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A divisão do trabalho talvez seja minha invenção humana predileta.

Na semana passada, cortei a grama, limpei a casa, removi o ninho de abelha de minha varanda e capinei as ervas daninhas de meu quintal.

Fiz tudo isso enquanto estava na Califórnia, a mais de 3 mil quilômetros de distância de minha casa.

E isso só foi possível graças à divisão do trabalho.

Geralmente, quando ensinamos ou pensamos sobre a divisão do trabalho, pensamos no exemplo clássico de Adam Smith em A Riqueza das Nações da divisão do trabalho em uma fábrica de alfinetes.

Mas, da forma como esta atividade é atualmente levada a cabo, não só o conjunto do trabalho constitui uma arte específica como a maior parte das fases em que está dividido contribuem de igual modo ofícios especializados. Um homem puxa o arame, outro endireita-o, um terceiro corta-o, um quarto aguça-o, um quinto afia-lhe o topo para receber a cabeça; o fabrico da cabeça requer duas ou três operações distintas; a sua colocação é um trabalho especializado como o é também o polimento do alfinete; até mesmo a disposição dos alfinetes no papel é uma arte independente; e a importante atividade de produzir um alfinete é, deste modo, dividida em cerca de dezoito operações distintas, as quais, nalgumas fábricas, são todas executadas por operários diferentes.

Fábrica de alfinetes, como descrita por Adam Smith. Perceba como cada trabalhador está executando uma tarefa diferente.

O foco de Smith em sua discussão da divisão de trabalho é a forma pela qual o aumento da especialização aumenta a produtividade dentro de um setor. A divisão das tarefas envolvidas na produção de alfinetes significa que mais alfinetes podem ser produzidos de forma mais rápida e, frequentemente, com melhor qualidade, do que se nos dedicássemos à produção individual e artesanal de alfinetes.

Assim, aqueles dez homens produziam em conjunto mais de quarenta e oito mil alfinetes num dia. Assim, já que cada homem fez um décimo de 48 mil alfinetes, pode-se considerar que cada um produzia 4.800 alfinetes diariamente. Se, porém, tivessem trabalhado independentemente um do outro, e sem que nenhum deles tivesse sido treinado para esse ramo de atividade, certamente cada um deles não teria conseguido fabricar vinte alfinetes por dia, e talvez nem mesmo um. Ou seja, com certeza não conseguiria produzir a 240ª parte, e talvez nem mesmo a 4.800ª parte daquilo que hoje são capazes de produzir, em virtude de adequada divisão e combinação de suas diferentes operações.

Isso é realmente importante, e um passo crucial em nosso entendimento de como a manufatura e a produção funcionam. Ninguém pode analisar a Revolução Industrial ou as linhas de produção de Henry Ford e não constatar os enormes aumentos de produtividade que são consequência da divisão do trabalho.

Mas Smith também estava preocupado que todo esse aumento da especialização – essa divisão das tarefas em suas menores operações – nos emburreceria. Alguém cuja tarefa costumava ser produzir alfinetes se torna uma pessoa cujo trabalho é endireitar ou cortar arames. Esse é um importante declínio nas demandas intelectuais de uma ocupação. Se a divisão do trabalho significa que não precisamos mais realizar uma ampla gama de tarefas diferentes como parte de nosso trabalho, não nos tornaremos cheios e maçantes?

É uma boa pergunta. Smith não estava errado em fazê-la. E o crescimento dos empregos na indústria artesanal, e depois nas fábricas nos séculos XVIII e XIX, parece ter, de alguma forma, justificado suas preocupações. Esses empregos, tomados individualmente, não eram conhecidos por serem intelectualmente desafiadores. A cultura estava prestes a murchar?

