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Introdução

O tema de “A Casa Que O Tio Sam Construiu: A História Não Contada da Grande Recessão de 2008” é de que políticas governamentais, e não falhas do livre mercado causaram o trauma econômico que nós estamos vivenciando. Nós não vivemos em um livre mercado. Nós vivemos em uma economia mista. A mistura varia com o setor. O setor tecnológico é primariamente livre. Os serviços financeiros são primariamente governo. Não é surpresa que o segmento da economia mais regulado e controlado pelo governo, o de serviços financeiros, foi o que teve os maiores problemas. Esses problemas foram criados por ações do Federal Reserve 1 combinados com políticas governamentais de habitação (especialmente os empreendimentos financiados pelo governo – Freddie Mac and Fannie Mae). A interferência equivocada do governo no mercado foi a verdadeira culpada pelo estabelecimento da base para a Grande Recessão.

Esse artigo fornece um esboço compreensível e de bom-senso das causas e curas fundamentais. A análise é baseada nas leis econômicas há muito tempo provadas. Apesar dos desejos e esperanças dos políticos, as leis econômicas são tão imutáveis quanto as leis da física. Se você pular de um edifício de dez andares, o choque com o chão não será agradável. Se o Federal Reserve mantém as taxas de juros abaixo da taxa natural do mercado através de expansões rápidas da oferta de moeda (“imprimindo” dinheiro) como fez Alan Greenspan, indivíduos e empresas tomarão decisões de investimento ruins e haverá consequências negativas ao nosso bem-estar econômico de longo prazo. Não existe almoço grátis.

Quando um médico faz um diagnóstico errado de uma doença, o seu tratamento provavelmente tornará o paciente mais doente. Se errarmos o diagnóstico das causas da Grande Recessão, o nosso tratamento reduzirá o nosso padrão de vida de longo prazo. Enquanto o sistema econômico dos EUA é altamente resiliente, e nós provavelmente teremos algum tipo de recuperação econômica, quase todas as políticas governamentais significantes lançadas em resposta à Grande Recessão reduzirão a qualidade de vida no longo prazo. Entender que políticas governamentais fracassadas, e não falhas de mercado, causaram nossos desafios econômicos é imprescindível para definirmos a cura apropriada. Já que foi o governo quem criou o problema, ou seja, causou o desastre, é irracional achar que mais governo é a cura. Nós devemos a nós mesmos e aos nossos filhos e netos levarmos essas questões muito a sério.

– John Allison, CEO do banco BB&T.

A Casa que o Tio Sam Construiu: A História Não Contada da Grande Recessão de 2008. Por Steve Horwitz e Peter Boettke. Edição (na versão original e em PDF) por Lawrence W. Reed. Com Introdução de John Allison - Presidente da BB&T.
A Casa que o Tio Sam Construiu: A História Não Contada da Grande Recessão de 2008. Por Steve Horwitz e Peter Boettke. Edição (da versão original e em PDF ) por Lawrence W. Reed. Com Introdução de John Allison – Presidente da BB&T.

O homem que festeja como se não houvesse amanhã coloca o seu corpo em uma série de sobes e desces que mais parecem o ciclo econômico. Na festa, o homem bebe livremente. Ele se diverte muito antes de ir tropeçando para casa às duas horas da manhã, onde ele se joga no sofá. Algumas horas depois, ele acorda no aperto da temida ressaca. Então ele tem uma escolha a fazer: ter a breve melhora de uma outra bebida, ou ficar sóbrio. Se ele escolher a última opção e resistir a algumas horas de desconforto, poderá se recuperar. De qualquer forma, ninguém diria que a ressaca é o que lhe fez mal; o mal foi feito na noite anterior, e a ressaca é a prova disso.

A Grande Recessão (ou Grande Ressaca) que começou em 2008 não tinha que acontecer. Suas causas e consequências não são misteriosas. De fato, esse episódio específico e muito doloroso confirma o que os melhores economistas não partidários tentaram dizer aos nossos políticos e legisladores por décadas, especificamente, que quanto mais eles tentarem inflar e direcionar a economia, mais danos o resto de nós sofrerá, mais cedo ou mais tarde. Depois do fato, é sempre fácil de entender o que aconteceu, mas nesse caso, o bom e velho bom-senso teria nos dado toda a previsão necessária para evitar a confusão que nos metemos.

Nessa dissertação, nós rastreamos os caminhos da recessão desde as suas origens na bolha imobiliária até as políticas oferecidas para curar o que veio depois.

Não há maneira melhor de entender uma crise que começou no setor imobiliário do que pensando numa casa.

Uma casa deve ser construída sobre uma fundação firme e sustentável. Se for montada com boas intenções, mas com materiais e trabalho de baixa qualidade, desmoronará prematuramente. Se tivermos madeira demais e tijolos demais em cima de uma estrutura fraca, ou se o material para a construção é alocado incorretamente pela casa, então uma estrutura aparentemente sólida pode desmoronar como areia quando suas fraquezas forem expostas. Os americanos construíram e compraram muitas casas na última década, mas não, como ficou evidente, por boas razões ou com financiamento sólido. O porquê disso ter ocorrido deve ser parte de qualquer boa explicação da Grande Recessão.

