da taça de vinho. Trocas monetárias a preços de mercado permitem resultados felizes como esse.

valores relativos

Mas controles de preços impostos pelo governo, sejam eles tetos ou pisos, inevitavelmente tornam os resultados menos felizes para várias das partes envolvidas. Na melhor das hipóteses, incentivam o escambo. Como explicado abaixo, eles incentivam algo ainda pior: o desperdício de recursos. E quanto mais restrito for o controle de preços – ou seja, quanto mais baixo for o teto estabelecido ou quanto mais alto for o piso estabelecido – maior será a proporção de escambo (ou desperdício) em relação a trocas monetárias eficientes. E, como qualquer estudante que completou um bom curso de introdução à economia sabe, quando seres humanos dependem do escambo, muitas das trocas que de outra forma aconteceriam, deixam, de fato, de acontecer.

Suponha, por exemplo, que o preço de um botijão de gás na região metropolitana de Washington imediatamente após uma grande nevasca seja de $5 por libra 3 (aproximadamente cinco vezes o preço anterior à previsão de que a tempestade chegaria à região). Suponha também que para “proteger” os consumidores, todos os governos da região imponham um teto no preço do botijão de gás de $1 por libra. Tanto pelo fato da demanda por gás ser mais alta devido à nevasca (muitas pessoas ficaram sem energia em casa) quanto pela oferta ser mais baixa (muitas ruas agora não têm passagem e, quando têm, é perigosa), se os vendedores são obrigados a cobrar os mesmos preços pelo gás com a nevasca do que cobravam antes da nevasca, faltará gás à venda na região de Washington.

Fila em supermercado na Venezuela, onde preços são frequentemente controlados pelo governo.
Fila em supermercado na Venezuela, onde preços são frequentemente controlados pelo governo.

Mas os compradores agora precisam de gás mais desesperadamente do que precisavam antes da nevasca. Então, tendo uma chance muito pequena de conseguir achá-lo a $1 por libra, os compradores começam a gastar recursos reais para aumentar suas chances de conseguir gás. Mais comumente, começam a gastar o seu tempo. Eles esperam em filas. Esse gasto de tempo (e irritação e inconveniência) é um custo real aos compradores, muitos dos quais prefeririam evitar essa forma real de gasto pagando um preço monetário mais alto pelo gás. Para esses compradores, se um preço mais alto definido pelo mercado fosse permitido, eles pagariam pelo gás com um engradado de cerveja ou um par de calças jeans ao invés de com o seu tempo. A razão é que, para eles, a utilidade da cerveja ou dos jeans que eles sacrificariam pelo gás com preço mais alto é menor do que a utilidade que receberiam por seu tempo gasto em algo diferente do que esperar em uma fila pela chance de comprar gás por $1 a libra.

E claro, o valor do tempo que os compradores gastam esperando na fila não é recebido pelos vendedores de gás. Esse valor é completamente desperdiçado. Não serve para nada. É um gasto para os compradores sem ser um benefício para os vendedores. Portanto, a espera dos compradores não faz nada para aumentar a disposição dos vendedores em fornecer mais gás. A situação seria obviamente diferente se os compradores não fossem impedidos pelo governo de competir pela compra do gás ao gastarem mais dinheiro por cada libra dele.

O comprador que oferece $5 por libra recebe gás sacrificando as coisas que ele menos se importa em sacrificar – como, digamos, a calça jeans nova, ao invés de gastar algumas horas do seu tempo na fila. Além disso, e talvez até mais importante, o que o comprador sacrifica quando ele não é impedido de pagar todo o valor em dinheiro pelo gás é o valor que é transferido ao vendedor. Esse valor incita o vendedor a trabalhar duro para conseguir gás para os compradores. Então, sendo pago em dinheiro – o qual o comprador teria gasto em uma calça jeans – o vendedor usa o dinheiro para comprar, digamos, um novo brinquedo para o seu filho. A calça jeans é o pagamento pelo gás, enquanto que um brinquedo para uma criança é o que é recebido por ele (e também não esqueça que mais gás está disponível a compradores).

Vamos voltar à situação de Washington – governos da região simplesmente motivados (aqui só podemos presumir) por pura ignorância econômica impõem um teto no preço do gás de $1 por libra. Nós vimos acima que a espera como meio de aumentar a chance de cada comprador conseguir gás é um completo desperdício de recursos do ponto de vista da sociedade, porque o tempo gasto na fila não produz qualquer expansão na produção econômica. Também vimos que, enquanto esperar na fila é a obviamente a melhor estratégia dada a escassez de gás, é mais provável que cada comprador que espera na fila prefira outras formas de competir pela compra do gás – digamos, tendo a opção de sacrificar uma nova calça jeans ao invés de seu tempo. Porém, o controle de preços torna tal troca difícil, pelo mesmo motivo pelo qual o escambo dificulta a compra e venda de bens e serviços em geral.