Alfred North Whitehead respondeu às preocupações de Smith quando disse “a civilização avança ao aumentar o número de operações importantes que podemos executar sem pensar”. O comentário de Whitehead é mais frequentemente entendido como que o aumento da automação que vem com a civilização (máquinas de lavar roupa, máquinas de lavar louças, carros sem motoristas, e assim por diante) nos livra de tarefas tediosas e, assim, nos torna mais civilizados. Eu sou uma grande fã desse argumento (veja, por exemplo “O capitalismo vai abolir o dia de lavar roupas”). Contudo, o problema que tenho com essa afirmação nesse momento, de minha sala de estar impecável e contemplando a minha varanda livre de ninhos de abelhas, é que a ênfase em ser capaz de “fazer serviços sem pensar” parece corroborar as preocupações de Smith sobre a divisão do trabalho nos emburrecer.

E não estou convencida de que seja isso que a divisão do trabalho proporciona.

Acho que deveríamos começar a tratar a divisão do trabalho não como um estreitamento do que podemos fazer, mas como uma ampliação do que nós não temos que fazer.

Aqui, o que quero dizer.

A divisão do trabalho e a crescente especialização da vida moderna significam que quando eu preciso da grama cortada, eu chamo um jardineiro. Quando eu tenho que limpar a casa, eu chamo uma empresa de serviços de limpeza. Quando eu preciso remover o ninho de abelhas, eu entro em pânico, tomo alguma coisa, e chamo o serviço de remoção de insetos e ninhos. Antes da especialização, eu teria tido que ser minha própria jardineira, minha própria faxineira, e minha própria removedora de insetos. E pela minha experiência de quando eu não tinha dinheiro para contratá-los, eu teria grama alta, casa bagunçada, e o melhor hotel para abelhas de Indiana.

A divisão do trabalho significa que nada disso acontece. O mundo está cheio de pessoas que podem fazer por mim as coisas que eu não sei fazer direito, enquanto eu me concentro em fazer as coisas que faço bem. Tudo que preciso é pagá-las com parte do dinheiro que ganho fazendo minhas coisas bem-feitas, e eles logo virão fazer suas coisas bem-feitas.

É como mágica.

A divisão do trabalho significa que eu posso fazer as coisas que quero e gosto de fazer – como preparar geleias, ler para meus filhos, cultivar uma horta, escrever colunas para o site da FEE, palestrar sobre economia e literatura, e trabalhar no Liberty Fund – e evitar coisas que não quero fazer, como limpar o banheiro e matar insetos.

Tenho falado sobre a forma como terceirizamos serviços que não queremos fazer, principalmente porque aquele ninho de abelhas ainda me dá arrepios. Contudo, todas as vezes que compro meias para meus filhos, a divisão de trabalho está me poupando de ter que tricotar cada par de meias que eles usam. Posso usar esse tempo e esforço para tricotar casacos (que é mais divertido do que tricotar meias), ou ter aulas de artes marciais com eles, ou qualquer outra coisa que queira fazer. O tempo e esforço que eu teria sido forçada a conceder a coisas que odeio e faço mal podem agora ser gastos no aperfeiçoamento das atividades que faço bem.

E a divisão do trabalho funciona para todos. Qualquer pessoa que não produz tudo por conta própria está se beneficiando do poder da divisão do trabalho. A criança que corta minha grama não tem que preparar sua própria pizza porque ela se especializa (por um momento) em cortar grama. Minha empregada não tem que consertar seu próprio carro porque ela se especializa em algo que mais lhe interessa – tornar as casas dos outros mais limpas e organizadas. A divisão do trabalho, no final das contas, melhora a vida de todos.

E nada disso nos emburrece, mas nos permite decidir como gastamos nosso tempo e nossa energia. Ela nos torna mais livres.


Esse artigo foi originalmente publicado como Does the Division of Labor Make Us Stupid? para o Foundation for Economic Education. Essa versão em português foi traduzida pelo Portal Libertarianismo.

Sobre o Autor

Sarah Skwire é a editora de poesia do The Freeman e membro senior do Liberty Fund, Inc. Ela é poeta e autora do livro de escrita Writing with a Thesis. Ela é membro da rede de docentes da FEE.

1 Comment

  1. Maria Aparecida Barbosa - Responder

    A autora simplificou o conceito da divisão do trabalho, ele não é tão simples assim. É um ponto de vista neo liberal, com olhar de mercado e não aponta suas contradições.

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