Figura 1

Mas a aquisição da casa própria não é uma coisa ótima, a essência do tão admirado “sonho americano?” No país mais rico do mundo, todos não deveriam poder ter sua casa própria? O que poderia haver de errado com qualquer política que visasse tornar habitação mais acessível? Bom, nós poderíamos até desejar que não fosse assim, mas boas intenções não nos protegem das consequências das más políticas.

Os políticos se tornaram tão encantados com a casa própria e habitação acessível – e com os pontos que ganhariam dizendo que são os líderes de tais projetos – que pressionaram e jogaram a economia em um caminho artificial que trouxe uma inevitável (e dolorosa) correção. O congresso criou enormes autarquias hipotecárias financiadas pelo governo e as incentivou a baixar o nível de exigências para empréstimos. O congresso distorceu a legislação tributária para favorecer o investimento imobiliário sobre qualquer outro tipo de investimento. Através de políticas de dinheiro fácil, outra criação do congresso, o Federal Reserve, inundou a economia com liquidez e empurrou as taxas de juros para baixo. Cada uma dessas políticas incentivou que recursos demais da economia fossem direcionados para o setor imobiliário. Por uma parte significativa desta década, os nossos legisladores em Washington estavam preparando uma péssima fundação para o crescimento econômico.

O Livre Mercado foi o Vilão?

Chame de livre mercado, capitalismo, ou laissez-faire – culpar mercados supostamente sem restrições por cada choque econômico tem sido o refrão monótono da sabedoria convencional por cem anos. Dentre os que fazem esse tipo de apelo estão os políticos que posam como nossos salvadores; burocratas que são necessários para executar planos de resgate, e as partes interessadas que foram resgatadas. Então, temos os nossos colegas acadêmicos – os que somam um certo verniz de respeito – alardeando o “estímulo” que o resto de nós recebe ao sermos resgatados.

Raramente ocorre a essa gente que a intervenção do governo pode ser a causa do problema. Ainda temos o histórico do Federal Reserve, com milhares de páginas de regulamentação financeira e outras milhares de páginas referentes à política governamental imobiliária que demostram a absoluta falta de “laissez-faire” nas áreas da economia centrais à atual recessão.

Entender recessões exige saber por que muitas pessoas cometem os mesmos erros ao mesmo tempo. Nos últimos anos esses erros se concentraram no mercado imobiliário, com muitas pessoas superestimando o valor de suas casas ou imaginando que o seu valor continuaria a subir. Por que todos acreditaram nisso ao mesmo tempo? Houve alguma histeria misteriosa que nos acometeu do nada? As pessoas subitamente se tornaram irracionais? A verdade é a seguinte: as pessoas estavam reagindo a sinais produzidos pela economia. Esses sinais foram enganosos. Mas foram os sinais, e não as pessoas, que foram irracionais.

Figura 2

Imagine se nós observarmos um aumento enorme no número de acidentes de trânsito em uma cidade grande. Os carros continuam colidindo em interseções e todos os motoristas parecem fazer os mesmos tipos de erros ao mesmo tempo. A explicação mais provável é que os motoristas irracionalmente pararam de prestar atenção na rua, ou suspeitaríamos que alguma coisa talvez esteja errada com os sinais de trânsito? Mesmo com motoristas completamente racionais, sinais de trânsito defeituosos levarão a muitos acidentes e causarão a aparência de que houve uma irracionalidade gigante.

Os preços de mercado são bem parecidos com sinais de trânsito. Taxas de juros são um sinal importante. Elas conciliam o desejo de algumas pessoas em poupar – deixar o consumo para mais tarde – com o desejo de outras pessoas de investir em ideias, materiais, ou equipamentos que farão com que elas e seus negócios sejam mais produtivos. Em uma economia de mercado, taxas de juros mudam à medida que os gostos e condições mudam. Por exemplo, se as pessoas se tornam mais interessadas no consumo futuro em relação ao consumo atual, elas aumentarão a quantidade de dinheiro que economizam. Isso, por sua vez, baixará as taxas de juros, permitindo que outras pessoas captem mais dinheiro em empréstimos para investir em seus negócios. Maior investimento significa processos produtivos mais sofisticados, o que significa que mais produtos estarão disponíveis no futuro. Em uma economia de mercado funcionando normalmente, o processo garante que a poupança seja igual ao investimento, e ambos são consistentes com outras condições e com as preferências subjacentes do público.

Citação 1

Como ficou mais que óbvio em 2008, nós não temos uma economia de mercado funcionando normalmente. O governo se inseriu em quase todas as transações, manipulando e distorcendo os sinais de preços pelo caminho. Poucas intervenções são tão importantes quanto as que são associadas à política monetária implementada pelo Federal Reserve. A essência do dinheiro é que ele é uma meio de troca normalmente aceito, o que significa que ele é metade de cada ato de compra ou venda em uma economia. Como o sangue circulando pelo corpo, ele passa por todas as partes. Quando o Fed mexe com a oferta de moeda, ele não afeta apenas um ou dois mercados específicos, como a legislação imobiliária faz, mas um por um todos os mercados da economia. O poder do Fed lhe dá um enorme escopo para criar caos econômico.

