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Muita gente pensa que a liberdade econômica é boa para os ricos e ruim para os pobres. Geralmente se acredita que há uma competição entre as pessoas, uma luta de classes, e que se o Estado deixá-las interagirem sozinhas entre elas, os ricos sempre levarão a melhor, e os pobres estarão em situação cada vez pior.

A partir daí se justifica uma série de intervenções do Estado na economia: impostos elevados, enormes empresas estatais, regulamentação de setores da economia, da relação trabalhista entre empregado e empregador, e por aí vai. Mas será que a premissa onde tudo isso se baseia é mesmo verdadeira?

Esse post investiga qual é a real relação entre liberdade econômica e a renda per capita das pessoas mais pobres de cada país. Para a primeira variável, foi considerado o Índice de Liberdade Econômica calculado anualmente pela Heritage Foundation. Para a segunda, foi usada a renda média dos 10% mais pobres de cada país, segundo dados do Banco Mundial. Essa renda foi convertida das moedas locais para dólar, e depois ajustada para o custo de vida em cada país. Isso quer dizer que esse número representa, na verdade, o poder de compra da classe mais pobre em cada país.

No gráfico abaixo, cada um dos 115 países para os quais há informações disponíveis1 foi representado por um ponto. A linha verde é a reta com menor distância total aos pontos; em outras palavras, é a reta que melhor acompanha a tendência dos pontos.

Liberalismo econômico e os mais pobres

Podemos ver que a relação entre as duas variáveis é claramente positiva. Não há um único caso, por exemplo, de país com índice de liberdade econômica abaixo de 60 cuja população mais pobre tenha poder de compra superior ao equivalente a U$ 7.000 anuais. Há aparentemente um teto para cada patamar de liberdade econômica, e esse teto é mais alto conforme se aumenta essa liberdade econômica.

É claro que essa não é a única variável que determina o poder de compra da população pobre; podemos ver que para índices muito próximos de liberdade econômica, ainda encontramos países com poder de compra bem diferentes. Abundância de recursos naturais (principalmente o petróleo), nível de escolaridade da população e proximidade com grandes mercados produtores e consumidores certamente têm sua influência. Mas o gráfico mostra que a relação estudada é muito nítida, o que nos leva a querer entender como é calculado o índice utilizado.

A Heritage Foundation considera que a liberdade econômica de cada um dos 178 países que estão em seu relatório (edição de 2015) é maior quanto:

  • mais bem definidos forem os direitos de propriedade;
  • menor for a percepção de corrupção da população;
  • menos o governo arrecadar em impostos;
  • menos o governo gastar;
  • menor forem as burocracias exigidas para se ter negócios;
  • mais livres de regulação forem as relações trabalhistas;
  • mais estável for a moeda;
  • menor forem as barreiras à entrada de importados;
  • menor forem as restrições a investimentos produtivos; e
  • menor for a atuação do governo no mercado financeiro.

Como podemos ver, todas essas variáveis tentam, por diferentes perspectivas, observar o quanto o Estado intervém na economia. Quanto menos ele intervier, mesmo que com intenção de ajudar os mais pobres, mais os empreendimentos obterão sucesso, mais produto e mais renda total serão gerados pelos agentes privados. Mesmo que se acredite que flexibilizar a propriedade privada tem o efeito de dar ao mais pobre um pouco de propriedade que de outra forma ele não teria, ou que o mais pobre recebe serviços públicos gratuitos do governo a que de outra forma não teria acesso, e assim por diante, o gráfico nos diz que o primeiro efeito é mais forte e ultrapassa o segundo.

Alguém poderia concordar com a constatação acima como princípio geral, mas mesmo assim acreditar que em algumas economias específicas, por conta de sua História, características de sua população, ou qualquer outra questão particular, ainda seja necessário o Estado intervir na economia de maneira a auxiliar os mais pobres. Será? Analise os gráficos abaixo.

Contrariando o conhecimento convencional, os gráficos acima mostram que a relação entre as duas variáveis é sempre positiva. Não há situação em que se justifique a intervenção do Estado na economia. A riqueza do rico não vem da pobreza do pobre. As quantidades de alimentos, roupas, e energia elétrica, por exemplo, que há em uma economia não são pré-fixadas, de modo que tudo o que restasse ser definido pelo sistema econômico fosse sua distribuição entre as pessoas. A liberdade econômica é exatamente o que vai aumentar a produção de todos esses bens, e esse feito é tão maior e mais duradouro do que qualquer efeito distributivo, que todas as classes sociais receberão mais deles.

Portanto, sempre que se disser que a liberdade econômica prejudica os mais pobres, a resposta é uma só: não é isso que diz a realidade.

Em 2007 a fotojornalista americana Renée Byer viajou por nove países registrando a vida de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia. Essas fotos mais tarde viraram um livro, e algumas delas foram publicadas em matéria da BBC. As fotos não foram reproduzidas aqui no blog por respeito a direitos autorais, mas valem uma visita ao site do portal de notícias britânico; não deixe de ler as histórias que as acompanham.

Dos nove países em que ela tirou essas fotos, cinco já estiveram entre os 20 de menor liberdade econômica nesses 21 anos de publicação do índice; oito deles estiveram entre os 50 menos livres, três deles ainda estão, e dois deles sempre estiveram nessa lista. Sabendo ou não, a jornalista escolheu para esse trabalho países onde historicamente não há liberdade econômica.

Tudo isso nos leva a crer que algumas das pessoas que estão nas fotos, se ainda estiverem vivas, não deveriam ter qualquer perspectiva de algum dia sair da precária situação na qual se encontram. Essa última constatação é especialmente entristecedora para qualquer pessoa que tenha um mínimo de compaixão humana, o que infelizmente não é o caso dos governantes desses e de tantos outros países, que certamente conhecem muito bem a relação que há entre liberdade econômica e a prosperidade de sua população, e mesmo assim continuam tentando regular a economia de seus países.


1 Todos os dados foram coletados para o ano de 2013, último divulgado para alguns deles.

Sobre o Autor

Presidente da Academia Liberalismo Econômico, é formado em economia pela FEA-USP com especialização em estatística pela FIA-USP. Dentro da economia, tem interesse especial por microeconomia e história econômica. Também gosta de estudar história geral e filosofia.

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