Mas suponhamos que o nosso comprador seja particularmente sortudo. Ele por acaso sabe que o vendedor de gás quer uma certa calça jeans. Então, o comprador que precisa de gás corre da sua casa para a primeira loja de departamentos para comprar a calça jeans. Esse comprador paga, digamos, $125 pelo jeans. Então, ele dirige até o local de negócios do vendedor de gás, bate na porta dos fundos e oferece a calça em troca de 20 libras de gás. O vendedor aceita a oferta. O negócio é feito (teste rápido para estudantes realmente interessados em economia: por que o comprador está disposto a pagar por 20 libras de gás um valor em dinheiro que é maior – aqui por um total de $25 – do que o comprador teria que pagar se esse mercado não fosse preso a um teto de preço?).

Mais realisticamente, tal comércio de permuta não envolve cada uma das partes tendo o (ou tendo fácil acesso ao) conhecimento do que é o bem ou serviço ideal para a troca. Trocas imperfeitas são a norma.

Big Snowstorm

Por exemplo, o vendedor de gás, vendo a longa fila de compradores torcendo para conseguir gás, talvez mande uma mensagem perguntando se qualquer dos compradores no final da fila estaria disposto a gastar, digamos, 90 minutos ajudando-o a limpar a entrada da garagem de sua casa da neve acumulada. Esse negócio não é o ideal para o vendedor de gás. Ele preferiria receber em troca pelo gás uma nova calça jeans, ao invés de uma hora e meia de ajuda para limpar a entrada da garagem da neve acumulada. Também não é o negócio ideal para o comprador: ele preferiria receber o gás sacrificando uma refeição de $125 para ele e sua família do que gastar uma hora e meia do seu tempo ajudando um estranho a limpar a neve.

Mas, para ambos, o negócio é melhor do que a alternativa: o vendedor recebe algo que para ele vale mais do que ela poderia comprar com os $20 em dinheiro que receberia vendendo 20 libras de gás com o teto de preço, enquanto o comprador aumenta a 100% sua probabilidade de conseguir 20 libras de gás em troca de qualquer tempo adicional que ele tenha que gastar para limpar a entrada da garagem da neve, ao invés de ficar aquele tempo esperando na fila.

Ou considerem o salário mínimo. Um empregador com um viés estúpido contra pessoas gays escolhe – com um salário mínimo estabelecido – dentre todas as pessoas que se candidataram para a vaga de trabalho uma pessoa obviamente heterossexual. Mas na ausência da imposição de um salário mínimo, um candidato gay teria a opção de oferecer o seu trabalho a um salário menor do que seria necessário para o empregador contratar o trabalhador heterossexual. E se tal oferta fosse feita pelo candidato gay, o empregador preconceituoso poderia muito bem ter aceito a oferta 4 . A razão é que o valor $X que o empregador economiza empregando o funcionário gay pode ser gasto de maneiras que ele considera melhores – digamos, em um novo carro, em férias à Califórnia, ou móveis novos para a sala de sua casa. Ou seja, o empregador nesse exemplo tem maneiras de gastar $X que são preferíveis a ele do que gastar $X satisfazendo sua preferência por ter somente empregados heterossexuais. E, na ausência do salário mínimo, ele gastaria seu $X dessa forma. Em contraste, com o salário mínimo, ele é impedido de economizar $X contratando funcionários, então ele age no que podemos chamar “permuta subsidiada”: não podendo gastar $X de maneiras diversas a empregar mão-de-obra pouco qualificada (dada a sua decisão de empregar um funcionário), ele satisfaz sua preferência de consumo de não estar na presença de pessoas gays no trabalho.

David Friedman
David Friedman

Como a citação de David Friedman acima sugere, a liberdade de gastar dinheiro a preços estabelecidos pelo mercado (ao invés de controlados pelo governo) permite ao empregador que o valor de exercer seus preconceitos contra pessoas gays seja medido contra férias à Califórnia ou novos móveis para a sua sala, assim como permite que o valor do gás seja medido em calças jeans e tempo para ficar em casa com a família, e que o valor que uma pessoa dá a um almoço hoje seja medido em termos do valor que outra pessoa dá a uma taça de adorável vinho seco amanhã.

Os defensores bem-intencionados dos controles de preço não compreendem essa realidade.


Esse artigo foi originalmente publicado como The Wonder of Market-Set Prices para o Cafe Hayek .


Notas:

  1. As minhas cópias de O Caminho da Servidão estão no meu escritório – que está inacessível hoje por causa da nevasca de ontem. Felizmente, tenho um bom estoque de botijões de gás. (N. do A.)
  2. Escambo é o comércio feito com duas ou mais mercadorias, sem o intermédio de uma moeda. Por exemplo, trocar peixe por sapato, ou madeira por lã. (N. do E.)
  3. Libra é uma unidade de medida de massa muito utilizada nos EUA. Equivale a aproximadamente 455g. (N. do E.)
  4. Algumas pessoas poderiam levantar objeção a essa colocação dizendo que o problema aqui é o preconceito do empregador, pois do contrário o trabalhador gay não precisaria oferecer seu trabalho por valor menor aos outros. A questão é que o autor está analisando a situação dado o preconceito do empregador – não está defendendo ou justificando esse preconceito. Dar como solução que o empregador deixe de ser preconceituoso é evitar o problema proposto, não resolvê-lo. (N. do E.)

Sobre o Autor

Donald Boudreaux é professor de economia na George Mason University, membro sênior do Fraser Institute e colaborador no blog Café Hayek.

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