Figura 3

Quando bancos centrais como o Federal Reserve inflam, eles disponibilizam aos bancos mais dinheiro para empréstimos, apesar do público não ter disponibilizado mais poupança. Os bancos respondem baixando as taxas de juros para atrair mais tomadores de empréstimo. Os tomadores de empréstimo veem as baixas taxas e acreditam que elas sinalizam que os consumidores estão mais interessados em postergar o consumo em relação ao consumo imediato. Tomadores de empréstimo então começam a investir nesses projetos de longo prazo, que agora são relativamente mais interessantes, dadas as taxas de juros mais baixas. O problema, porém, é que a demanda para esses projetos de longo prazo na verdade não existe. O público não está mais interessado no consumo futuro, apesar das taxas de juros sinalizarem que estão. Assim como os nossos sinais de trânsito defeituosos, uma taxa de juros distorcida pela inflação causará muitos “acidentes”. Esses acidentes são os investimentos errôneos em processos de produção de longo prazo.

Em algum momento, esses produtores engajados em processos de longo prazo acham o custo de aquisição das matérias-primas muito alto, particularmente quando fica claro que a vontade do público não era de adiar o consumo para o futuro, como foi previsto pela taxa de juros. Então, esses processos de longo prazo são abandonados, resultando na queda de preço dos ativos (tanto bens de capital como ativos financeiros, como por exemplo os preços das ações de companhias relevantes) e trabalhadores desempregados em setores associados à indústria de bens de capital.

Então começa a fase do colapso de um ciclo induzido pela política monetária; enquanto os preços de ações caem, preços dos ativos “desinflam”, a atividade da economia como um todo diminui, e o desemprego cresce. O colapso é a economia atravessando um processo de conserto e reorganização de capital e trabalho enquanto elimina os erros que foram feitos durante o boom 2 . Os pontos importantes aqui são que os erros são cometidos durante o boom artificial, e é durante o colapso que esses erros são corrigidos.

De 2001 até mais ou menos 2006, o Federal Reserve perseguiu a política monetária mais expansionista desde pelo menos os anos 70, pressionando as taxas de juros muito abaixo de seu valor natural.

O Fed empurrou a Federal Funds Rate real para patamares negativos (consumidores recebiam para tomar emprestado).
O Fed empurrou a Federal Funds Rate real para patamares negativos (consumidores recebiam para tomar emprestado).

Em janeiro de 2001, a Federal Funds Rate 3 , a principal taxa que o Fed tem como meta, estava em 6,5%. Apenas 23 meses mais tarde, depois de 12 cortes sucessivos, a taxa estava em meros 1,25% – mais de 80% abaixo o seu nível anterior. Ela ficou abaixo de 2% por dois anos, então o Fed finalmente começou a aumentar as taxas em junho de 2004. A taxa estava tão baixa durante esse período que a Federal Funds Rate real – a taxa nominal menos a taxa de inflação – ficou negativa por dois anos e meio. Isso significa que, na prática, os bancos estavam sendo pagos para pegar empréstimos! Crescendo rapidamente depois de meados de 2004, a taxa estava de volta à marca de 5% em maio de 2006, aproximadamente ao mesmo tempo em que os preços de imóveis começaram o seu colapso. Para poder manter a Fed Funds Rate tão baixa pelo período de cinco anos, o Fed teve que aumentar a oferta de moeda significantemente. Uma medida comum da oferta de moeda aumentou 32,5%. Muitos investimentos economicamente irracionais foram feitos durante esse tempo, mas não foi por causa de “exuberância irracional causada pela economia laissez-faire,” como alguns sugeriram. É improvável que diversos investimentos ruins e similares sejam resultado de irracionalidade generalizada, assim como grandes acidentes de trânsito são mais provavelmente resultado de sinais de trânsito defeituosos do que de muitas pessoas esquecendo como dirigir da noite para o dia. Eles foram o resultado de sinais de preços de mercado defeituosos, causados pela manipulação da moeda e do crédito feita pelo Fed. Políticas monetárias equivocadas feitas por uma agência do governo dificilmente podem ser consideradas “laissez-faire”.


Esse artigo é o primeiro de uma série de três que, todos juntos, foram originalmente publicados como o ensaio The House That Uncle Sam Built no Foundation for Economic Education . O artigo seguinte foi publicado no dia 5 de abril, e o último no dia 21 de abril.


Peter Boettke é professor de economia e filosofia na George Mason University e diretor do Programa F.A. Hayek para Estudos Avançados em Filosofia, Política e Economia no Mercatus Center. Ele é membro da rede de docentes do FEE.

Steven Horwitz é professor de economia na St. Lawrence University e autor de Microfoundations and Macroeconomics: An Austrian Perspective .


Notas:

  1. Banco central americano, às vezes chamado de Fed. (N. do E.)
  2. Palavra usada no inglês, sem tradução para o português, que significa período de alto crescimento econômico, geralmente seguido por uma recessão. (N. do T.)
  3. Equivalente à nossa taxa SELIC. (N. do E.)

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